Ficha do Proponente
Proponente
- Régis Orlando Rasia (UFMS)
Minicurrículo
- Doutor em Multimeios pela UNICAMP e Mestre pela mesma instituição. Dedica-se ao ensino de pós-graduação e atua na graduação do bacharelado em Audiovisual da UFMS, ministrando as disciplinas de animação, edição, montagem e pós-produção audiovisual. Concentra projetos de pesquisas sobre animação, cinema brasileiro, cinema experimental e filme-ensaio.
Ficha do Trabalho
Título
- Das vanguardas ao filme-ensaio: Hans Richter e a animação entre o experimental e o documental.
Resumo
- Esta comunicação integra a pesquisa Arqueologias do experimental na animação e passagens para o filme-ensaio, que investiga relações entre animação, cinema experimental, documentário e ensaísmo fílmico. Nesse recorte, Hans Richter é tomado como ponto de passagem para pensar como as vanguardas artísticas formularam uma imagem animada capaz de operar como pensamento visual, antecipando procedimentos depois reconhecidos como próprios do filme-ensaio.
Resumo expandido
- A genealogia do filme-ensaio é disputada, e diferentes autores tratam esse domínio como uma forma histórica de contornos móveis, atravessada por antecedentes variados no documentário, no cinema experimental e nas práticas de vanguarda (Corrigan, 2015; Weinrichter, 2015; Teixeira, 2022). Nesse debate, Hans Richter aparece de modo recorrente como um dos primeiros realizadores a teorizar sobre o ensaio no cinema. Artista ligado às vanguardas europeias, associado ao dadaísmo e ao cinema experimental, Richter mobilizou procedimentos de animação, abstração gráfica e manipulação visual em suas primeiras realizações, como Rhythmus 21 (1921), Rhythmus 23 (1923), Rhythmus 25 (1925), Filmstudie / Film Study (1926) e Inflation (1928). Essas obras exploram a abstração geométrica, a montagem, as relações rítmicas entre formas, a colagem, as distorções visuais e as associações livres, indicando um cinema menos comprometido com a transparência narrativa do que com a construção de pensamento por imagens.
Diretor e artista alemão de vanguarda, Hans Richter transitava entre filme, pintura e arte gráfica. Nascido em 1888 e falecido em 1976, combinou funções como pintor, artista gráfico, produtor de filmes e historiador da arte. O cinema, para ele, era uma forma de pensar e de combinar sua polivalência artística. A comunicação toma como eixo seus textos “O ensaio fílmico: uma nova forma do filme documental”, publicado em 1940, e o livro The Struggle for the Film, escrito na Suíça no final dos anos 1930 e publicado posteriormente. Em suas reflexões, Richter defende uma forma cinematográfica capaz de tornar visível o mundo invisível dos conceitos, dos pensamentos e das ideias.
É importante considerar a linha de raciocínio de Richter até a inflexão do filme-ensaio no cinema, que já encontra nas vanguardas um laboratório formal importante, talvez precursor. Nesse sentido, a ideia é mostrar que a animação está ali, provocando inflexões, como uma espécie de forma atravessadora, capaz de operar a visualização do abstrato, do conceitual e do invisível. Ao trabalhar com formas gráficas, metamorfoses, alegorias, relações rítmicas e montagem conceitual, Richter mobiliza procedimentos que permitem ao cinema ultrapassar a simples reprodução do visível e avançar em direção a uma imagem que pensa. Essa leitura se apoia tanto na sua trajetória entre pintura, arte gráfica e cinema quanto na formulação de que o ensaio fílmico pode integrar materiais heterogêneos, saltar no espaço e no tempo e mobilizar argumentos visuais para dar forma a ideias.
A proposta também dialoga com uma questão historiográfica. Como observa a bibliografia sobre animação, muitos artistas das vanguardas que trabalhavam frame a frame foram mais frequentemente reconhecidos como pintores, artistas plásticos ou cineastas experimentais do que como animadores (Denis, 2010). A análise da obra e dos textos do esteta alemão permite recolocar esse problema, mostrando que a animação esteve presente, embora muitas vezes sem nome, em zonas decisivas da modernidade cinematográfica. Assim, mais do que localizar uma origem estável para o filme-ensaio, interessa compreender como certas práticas animadas e experimentais prepararam o terreno para sua emergência histórica.
Ao tomar Hans Richter como ponto de contato entre o cinema experimental das vanguardas e o filme-ensaio, também se recoloca o documentário e o modo como a animação colabora para permear as fronteiras desses domínios, evidenciando zonas de trânsito em que ela comparece como forma histórica de experimentação, pensamento visual e elaboração conceitual.
Bibliografia
- CORRIGAN, Timothy. O filme-ensaio: desde Montaigne e depois de Marker. Campinas: Papirus, 2015.
DENIS, Sébastien. O cinema de animação. Lisboa: Texto & Grafia, 2010.
RICHTER, Hans. “O ensaio fílmico: uma nova forma do filme documental”. In: WEINRICHTER, Antonio (org.). La forma que piensa: tentativas en torno al cine-ensayo. Pamplona: Gobierno de Navarra, 2007.
RICHTER, Hans. The Struggle for the Film: Towards a Socially Responsible Cinema. London: Scolar Press, 1986.
TEIXEIRA, Francisco Elinaldo. O ensaio no cinema: formação de um quarto domínio das imagens na cultura audiovisual contemporânea. São Paulo: Hucitec, 2022.
WEINRICHTER, Antonio. “Um conceito fugidio: notas sobre o filme-ensaio”. In: TEIXEIRA, Francisco Elinaldo (org.). O ensaio no cinema. São Paulo: Hucitec, 2015.