Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Débora Regina Opolski (IFPR)

Minicurrículo

    Débora Opolski é doutora em Comunicação e Linguagens, com a tese “A fragmentação da performance vocal do personagem no cinema a partir da perspectiva da edição de diálogos”. Integra os grupos de pesquisa Cinecriare – Cinema: Criação e Reflexão da UNESPAR e Lápis da UFPE. Autora dos livros Introdução ao desenho de som (2013, UFPB) e Edição de diálogos no cinema (2021, UFPR). Professora do curso técnico em Produção de áudio e vídeo do IFPR e da Pós-graduação em cinema e artes do vídeo, da UNESPAR

Coautor

    Leonardo Willian de Souza Camargo (UNESPAR)

Ficha do Trabalho

Título

    O vento e o tempo: escuta e duração em O Cavalo de Turim

Seminário

    Histórias e tecnologias do som no audiovisual

Resumo

    Esta comunicação apresenta uma análise do filme O Cavalo de Turim de 2011. Utilizando as imagens espectrais como ferramenta metodológica, pretendemos evidenciar que, através da presença incessante, a sonoridade do vento cria a experiência de duração que sustenta a temporalidade do filme. Considerando a centralidade da escuta, propomos incorporar de maneira mais sistemática o campo de estudos do som nas análises que possuem como foco o slow cinema.

Resumo expandido

    Esta comunicação pretende apresentar um argumento que relaciona a estética do slow cinema com a trilha sonora, mais especificamente com a sonoridade do vento no filme O Cavalo de Turim de 2011, dirigido por Ágnes Hranitzky e Béla Tarr.
    O slow cinema é uma estética que investe na duração prolongada dos planos, na contemplação visual e no mínimo encadeamento de eventos da narrativa. De acordo com Flanagan (2012), ele é frequentemente associado a um conjunto de práticas que geram ênfase na duração, com planos longos como dispositivo estrutural para representar a quietude e a vida cotidiana.
    Em O Cavalo de Turim, acompanhamos a exaustiva rotina de um pai e uma filha, sobrevivendo em um regime de escassez. Os longos planos-sequência e o som do vento, constroem uma atmosfera de desconforto e espera. O vento é o elemento cinematográfico mais presente durante o filme. Nas tomadas externas, os personagens diligenciam uma batalha contra uma ferrenha ventania enquanto tentam executar atividades cotidianas. Nas cenas internas, o som do vento continua presente mesmo que não possamos enxergá-lo, presentificando a atmosfera de ameaça e vulnerabilidade diante da ventania que se impõe poderosa diante dos personagens.
    Nesse contexto, levantamos a seguinte questão: de que maneira a sonoridade do vento participa da construção da experiência temporal do filme?
    A prática cinematográfica evidenciou que a presença de um som contínuo é um elemento importante para a criação da ilusão de continuidade do movimento, para a dissolução dos cortes entre um plano e outro. De modo análogo, a composição de trilhas musicais sinfônicas (característica do período do cinema clássico hollywoodiano) também desempenha a função de atenuar as descontinuidades da montagem, operando como um mecanismo de sutura entre os planos, conforme apontado por Claudia Gorbman (1987). Chion (1994), por sua vez, ao descrever a ideia da audiovisão analisando a abertura do filme Persona, de Bergman, provou que o som acrescenta o valor de conexão temporal entre um plano e outro, criando um fluxo para as imagens justapostas.
    Dentro da categorização que divide os tipos de sonoridades na trilha sonora, o vento é considerado um som de ambiente que serve para localizar o audioespectador geograficamente na narrativa (Galetto, 2021 e Carreiro, 2024). Nesta pesquisa, entendemos que o som ambiente, especificamente o som do vento, através da presença intensa, densa e constante, tem a função de sustentar a duração temporal da história.
    Para refletir sobre a recorrência da sonoridade do vento ao longo da obra, utilizaremos as imagens espectrais como ferramenta metodológica (Opolski; Carreiro, 2022). Elas permitem que criemos uma representação visual da materialidade acústica do som para que possamos utilizar a visão como sentido de apoio para a compreensão da estrutura sonora. A visualização da estrutura acústica nos permite compreender as características de cada uma das sonoridades do vento, para que possamos refletir sobre este elemento e a relação dele com o filme. Encontramos repetições, compreendemos a dinâmica ao identificar as oscilações das rajadas e percebemos a ocupação do espectro, identificando ventos agudos e graves. Ao olhar para as figuras, além de perceber dissonâncias, consonâncias, similaridades e diferenças, conseguimos demonstrar, principalmente, que a sonoridade do vento em O Cavalo de Turim atua como um elemento de materialização física e perceptiva do tempo. A presença contínua (O filme tem duração de 2 horas e 26 minutos; desse total, 1 hora, 54 minutos e 19 segundos — o equivalente a 78,3% da trilha sonora — são ocupados pela presença do som do vento), produz uma experiência de duração que sustenta a temporalidade do filme.
    Ao final, a partir da reflexão sobre o filme em questão, propomos deslocar as abordagens do slow cinema tradicionalmente centradas no campo visual para uma perspectiva que reconheça a centralidade da escuta na construção da experiência temporal.

Bibliografia

    CARREIRO, Rodrigo (org.). O som do filme: uma introdução. 2 ed. e rev. Curitiba: Editora UFPR, 2024.

    CHION, Michel. Audiovisão: som e imagem no cinema. Texto e Grafia, 1994.

    FLANAGAN, Matthew. “Slow Cinema”: temporality and style in contemporary art and experimental film. 2012. Tese (Doutorado em Filosofia) – University of Exeter, Exeter, 2012.

    GALETTO, Ulisses. O sentido do som: uma introdução à pós-produção de som para audiovisual. Curitiba: Appris, 2021.

    GORBMAN, Claudia. Unheard Melodies: Narrative Film Music. Bloomington: Indiana University Press, 1987.

    O Cavalo de Turim. Direção: Béla Tarr e Ágnes Hranitzky. Hungria/França/Alemanha/Suíça/Estados Unidos: TT Filmműhely, 2011. Filme (146 min), son., p&b.

    OPOLSKI, Débora; CARREIRO, Rodrigo. O espectro do som como ferramenta de análise fílmica PÓS: Revista do Programa de Pós-graduação em Artes da EBA/UFMG. v. 12, n. 24, jan-abr. 2022 Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/revistapos/article/view/36118