Ficha do Proponente
Proponente
- ANDREA CACHEL (UEL)
Minicurrículo
- Professora Associada de Estética do Departamento de Filosofia e dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação Social e em Filosofia, da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Doutora em Filosofia pela Universidade de São Paulo-USP. Dedica-se à Filosofia do Cinema e à Produção de Sentido no Cinema, abordando especialmente os seguintes temas: mise-en-scène teatral e cinematográfica; filosofia da imagem; mulheres no cinema e na filosofia; consciência e representação; subjetividade e modernidade.
Ficha do Trabalho
Título
- A verticalidade da experiência perceptiva e a natureza do cinema em Maya Deren
Resumo
- A pesquisa visa aprofundar implicações estéticas da distinção de Maya Deren entre verticalidade e horizontalidade. Pretende-se mostrar que sua análise pressupõe um debate sobre a estrutura da percepção, o qual dialoga, ainda que não diretamente, com a filosofia de Bergson. O objetivo é sustentar que, em Deren, o caráter social da imagem cinematográfica resulta do seu potencial de nos conectar à verticalidade da nossa experiência perceptiva e nos permitir ultrapassar os limites da personalidade.
Resumo expandido
- As análises teóricas de Maya Deren revelam uma preocupação central, consistente na necessidade de definição da especificidade do meio fílmico, partindo de pressupostos tais como a ideia de que a distinção entre as linguagens artísticas resulta da singularidade de suas capacidades formais e de que “exista uma conexão direta entre essas capacidades e o domínio expressivo próprio de cada arte”. (Jackson, 2001, p.48). Nesse sentido, inserindo-se no âmbito do movimento modernista nas artes, Deren, especialmente em “Cinema as an Art Form”, preconiza que o cinema deva descobrir seus novos domínios e dimensões, superando seu atrelamento às disciplinas narrativas e à expressão meramente comunicativa e descritiva da realidade (2005, p. 22). Ademais, no Simpósio de 1953, “Poetry and the Film”, do qual ela participou, juntamente com Willard Maas, Arthur Miller, Dylan Thomas e Parker Tyler, apresenta a diferenciação fundamental entre verticalidade e horizontalidade. Destaca, nesse contexto, que enquanto a investigação vertical de uma situação “sonda as ramificações do momento e se preocupa com suas qualidades e sua profundidade”, a horizontal passaria continuamente “de uma circunstância – uma ação –a outra”. Ou, em outros termos, diferentemente de um cinema concebido a partir da horizontalidade e do encadeamento lógico das ações, no cinema vertical, as ações seriam reunidas e compiladas pelo fato de se referirem a uma emoção comum (Poetry, 1963). Minha proposta investigativa é, em primeiro lugar, partindo do entendimento de que Deren atrela a especificidade do meio fílmico à sua estrutura vertical (2005, p. 19-33), aprofundar as implicações estéticas da distinção entre verticalidade e horizontalidade na imagem cinematográfica. Tomando como base esse aprofundamento, meu objetivo consiste em argumentar que a análise de Maya Deren vai além da mera declaração modernista do meio e visa pensar a própria estrutura da percepção, dialogando, ainda que não diretamente, com a filosofia de Bergson, tal como lida por Deleuze (Jackson, 2001, p. 66-68; Deleuze, 2012). Pretendo sustentar que há, na visão de Deren, um caráter social ou humanista no cinema, o qual é atrelado ao potencial dele nos conectar à dimensão vertical da nossa própria experiência perceptiva. Explorarei, para tanto, elementos centrais do “An Anagram of Ideas on Art, Form and Film”, em que a cineasta faz uma análise dos componentes verticais e horizontais da nossa percepção da experiência e ressalta que a apreciação de uma obra baseada em realidades experienciais, ou internas, consiste no abandono de todas as realidades previamente concebidas e depende de uma atitude de receptividade inocente (Deren, 2005, p. 44-48). Nessa perspectiva, meu propósito é evidenciar algumas potencialidades filosóficas do entendimento de que haja uma “poética fílmica autônoma do tempo-imagem enquanto criadora de uma experiência emocional que transcende a subjetividade” e que “nos reconduz abruptamente a um estágio anterior às dissociações ficcionais da racionalidade” (Salazar-Ferrer, 2014, p. 96). Trata-se de mostrar que, criticando tanto o realismo como o surrealismo, a cineasta entende o cinema como um modo de ampliar o sujeito para além da dimensão pessoal e dos limites da personalidade (Michelson, 2001, p. 32). Por fim, a pesquisa procura mostrar também a importância, para Deren, da formação de um público capaz de desenvolver a atitude receptiva necessária para o ultrapassamento da mera estrutura horizontal da experiência e da linguagem fílmica (2005, p. 95).
Bibliografia
- DELEUZE, G. Bergsonismo. São Paulo: Editora 34, 2012.
DEREN, Maya and Bruce Rice McPherson. Essential Deren: Collected Writings on Film. Kingston, NY: Documentext, 2005.
JACKSON, Renata. “The Modernist Poetics of Maya Deren”. In: NICHOLS, Bill (ed). Maya Deren and the american avant-garde. University of California Press, 2001.p. 47-76.
MICHELSON, Annete. “Poetics and savage thought”. In: NICHOLS, Bill (ed). Maya Deren and the american avant-garde. Los Angeles: University of California Press, 2001.p. 21-46.
POETRY and the Film: A Symposium. Willard Maas. Film Culture, n. 29, p. 55-63, 1963. Disponível em: https://www.ubu.com/papers/poetry_film_symposium.html. Acesso em: 05 fev. 2026.
SALAZAR-FERRER, Olivier. Maya Deren et la transfiguration filmique du temps. Recherches & Travaux, v.84, p.89-106, 2014. Disponível em: http:// journals.openedition.org/rechtrav/680. Acesso em: 08 dez. 2025.