Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Monyse Rayne Damasceno da Silva (UFSCar)

Minicurrículo

    Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos (PPGIS/UFSCar), onde desenvolve pesquisa voltada à linguagem e estética política do videoclipe, ao Cinema Negro, à representatividade da negritude e a conceitos como decolonialidade e contracolonialidade no audiovisual. Mestra pelo mesmo Programa (2023), com a dissertação “Bluesman: hibridismo entre música, videoclipe e cinema”. É jornalista formada pela Universidade Federal do Piauí (UFPI) (2017).

Ficha do Trabalho

Título

    Cineclipe e política da imagem: uma análise de Bluesman (2018)

Resumo

    Focando nas relações entre som e imagem, o estudo analisa o videoclipe Bluesman (2018), de Douglas Bernardt, como uma obra de caráter híbrido que articula música, videoclipe e cinema a partir do álbum homônimo do rapper Baco Exu do Blues. Parte-se da hipótese de que a obra se configura como um cineclipe, formato situado entre linguagens do cinema e do videoclipe, marcado por forte dimensão política. A análise aborda a construção fílmica da obra, sua relação com o álbum e o discurso da negritude.

Resumo expandido

    Diante da expansão das fronteiras do videoclipe e da sua crescente aproximação com a linguagem cinematográfica, este trabalho apresenta resultados de uma pesquisa de mestrado dedicada a produções audiovisuais híbridas que reconfiguram o campo contemporâneo. O estudo evidencia como essas obras articulam elementos do videoclipe e do cinema, associando estratégias de divulgação musical à densidade narrativa e ao engajamento político. Como objeto, analisa-se o videoclipe Bluesman (2018), dirigido por Douglas Bernardt para acompanhar o álbum homônimo do rapper Baco Exu do Blues, compreendido como exemplar do formato denominado cineclipe, que será aqui explorado.

    A fim de compreender as transformações do videoclipe contemporâneo, a pesquisa mobiliza os conceitos de “transclipecine”, “transcineclipe” e “narrativas dilatadas” (OLIVA, 2017), além da noção de “álbum visual” (VERNALLIS, 2013). O transclipecine refere-se à incorporação de elementos cinematográficos nos videoclipes, enquanto o transcineclipe diz respeito à inserção da poética do videoclipe na linguagem cinematográfica. Nesse sentido, as passagens transcineclípticas evidenciam o encontro entre recursos sonoros e visuais típicos do videoclipe e a estrutura fílmica, produzindo rupturas rítmicas e novas formas de visualidade (OLIVA, 2017).

    As “narrativas dilatadas” (OLIVA, 2017), impulsionadas pelas dinâmicas da internet, rompem com o modelo tradicional de vídeos curtos ao incorporar características da linguagem cinematográfica (SOARES, 2013). Essas estratégias prolongam a experiência audiovisual, exigindo uma atenção distinta daquela demandada pelo videoclipe tradicional, o que favorece maior envolvimento do espectador (OLIVA, 2017). Desse modo, o cineclipe reformula os modos de produção, recepção e circulação.

    As escolhas estéticas de Bluesman (2018) intensificam sua dimensão política, evidenciada desde a composição do elenco até a seleção das locações, tais como um casting exclusivamente negro — incluindo imigrantes africanos — e o uso de espaços como a Ocupação 9 de Julho, que tensionam o imaginário social e urbano. Para compreender o seu viés antirracista, mobilizamos as reflexões de hooks (2019) acerca de raça e representação, segundo as quais o campo imagético se configura como um espaço de disputa ainda marcado pela permanência de modelos hegemônicos de construção da negritude. Nesse contexto, as transformação dessas imagens demanda o engajamento de sujeitos comprometidos com perspectivas antirracistas e com a ruptura de representações violentas e limitadoras de corpos negros.

    Ao articular três canções do álbum, Bluesman (2018) mobiliza temas como afetividade e saúde mental, elaborados a partir da perspectiva de um homem negro, que são transpostos ao plano visual por meio de uma narrativa que reafirma a estética negra e tensiona representações estigmatizadas. As escolhas narrativas, nesse sentido, evidenciam o compromisso com a construção de imagens alternativas capazes de promover identificação e pertencimento. Como aponta hooks (2019), os sistemas de dominação operam pela internalização de imagens negativas, de modo que a ruptura com tais estereótipos se torna fundamental para a reconfiguração das representações midiáticas.

    Por fim, propomos que o caráter híbrido do cineclipe potencializa o engajamento do espectador. Ao articular procedimentos do cinema e do videoclipe, Bluesman (2018) constrói uma narrativa que estimula a reflexão crítica sem abdicar da plasticidade audiovisual e de sua dimensão musical. A obra se configura, nesse sentido, como produto simultaneamente estético e político, capaz de tensionar o videoclipe tradicional e de se afirmar como espaço de resistência, reconfiguração simbólica e afirmação da negritude no audiovisual contemporâneo. O estudo evidencia, ainda, a importância de reconhecer o videoclipe como objeto legítimo de investigação acadêmica, à luz de suas transformações e de seus impactos sobre outros formatos audiovisuais.

Bibliografia

    AUMONT, Jacques; MARIE, Michel. Breve história da análise [Capítulo 5]. In: A análise do filme. Tradução Hélder Viçoso. Lisboa: Texto & Grafia, 2019.

    CAMARGOS, Roberto. Rap e política: percepções da vida social brasileira. São Paulo: Boitempo, 2015.

    GILROY, Paul. O Atlântico negro. Tradução Cid Knipel Moreira. São Paulo: Editora 34, 2012.

    hooks, bell. Olhares Negros: raça e representação. São Paulo: Elefante, 2019.

    OLIVA, Rodrigo. Interconexões de poéticas audiovisuais: transcineclipe, transclipecine e hiperestilização. Curitiba: Appris, 2017.

    ______________. Videoclipe manifesto: espaços sociais e políticos nas poéticas do videoclipe. Intercom, 2019. Disponível em: . Acesso em: 7 de março de 2022.

    SOARES, Thiago. Estética do videoclipe. João Pessoa: Editora da UFPB, 2013.

    VERNALLIS, Carol. Unruly media: YouTube, music video and the new digital cinema. New York: Oxford University Press, 2013.