Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    ANDREA CACHEL (UEL)

Minicurrículo

    Professora Associada de Estética do Departamento de Filosofia e dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação Social e em Filosofia, da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Doutora em Filosofia pela Universidade de São Paulo-USP. Dedica-se à Filosofia do Cinema e à Produção de Sentido no Cinema, abordando especialmente os seguintes temas: mise-en-scène teatral e cinematográfica; filosofia da imagem; mulheres no cinema e na filosofia; consciência e representação; subjetividade e modernidade.

Ficha do Trabalho

Título

    A verticalidade da experiência perceptiva e a natureza do cinema em Maya Deren

Resumo

    A pesquisa visa aprofundar implicações estéticas da distinção de Maya Deren entre verticalidade e horizontalidade. Pretende-se mostrar que sua análise pressupõe um debate sobre a estrutura da percepção, o qual dialoga, ainda que não diretamente, com a filosofia de Bergson. O objetivo é sustentar que, em Deren, o caráter social da imagem cinematográfica resulta do seu potencial de nos conectar à verticalidade da nossa experiência perceptiva e nos permitir ultrapassar os limites da personalidade.

Resumo expandido

    As análises teóricas de Maya Deren revelam uma preocupação central, consistente na necessidade de definição da especificidade do meio fílmico, partindo de pressupostos tais como a ideia de que a distinção entre as linguagens artísticas resulta da singularidade de suas capacidades formais e de que “exista uma conexão direta entre essas capacidades e o domínio expressivo próprio de cada arte”. (Jackson, 2001, p.48). Nesse sentido, inserindo-se no âmbito do movimento modernista nas artes, Deren, especialmente em “Cinema as an Art Form”, preconiza que o cinema deva descobrir seus novos domínios e dimensões, superando seu atrelamento às disciplinas narrativas e à expressão meramente comunicativa e descritiva da realidade (2005, p. 22). Ademais, no Simpósio de 1953, “Poetry and the Film”, do qual ela participou, juntamente com Willard Maas, Arthur Miller, Dylan Thomas e Parker Tyler, apresenta a diferenciação fundamental entre verticalidade e horizontalidade. Destaca, nesse contexto, que enquanto a investigação vertical de uma situação “sonda as ramificações do momento e se preocupa com suas qualidades e sua profundidade”, a horizontal passaria continuamente “de uma circunstância – uma ação –a outra”. Ou, em outros termos, diferentemente de um cinema concebido a partir da horizontalidade e do encadeamento lógico das ações, no cinema vertical, as ações seriam reunidas e compiladas pelo fato de se referirem a uma emoção comum (Poetry, 1963). Minha proposta investigativa é, em primeiro lugar, partindo do entendimento de que Deren atrela a especificidade do meio fílmico à sua estrutura vertical (2005, p. 19-33), aprofundar as implicações estéticas da distinção entre verticalidade e horizontalidade na imagem cinematográfica. Tomando como base esse aprofundamento, meu objetivo consiste em argumentar que a análise de Maya Deren vai além da mera declaração modernista do meio e visa pensar a própria estrutura da percepção, dialogando, ainda que não diretamente, com a filosofia de Bergson, tal como lida por Deleuze (Jackson, 2001, p. 66-68; Deleuze, 2012). Pretendo sustentar que há, na visão de Deren, um caráter social ou humanista no cinema, o qual é atrelado ao potencial dele nos conectar à dimensão vertical da nossa própria experiência perceptiva. Explorarei, para tanto, elementos centrais do “An Anagram of Ideas on Art, Form and Film”, em que a cineasta faz uma análise dos componentes verticais e horizontais da nossa percepção da experiência e ressalta que a apreciação de uma obra baseada em realidades experienciais, ou internas, consiste no abandono de todas as realidades previamente concebidas e depende de uma atitude de receptividade inocente (Deren, 2005, p. 44-48). Nessa perspectiva, meu propósito é evidenciar algumas potencialidades filosóficas do entendimento de que haja uma “poética fílmica autônoma do tempo-imagem enquanto criadora de uma experiência emocional que transcende a subjetividade” e que “nos reconduz abruptamente a um estágio anterior às dissociações ficcionais da racionalidade” (Salazar-Ferrer, 2014, p. 96). Trata-se de mostrar que, criticando tanto o realismo como o surrealismo, a cineasta entende o cinema como um modo de ampliar o sujeito para além da dimensão pessoal e dos limites da personalidade (Michelson, 2001, p. 32). Por fim, a pesquisa procura mostrar também a importância, para Deren, da formação de um público capaz de desenvolver a atitude receptiva necessária para o ultrapassamento da mera estrutura horizontal da experiência e da linguagem fílmica (2005, p. 95).

Bibliografia

    DELEUZE, G. Bergsonismo. São Paulo: Editora 34, 2012.
    DEREN, Maya and Bruce Rice McPherson. Essential Deren: Collected Writings on Film. Kingston, NY: Documentext, 2005.
    JACKSON, Renata. “The Modernist Poetics of Maya Deren”. In: NICHOLS, Bill (ed). Maya Deren and the american avant-garde. University of California Press, 2001.p. 47-76.
    MICHELSON, Annete. “Poetics and savage thought”. In: NICHOLS, Bill (ed). Maya Deren and the american avant-garde. Los Angeles: University of California Press, 2001.p. 21-46.
    POETRY and the Film: A Symposium. Willard Maas. Film Culture, n. 29, p. 55-63, 1963. Disponível em: https://www.ubu.com/papers/poetry_film_symposium.html. Acesso em: 05 fev. 2026.
    SALAZAR-FERRER, Olivier. Maya Deren et la transfiguration filmique du temps. Recherches & Travaux, v.84, p.89-106, 2014. Disponível em: http:// journals.openedition.org/rechtrav/680. Acesso em: 08 dez. 2025.