Ficha do Proponente
Proponente
- Marcus Vinicius Azevedo de Mesquita (UnB)
Minicurrículo
- Diretor, roteirista e produtor. Doutorando em Comunicação em que desenvolve pesquisa acerca da produção imagética sobre o envelhecimento LGBTQIA+. Mestre em Artes Visuais e bacharel em audiovisual, pela Universidade de Brasília UnB. É professor da Secretaria de Educação do Distrito Federal. Dentre outras realizações co-roteirizou e co-dirigiu o curta-metragem Afronte (2017) e o longa-metragem Rumo (2022).
Ficha do Trabalho
Título
- Entre o Passado e o Futuro: Território, memória, ancestralidade em Meada Cor Kalunga.
Seminário
- Cinemas, Comunidades, Territórios: interpelações aos gestos analíticos
Resumo
- Neste artigo, buscamos uma abordagem de cunho pedagógico do Cinema Negro (CN), compreendendo-o como um guardião da memória e da cultura negra, que se formam nos diversos territórios e territorialidades. O objetivo é analisar o universo dos significados e dos discursos existentes no filme Meada Cor Kalunga (2023). Utilizaremos os conceitos de Pretagogia e do Etnoletramento, pois ambos propõem uma prática pedagógica que privilegia, a oralidade, o corpo, a alteridade e a escuta.
Resumo expandido
- O cinema negro brasileiro é um conceito que afirma a presença e a cultura negra no cinema, ao mesmo tempo, que questiona a estrutura de produção cultural e do saber (Souza, 2013; Carvalho, 2005). Neste artigo, buscamos uma abordagem de cunho pedagógico do cinema negro, compreendendo-o como um guardião das memórias e da cultura da população negra, que se formam nos diversos territórios e territorialidades. O objetivo é trabalhar com o universo dos significados e dos discursos existentes no filme Meada Cor Kalunga (2023), dirigido por Marta Kalunga, Alcileia Torres e Ana Luíza Reis. O filme é um documentário de 23 minutos que registra saberes ancestrais afrodiaspóricos das mulheres do quilombo Vão de Almas, em Cavalcante, no estado de Goiás. Assim como na narrativa presente na obra, consideramos a oralidade e a temporalidade elementos fundamentais para compreender os significados e os discurso presente no filme, no qual se torna evidente a necessidade de estabelecer um diálogo com o passado e com o território como forma de apreender a cultura quilombola, compreendendo esse movimento como uma performance do tempo espiralar (Martins, 2021), em que “O presente atua como interlocutor do passado, e, consecutivamente como locutor do futuro” (Bispo, 2015, p.19). Nesse sentido, analisamos o filme considerando o conceito de Pretagogia que valoriza o corpo e a oralidade, como produtor de epistemologia e identidade negra, bem como de etnoletramento (Prudente e Périgo, 2020), em que se propõe uma prática pedagógica que privilegia a alteridade e a escuta. É uma pedagogia baseada no sentir, no ver e no falar, uma vez que, ao trazer marcos civilizatórios africanos para o ensino, a oralidade torna-se central. Estabelecemos diálogos com autores/autoras negros/as e realizamos uma análise que considera o filme uma obra artística que fundamentam significados em estruturas narrativas por meio de aparatos fílmicos, visuais e sonoros (Aumont e Marie, 2004). Nosso artigo demarca o caráter pedagógico do Cinema Negro Brasileiro, e demonstra como ele pode realizar mudanças paradigmáticas, pela forma como se retratam determinados temas, possibilitando a reconstituição da história negra e a instauração de uma pedagogia da esperança (hooks, 2020; Freire, 1992). Pois, é na luta de combate ao racismo e a todo tipo de preconceitos e discriminação que se edifica uma educação libertadora e se conecta com os saberes ancestrais, expressos no corpo e na oralidade do povo negro. Assentada nos valores das tradições de matriz africana, o respeito aos sagrados, o culto ao corpo, o desejo e o espírito se conectam diretamente com a ideia de cuidado e autocuidado. Assim a pretagogia e o etnoletramento dialogam com narrativas como as do filme Meada Cor Kalunga ao desenvolver discursos de empoderamento, em que protagonizam a ancestralidade e o corpo negro enquanto fonte de alimento do corpo e do espírito.
Bibliografia
- FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. Editora Paz e Terra, 1992.
HOOKS, Bell et al. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017.
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela. Editora Cobogó, 2021.
PETIT, Sandra Haydée. Pretagogia: Pertencimento, Corpo-Dança Afroancestral e Tradição Oral – Contribuições do Legado Africano para a Implementação da Lei da 10.639/03. Fortaleza: EdUECE, 2015.
PRUDENTE, Celso Luiz; PÉRIGO, Agnaldo. A dimensão pedagógica do Cinema Negro na percepção do etnoletramento em educação básica. Amazônica-Revista de Antropologia, v. 12, n. 1, p. 419-444, 2020.
SANTOS, Antônio Bispo dos. Colonização, Quilombos: modos e significados. Brasília: INCTI/UnB, 2015.
SOUZA, Edileuza Penha de. Cinema na Panela de Barro: Mulheres Negras, narrativas de amor, afeto e identidade. Tese (Doutorado em Educação), Universidade de Brasília (UnB), 2013.