Ficha do Proponente
Proponente
- Laura Lima de Souza (UNICAMP)
Minicurrículo
- Mestranda em Multimeios pela UNICAMP, com foco em narrativas sáficas e de gênero, principalmente em relação a direção da francesa Céline Sciamma. Graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 2023, com o trabalho de conclusão de curso sendo seu roteiro premiado pelo laboratório de roteiros queers do Rainbowfest, que resultou em uma pesquisa teórica no campo da teoria queer e a epistemologia do armário, e um curta metragem juvenil de nome “A verdade por dentro do meu armário” (2023).
Ficha do Trabalho
Título
- Performatividade e Identidade: O Cinema de Sciamma sob a Óptica de Judith Butler
Eixo Temático
- ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS
Resumo
- Este trabalho apresenta uma análise do filme Tomboy (2011), de Céline Sciamma, sob a ótica da performatividade de gênero de Judith Butler. O trabalho investiga como a direção de Sciamma materializa a tese de que o gênero não é uma essência biológica, mas uma construção cultural reiterada por práticas sociais. A narrativa acompanha Laure, uma criança que assume a identidade de Michael, evidenciando a dualidade entre o comportamento doméstico e a performance da masculinidade nos espaços públicos.
Resumo expandido
- Este trabalho deriva da pesquisa de mestrado em andamento, intitulada “A erotização e a poetização do corpo feminino: o cinema sáfico de Céline Sciamma”. O objetivo central deste recorte é analisar como a direção de Sciamma em Tomboy (2011) articula visualmente as teorias de performatividade de gênero. Partindo da premissa de que o cinema é uma “tecnologia de gênero” capaz de moldar subjetividades, investigamos como a decupagem e a narrativa fílmica de Sciamma dialogam com a desconstrução da ontologia do gênero.
A base teórica deste estudo fundamenta-se no pensamento de Judith Butler (1956-), especialmente em sua obra Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade (1990). Butler propõe que o gênero não é uma essência biológica ou uma identidade fixa, mas uma construção cultural imposta e moldada repetitivamente. Para a autora, não existe um “eu” pré-discursivo, a identidade é o resultado de comportamentos e imitações que, pela repetição, são naturalizados como normas sociais.
Essa perspectiva é complementada pelas contribuições de Teresa de Lauretis (1938-2026), que define o gênero como o produto de diversas tecnologias sociais, incluindo o cinema. De Lauretis abriu caminho para que o campo linguístico e político questionasse as representações audiovisuais. Soma-se a isso a visão de Michel Foucault em A História da Sexualidade Vol. 1: A Vontade de Saber (1976), onde a sexualidade e o gênero são compreendidos como um conjunto de efeitos produzidos nos corpos, comportamentos e relações sociais através de dispositivos de poder.
O pensamento de Butler encontra materialização estética na obra de Sciamma, particularmente em Tomboy. O filme acompanha Laure, uma criança de dez anos que, ao se mudar para um novo bairro, assume a identidade de Michael perante a comunidade. A narrativa evidencia a dualidade performativa da personagem: no ambiente doméstico, mantém comportamentos atribuídos ao feminino; no espaço público, Michael reproduz os códigos de masculinidade de seus colegas, como ao jogar futebol.
A direção de Sciamma evita o psicologismo excessivo, focando no gesto e na observação. Laure/Michael parece compreender precocemente que a subversão da norma não é socialmente aceita, o que se confirma quando sua mãe, ao descobrir a transição identitária, impõe a punição como forma de restabelecer a norma de gênero. Uma sequência emblemática dessa construção é o momento em que a criança corta um maiô para transformá-lo em sunga antes de ir ao lago. Ao confrontar sua imagem no espelho e notar a ausência do órgão genital masculino, o filme destaca a tensão entre o corpo biológico e a performance da identidade, evidenciando o esforço corporal e material necessário para sustentar a performatividade.
Sciamma utiliza o cinema para questionar as normas sociais que regem os corpos desde a infância, através de uma direção com olhar empático e emotivo. Tomboy demonstra um potente valor didático-pedagógico ao expor que o gênero é uma atuação incessante. A obra não apenas representa uma experiência queer, mas atua como uma ferramenta crítica que desafia o binarismo, validando a complexidade das vivências infantis fora das expectativas heteronormativas.
Bibliografia
- BUTLER, Judith. Regulações de gênero. Tradução de Tiago de Oliveira. Cadernos Pagu, n. 36, p. 249-274, 2011. Disponível em: link
BUTLER, Judith. Judith Butler escreve sobre sua teoria. Academia.edu. Disponível em: link
DE LAURETIS, Teresa. A tecnologia do gênero. In: Technologies of gender: essays on theory, film, and fiction. Bloomington: Indiana University Press, 1987. p. 1-30.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: a vontade de saber. Tradução de Maria Thereza da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1977.
SCOTT, Joan Wallach. Gender and the politics of history. New York: Columbia University Press, 1988.
TOMBOY. Direção de Céline Sciamma. França: Pyramide Distribution, 2011. (82 min.).