Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Tomyo Costa Ito (ECA-USP)

Minicurrículo

    Tomyo Costa Ito é pós-doutorando na ECA-USP (Bolsista FAPESP), onde pesquisa a mise-en-scène dos filmes de propaganda do Khmer Vermelho a partir de trabalho em arquivos no Camboja. Em 2023, atuou como pesquisador no projeto Nitratos da Cinemateca Brasileira. Doutor pela UFMG (2021), defendeu tese sobre o cineasta cambojano Rithy Panh. Também realiza documentários e desenvolve pesquisas sobre imagens de arquivo da imigração japonesa no Brasil.

Ficha do Trabalho

Título

    A montagem de um diálogo: arquivo e testemunho em Anistia 79 (2026), de Anita Leandro

Seminário

    Teoria de Cineastas: dos processos de criação à dimensão política do cinema

Resumo

    A proposta investiga o pensamento e a prática cinematográfica de Anita Leandro a partir de Anistia 79 (2026), em articulação com os escritos da cineasta e com suas leituras do cinema de Rithy Panh. Analisa procedimentos de montagem que constroem uma cena de diálogo entre arquivos do exílio e os exilados colocados diante dessas imagens, buscando compreender como o filme elabora, no presente, questões éticas e políticas ligadas ao testemunho, ao arquivo e à memória da ditadura.

Resumo expandido

    A proposta investiga o pensamento e a prática cinematográfica de Anita Leandro, tomando Anistia 79 (2026) como filme em que reflexão e realização se articulam. Construído a partir de imagens filmadas por exilados brasileiros durante a Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, realizada em Roma, em 1979, o longa retoma debates, articulações e impasses em torno da anistia. Quase meio século depois, o filme reinscreve esses arquivos no presente para reabrir o debate sobre a permanência do aparato repressivo da ditadura e a impunidade dos torturadores. A partir da fala da própria cineasta e de seus escritos sobre documentário, interessa compreender como essa elaboração se realiza por meio de um trabalho de montagem em que o arquivo atua como disparador da fala e da escuta, instaurando uma cena de diálogo no presente.
    Nesse sentido, a análise se detém sobre alguns procedimentos centrais de Anistia 79. O primeiro deles é a colocação dos exilados políticos diante das imagens da conferência, fazendo com que o arquivo passe a estruturar suas falas e a própria narrativa do filme. A isso se somam escolhas de montagem que reforçam esse diálogo com o material de arquivo, como o uso de duas câmeras para restituir, pelo raccord, o diálogo entre quem vê e a imagem vista, a montagem em cortes secos, marcada pela interrupção, e a desaceleração de planos breves e decisivos, à qual o filme confere duração para fazer emergir gestos, olhares e hesitações. Em alguns momentos, o procedimento se desdobra ainda nas multitelas, que colocam em simultaneidade a imagem e a reação de quem a vê, tornando visível a experiência do espectador filmado.
    Esse horizonte se sustenta na concepção de história que Anita Leandro (2026) explicita em sua fala no II Seminário Internacional Arquivo e Contra-Arquivo. Em diálogo com Walter Benjamin, a montagem é pensada como interrupção do fluxo narrativo, capaz de fazer emergir farrapos, lacunas e detalhes mínimos que as narrativas contínuas do progresso tendem a apagar. Em Anistia 79, essa operação se realiza na desaceleração de certas imagens, na atenção dada a rostos, gestos, hesitações e silêncios, e na recusa de preencher integralmente o passado. O arquivo comparece, então, como rastro e incompletude, trazido ao presente para abrir uma cena de escuta e de diálogo.
    Para além de sua fala sobre o filme, a proposta também pensa esses procedimentos à luz de seus escritos, com destaque para os textos sobre o cineasta cambojano Rithy Panh, a partir dos quais Anita Leandro formula questões que atravessam seu próprio cinema e iluminam a análise de Anistia 79. Em seus textos, destacam-se a associação entre arquivos e fala das pessoas filmadas, a atenção ao rosto filmado e a recusa da entrevista dirigida, delegando aos arquivos a responsabilidade de interpelar a testemunha. Os textos de Anita Leandro (2013; 2016) sobre o cinema de Rithy Panh oferecem, assim, um vocabulário crítico para identificar procedimentos ligados à presença dos arquivos em cena, à fala que surge de seu encontro com eles e à construção de um diálogo entre imagem e filmados.
    A aproximação entre Anita Leandro e Rithy Panh permite, assim, pensar um modo de fazer documentário em que as questões éticas e políticas ligadas ao uso dos arquivos e à elaboração de passados autoritários se apresentam na própria construção do filme. Em Anistia 79, o pensamento que orienta a realização se torna legível nos procedimentos que articulam arquivos e pessoas filmadas em uma relação com o presente, abrindo o filme a um horizonte de reflexão que não se esgota na sala de cinema. As lacunas dos arquivos e as possibilidades abertas pelas falas que surgem de seu encontro com os exilados passam, então, a implicar também o espectador, confrontado no presente com um passado que permanece em disputa.

Bibliografia

    LEANDRO, Anita. Um arquivista no Camboja. In: MAIA, Carla; FLORES, Luís Felipe (Org.). Catálogo da mostra O cinema de Rithy Panh. Centro Cultural Banco do Brasil, p. 185-198, 2013.
    LEANDRO, Anita. A história na primeira pessoa: em torno do método de Rithy Panh. E-compós, Brasília, v.19, n.3, set./dez. 2016.
    LEANDRO, Anita. Imagens do exílio. Conferência de abertura apresentada no II Seminário Internacional Arquivo e Contra-Arquivo: política e migração das imagens, realizado entre 14 e 17 de abril de 2026, na Cinemateca do MAM e na FGV CPDOC, Rio de Janeiro, 14 abr. 2026.