Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Matheus Emanuel Moreira de Araújo (UFBA)

Minicurrículo

    Soteropolitano, graduando do Bacharelado Interdisciplinar em Artes, artista do audiovisual e pesquisador PIBIC com bolsa Fapesb no projeto “Inteligência artificial, memória e história: usos de IA generativa na obra de Mayara Ferrão”, orientado pelo professor Marcelo Rodrigues Souza Ribeiro.

Ficha do Trabalho

Título

    Inteligência artificial, memória e história: usos de IA generativa na obra de Mayara Ferrão

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    A proposta de trabalho tem como objetivo apresentar os resultados obtidos a partir da pesquisa de iniciação científica intitulada “Inteligência artificial, memória e história: usos de IA generativa na obra de Mayara Ferrão”, projeto que consiste na análise e catalogação das obras da artista Mayara Ferrão que utilizam recursos de inteligência artificial generativa, relacionando o trabalho da artista com o conceito de fabulação crítica e a importância das imagens nos processos de subjetivação.

Resumo expandido

    O projeto “Inteligência artificial, memória e história: usos de IA generativa na obra de Mayara Ferrão” analisa as obras da artista Mayara Ferrão atravessadas pelo uso de inteligência artificial generativa. Com o seu trabalho “Álbum de desesquecimentos”, que atingiu alcance internacional, Mayara concretizou em imagens, através da IA, as possibilidades de realidades que não foram registradas nos arquivos dominantes da história e da arte. Ao criar cenários de afeto entre mulheres, a artista confronta os apagamentos históricos principalmente em dois campos: a quase inexistência de registros documentais sobre a vivência de uma sexualidade não heteronormativa e a falta de representação histórica da vivência de momentos de ternura para corpos negros.

    Para fundamentar a pesquisa, foram realizadas pesquisas bibliográficas para compreender o estado da arte na área da produção artística com IA e a compreensão das condições de vida da população negra a partir do pensamento negro. Ao final da pesquisa, será elaborado um inventário com informações básicas e descrições analíticas abreviadas das obras e processos audiovisuais com uso de IA realizados por Mayara Ferrão, levando em conta também a percepção da própria artista acerca de sua obra. Na apresentação do trabalho no eixo temático proposto, parte desse inventário será apresentado juntamente com uma análise pormenorizada das imagens e os contextos por elas abordados.

    Os trabalhos de Mayara construídos através de técnicas que utilizam inteligência artificial e colagem digital ocupam um espaço no imaginário comumente ignorado na história brasileira hegemônica: a existência da vida negra fora do contexto de sujeição e trabalho forçado e a prática da sexualidade fora da heteronormatividade em um período anterior à existência de um movimento LGBTQIAPN+. As possibilidades levantadas pela obra da artista contribuem para a criação de um imaginário mais amplo sobre a existência de diferentes formas de vivência, frequentemente transformadas em tabu e suprimidas pelos arquivos históricos. O trabalho de Ferrão se aproxima do conceito de fabulação crítica da autora Saidiya Hartman, onde, ao trabalhar “com e contra o arquivo”, encontra-se a capacidade de imaginar possibilidades diante da “impossibilidade de representar as vidas de cativos e cativas precisamente por meio do processo de narração”.

    Dentro de uma lógica de fluxo incansável de imagens intermediadas pelos algoritmos de redes sociais e o seu desempenho na construção de subjetividades na contemporaneidade, o trabalho com IA de Mayara Ferrão, representado principalmente pelo “Álbum de desesquecimentos” cumpre uma necessidade que surge não apenas a partir da artista em observar e concretizar, mesmo que através de imagens algorítmicas, a possibilidade de vivências que se desviam da doutrina hegemônica, mas também de uma população que possui um imaginário coletivo frequentemente alimentado por imagens e representações que reforçam vieses racistas da cultura brasileira. Destaca-se também o próprio método desenvolvido pela artista para pesquisar, alimentar a ferramenta e selecionar as imagens geradas por IA, contornando os usuais estereótipos reproduzidos pelos softwares, dada a tendência da tecnologia de reproduzir vieses impregnados nas informações que alimentam os bancos de dados das empresas que desenvolvem as ferramentas de IA.

    A análise da obra de Mayara Ferrão envolve a percepção do uso de imagens para a construção de um processo de subjetivação coletivo, a negação de uma história única sobre o povo preto e a subversão de ferramentas colonialistas para perturbar as normas que regem um sistema que herda os mecanismos de perpetuação do poder através da história.

Bibliografia

    FERRARI, Pollyana. A era do prompt: inteligência artificial, colonialismo, devires e desinformação. Cachoeirinha: Fi, 2024. 138 p. ISBN 978-65-85958-35-6. Disponível em: http://www.editorafi.org. Acesso em: 18 mar. 2026.

    HARTMAN, Saidiya. Vênus em dois atos. Tradução de Fernanda Silva e Sousa e Marcelo R. S. Ribeiro. In: SPILLERS, Hortense J. et al. Pensamento negro radical: antologia de ensaios. São Paulo: Crocodilo; n-1 edições, 2021. p. 105-129.

    SPILLERS, Hortense J. Bebê da mamãe, talvez do papai: uma gramática estadunidense. Tradução de Allan K. Pereira e Kênia Freitas. In: SPILLERS, Hortense J. et al. Pensamento negro radical: antologia de ensaios. São Paulo: Crocodilo; n-1 edições, 2021. p. 29-69.

    WYNTER, Sylvia. Nenhum Humano Envolvido: carta aberta a colegas. Tradução de Stella Z. Paterniani. In: SPILLERS, Hortense J. et al. Pensamento negro radical: antologia de ensaios. São Paulo: Crocodilo; n-1 edições, 2021. p. 71-103.