Ficha do Proponente
Proponente
- Isadora Meneses Rodrigues (UFCA)
Minicurrículo
- Professora do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Cariri (UFCA). Doutora em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Possui graduação em Jornalismo e mestrado em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Tem experiência com escrita de roteiros de longa-metragem, é integrante do grupo de pesquisa Observatório Cariri de Políticas e Práticas Culturais e coordena o projeto de extensão Corte Seco – revista de audiovisual.
Ficha do Trabalho
Título
- O cérebro é o monstro: a conformação do horror ao órgão sem corpo no cinema
Seminário
- Estudos do Insólito e do Horror no Audiovisual
Resumo
- O trabalho analisa a figura do cérebro como elemento constituinte da monstruosidade no cinema de horror, em especial nas aparições do órgão sem corpo que emergem no cinema B dos anos 1950-60. Em diálogo com Noël Carroll, Canguilhem, Foucault, Francisco Ortega e Paula Sibilia, argumento que tais figuras perigosas e impuras participam da conformação de um regime de saber-poder que localiza no cérebro a origem da anormalidade e dos desvios comportamentais, antecipando a neurocultura contemporânea.
Resumo expandido
- Desde a consolidação do cinema de horror no ciclo dos monstros da Universal Pictures, podemos observar certa recorrência da evocação da figura do cérebro humano como elemento decisivo na construção ontológica e ideológica do monstro. Em Frankenstein (1931, James Whale), por exemplo, a origem do cérebro transplantado orienta a construção moral da criatura. Ainda que o filme introduza ambiguidades que relativizam esse determinismo biológico ao longo da narrativa, a ênfase inicial sugere que a degeneração inscrita no “cérebro anormal” implica uma predisposição à violência.
Essa matriz narrativa assume, no cinema do século XX e início do XXI, diferentes formas. Em Night of the Living Dead (1968), de George A. Romero, a destruição do cérebro é única forma de neutralização dos mortos-vivos. Em The Happening (2008), de M. Night Shyamalan, o horror assume a forma de uma ameaça neurotóxica informe que induz comportamentos suicidas. Já em Altered States (1980), de Ken Russell, a manipulação de estados de consciência provoca regressões a um estado físico primitivo, indicando que a intervenção no cérebro pode desestabilizar os limites do humano. Paralelamente, a frequente associação entre cérebro e loucura, historicamente consolidada por discursos biomédicos da modernidade, reforça a a ideia do órgão como origem de desvios comportamentais. Em The Exorcist (1973), de William Friedkin, por exemplo, apesar da forte presença do elemento sobrenatural, a narrativa não prescinde de uma etapa de enquadramento médico-científico, quando o psiquiatra de Regan procura no seu sistema nervoso uma explicação para a sua conduta desviante.
Foi nas décadas de 1950 e 1960, no contexto do cinema B inglês e norte-americano, que essa lógica de aparição do cérebro monstruoso se radicalizou com a emergência da figura do órgão sem corpo. Filmes como Donovan’s Brain (1953), The Brain (1962), Project X (1968), The Brain That Wouldn’t Die (1962), They Saved Hitler’s Brain (1968), The Brain from Planet Arous (1957), Fiend Without a Face (1958), entre outros, apresentam o cérebro em uma cuba como forma paradigmática do monstruoso: uma inteligência dissociada da totalidade do corpo humano, dotada de capacidades cognitivas ampliadas.
Partindo desse contexto, o presente trabalho investiga a conformação do horror ao cérebro sem corpo no cinema das décadas de 1950 e 1960. A nossa hipótese é que essa imagem radicaliza a definição proposta por Noël Carroll (1999), para quem o horror artístico emerge da presença de entidades perigosas e impuras, formas intersticiais que violam categorias ontológicas estáveis. O cérebro em uma cuba, nesse sentido, desorganiza dualismos fundamentais, como interior/exterior, mente/corpo, orgânico/inorgânico e sujeito/objeto, e se configura como um operador privilegiado de impureza.
Em diálogo com os escritos de Canguilhem (2002) e Foucault (2002 e 2006), argumentamos que tais representações não apenas refletem, mas também participam da produção de um regime de saber-poder que localiza a origem da anormalidade e dos desvios comportamentais no cérebro. Por fim, à luz de autores como Fernando Vidal e Francisco Ortega (2019) e Paula Sibilia (2002), indicamos que a figura monstruosa do cérebro sem corpo antecipa a neurocultura contemporânea, na qual o cérebro é concebido como instância autônoma e computacional, dissociável da materialidade corporal.
Bibliografia
- CANGUILHEM, G. O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002.
CARROLL, Noël. A filosofia do horror ou paradoxos do coração. Campinas, SP: Papirus, 1999.
FOUCAULT, M. História da loucura: na idade clássica. Tradução de José Teixeira Coelho Neto. – São Paulo: Perspectiva, 1978.
FOUCAULT, M. Os anormais: curso no Collège de France (1974-1975). São Paulo: Martins Fontes, 2002.
FOUCAULT, M. O poder psiquiátrico; curso dado no Collège de France (1973-1974). São Paulo: Martins Fontes, 2006.
ORTEGA, F; VIDAL, F. Somos nosso cérebro? Neurociências, subjetividade e cultura. São Paulo: N-1, 2019.
SIBILIA, Paula. homem pós-orgânico: corpo, subjetividade e tecnologias digitais. 2002.