Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Marcelo Rodrigo Mingoti Müller (USP)

Minicurrículo

    Marcelo Müller é professor no Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da ECA/USP. Pesquisador em Inteligência Artificial e Realidade Virtual, diretor e roteirista, formou-se pela ECA/USP (graduação, mestrado e doutorado) e pela EICTV (Cuba). Escreveu filmes como Infância Clandestina, La Mujer de la Fila e O Outro Lado do Paraíso, séries como Encerrados e Brilhante FC e dirigiu o longa-metragem Eu Te Levo.

Ficha do Trabalho

Título

    Bora fazer um Holodeck? Poéticas para o cinema-dispositivo com IA

Resumo

    Este trabalho analisa obras audiovisuais geradas com autonomia por sistemas de inteligência artificial, investigando como se organiza a autoria quando o realizador não produz o filme diretamente, mas sim as condições de emergência dos filmes possíveis. Articulando a filosofia do aparelho (Flusser) e a noção de filme-dispositivo (Oliveira Junior), propomos que elaborar um sistema generativo é uma forma fundamentada de mise en scène em que a autoria coexiste com a emergência do resultado.

Resumo expandido

    Até pouco tempo atrás, a ficção era o único lugar onde computadores podiam fazer filmes de forma autônoma. Ainda nos anos 1950, no conto A Savana, de Ray Bradbury (2020), um computador acessava o inconsciente dos usuários para construir ambientes tão imersivos que se confundiam com a realidade. Recentemente, já diante da emergência dos sistemas de geração de mídias por Inteligência Artificial, esse assunto foi retomado em Joan Is Awful (Black Mirror, 2023), episódio em que a vida de uma personagem é convertida em série audiovisual personalizada e continuamente atualizada sem seu consentimento por uma máquina tão poderosa que os próprios executivos do estúdio não eram capazes de explicar seu funcionamento. Em 1997, Janet Murray (2003) utilizou o Holodeck, invento presente em diversos episódios da série Star Trek, como síntese das características das narrativas que utilizam o computador como meio: mais que tramas, o sistema é capaz de gerar mundos audiovisuais completos e interativos sob medida para o interator. Hoje, mesmo distantes das utopias e distopias da ficção, começamos a observar a emergência de obras e processos de realização que apresentam possibilidades concretas de geração automática, com diferentes níveis de personalização e interatividade em tempo real.
    Neste trabalho observamos o surgimento de três tipos de obras audiovisuais concebidas por humanos mas produzidas com autonomia relativa por sistemas de Inteligência Artificial articulados com esse fim: obras infinitas geradas de forma contínua, como Nothing, Forever (Mismatch Media, 2022), uma sitcom gerada autonomamente em fluxo quase ininterrupto na Twitch desde o final de 2022; a produção personalizada de conteúdo a partir de informações pessoais, como o Spotify Wrapped, um “algorithmic event” (Annabell e Vindum Rasmussen, 2025) em que cada usuário da plataforma recebe uma narrativa audiovisual singular construída a partir dos seus dados de escuta coletados durante o ano; e a geração agêntica de filmes, como o experimento realizado pela agência Monks para a Puma em 2025 a partir de padrões encontrados nas campanhas anteriores da marca.
    Nosso interesse principal é entender e descrever o funcionamento desses sistemas a partir da intervenção humana em cada um deles, na tentativa de avaliar como se dão a concepção, a realização e a responsabilidade de seus realizadores sobre as obras. Ao pensar o operador da imagem técnica como alguém que atua no interior do programa do aparelho, explorando e tensionando suas possibilidades em vez de criar fora dele, Flusser (1985) antecipa que, nesses casos, o gesto criativo central passa a consistir no design do dispositivo e na configuração do seu espaço de variação. O que o artista produz não é o filme, mas as condições de emergência dos filmes possíveis. De forma próxima, o conceito de filme-dispositivo desenvolvido por Oliveira Junior (2013) desloca a mise en scène do controle total do espaço fílmico para o design de situações geradoras: o cineasta estabelece condições e restrições dentro das quais o filme emerge, sem determinar cada elemento do resultado. Podemos aplicar esse conceito à produção de obras audiovisuais com inteligência artificial? É possível falar em mise en scène compartilhada, em que o autor estabelece o dispositivo enquanto a IA executa a encenação?
    Nesses casos a autoria não desaparece, mas se concentra na arquitetura do sistema e nos critérios de variação e validação do resultado. Quem define o universo de referências, os padrões e os limites da agência tanto do interator quanto da IA está exercendo mise en scène sobre o regime do que pode acontecer. O design do dispositivo generativo é, portanto, uma forma de realização cinematográfica historicamente fundamentada, mas estruturalmente nova, na medida em que distribui a construção da cena entre humanos, máquinas e, em alguns casos, o próprio público.

Bibliografia

    ANNABELL, Taylor; VINDUM RASMUSSEN, Nina. An algorithmic event: the celebration and critique of Spotify Wrapped. New Media & Society, 2025. DOI: 10.1177/14614448251391301.
    BRADBURY, Ray. A savana. In: ______. O homem ilustrado. Tradução de Cássio de Arantes Leite. São Paulo: Minotauro, 2020. p. 9–28. [Publicação original: 1951] FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. São Paulo: Hucitec, 1985.
    MISMATCH MEDIA. Nothing, Forever. [Série audiovisual gerada por IA; transmissão ao vivo]. Twitch, 2022–. Disponível em: https://www.twitch.tv/watchmeforever. Acesso em: 17 mar. 2026.
    MURRAY, Janet H. Hamlet no Holodeck: o futuro da narrativa no ciberespaço. Tradução de Elissa Khoury Daher e Marcelo Fernandez Cuzziol. São Paulo: Itaú Cultural: Unesp, 2003. [Original: 1997] OLIVEIRA JUNIOR, Luiz Carlos. A mise en scène no cinema: do clássico ao cinema de fluxo. Campinas: Papirus, 2013.