Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Isadora Meneses Rodrigues (UFCA)

Minicurrículo

    Professora do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Cariri (UFCA). Doutora em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Possui graduação em Jornalismo e mestrado em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Tem experiência com escrita de roteiros de longa-metragem, é integrante do grupo de pesquisa Observatório Cariri de Políticas e Práticas Culturais e coordena o projeto de extensão Corte Seco – revista de audiovisual.

Ficha do Trabalho

Título

    O cérebro é o monstro: a conformação do horror ao órgão sem corpo no cinema

Seminário

    Estudos do Insólito e do Horror no Audiovisual

Resumo

    O trabalho analisa a figura do cérebro como elemento constituinte da monstruosidade no cinema de horror, em especial nas aparições do órgão sem corpo que emergem no cinema B dos anos 1950-60. Em diálogo com Noël Carroll, Canguilhem, Foucault, Francisco Ortega e Paula Sibilia, argumento que tais figuras perigosas e impuras participam da conformação de um regime de saber-poder que localiza no cérebro a origem da anormalidade e dos desvios comportamentais, antecipando a neurocultura contemporânea.

Resumo expandido

    Desde a consolidação do cinema de horror no ciclo dos monstros da Universal Pictures, podemos observar certa recorrência da evocação da figura do cérebro humano como elemento decisivo na construção ontológica e ideológica do monstro. Em Frankenstein (1931, James Whale), por exemplo, a origem do cérebro transplantado orienta a construção moral da criatura. Ainda que o filme introduza ambiguidades que relativizam esse determinismo biológico ao longo da narrativa, a ênfase inicial sugere que a degeneração inscrita no “cérebro anormal” implica uma predisposição à violência.

    Essa matriz narrativa assume, no cinema do século XX e início do XXI, diferentes formas. Em Night of the Living Dead (1968), de George A. Romero, a destruição do cérebro é única forma de neutralização dos mortos-vivos. Em The Happening (2008), de M. Night Shyamalan, o horror assume a forma de uma ameaça neurotóxica informe que induz comportamentos suicidas. Já em Altered States (1980), de Ken Russell, a manipulação de estados de consciência provoca regressões a um estado físico primitivo, indicando que a intervenção no cérebro pode desestabilizar os limites do humano. Paralelamente, a frequente associação entre cérebro e loucura, historicamente consolidada por discursos biomédicos da modernidade, reforça a a ideia do órgão como origem de desvios comportamentais. Em The Exorcist (1973), de William Friedkin, por exemplo, apesar da forte presença do elemento sobrenatural, a narrativa não prescinde de uma etapa de enquadramento médico-científico, quando o psiquiatra de Regan procura no seu sistema nervoso uma explicação para a sua conduta desviante.

    Foi nas décadas de 1950 e 1960, no contexto do cinema B inglês e norte-americano, que essa lógica de aparição do cérebro monstruoso se radicalizou com a emergência da figura do órgão sem corpo. Filmes como Donovan’s Brain (1953), The Brain (1962), Project X (1968), The Brain That Wouldn’t Die (1962), They Saved Hitler’s Brain (1968), The Brain from Planet Arous (1957), Fiend Without a Face (1958), entre outros, apresentam o cérebro em uma cuba como forma paradigmática do monstruoso: uma inteligência dissociada da totalidade do corpo humano, dotada de capacidades cognitivas ampliadas.

    Partindo desse contexto, o presente trabalho investiga a conformação do horror ao cérebro sem corpo no cinema das décadas de 1950 e 1960. A nossa hipótese é que essa imagem radicaliza a definição proposta por Noël Carroll (1999), para quem o horror artístico emerge da presença de entidades perigosas e impuras, formas intersticiais que violam categorias ontológicas estáveis. O cérebro em uma cuba, nesse sentido, desorganiza dualismos fundamentais, como interior/exterior, mente/corpo, orgânico/inorgânico e sujeito/objeto, e se configura como um operador privilegiado de impureza.

    Em diálogo com os escritos de Canguilhem (2002) e Foucault (2002 e 2006), argumentamos que tais representações não apenas refletem, mas também participam da produção de um regime de saber-poder que localiza a origem da anormalidade e dos desvios comportamentais no cérebro. Por fim, à luz de autores como Fernando Vidal e Francisco Ortega (2019) e Paula Sibilia (2002), indicamos que a figura monstruosa do cérebro sem corpo antecipa a neurocultura contemporânea, na qual o cérebro é concebido como instância autônoma e computacional, dissociável da materialidade corporal.

Bibliografia

    CANGUILHEM, G. O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002.
    CARROLL, Noël. A filosofia do horror ou paradoxos do coração. Campinas, SP: Papirus, 1999.
    FOUCAULT, M. História da loucura: na idade clássica. Tradução de José Teixeira Coelho Neto. – São Paulo: Perspectiva, 1978.
    FOUCAULT, M. Os anormais: curso no Collège de France (1974-1975). São Paulo: Martins Fontes, 2002.
    FOUCAULT, M. O poder psiquiátrico; curso dado no Collège de France (1973-1974). São Paulo: Martins Fontes, 2006.
    ORTEGA, F; VIDAL, F. Somos nosso cérebro? Neurociências, subjetividade e cultura. São Paulo: N-1, 2019.
    SIBILIA, Paula. homem pós-orgânico: corpo, subjetividade e tecnologias digitais. 2002.