Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ramon Mota Coutinho (UFBA)

Minicurrículo

    Realizador audiovisual, pesquisador e professor. Doutorando em Cultura e Sociedade (UFBA), mestre pela mesma instituição e graduado em Cinema (UFBA) e História (UCSal). Especialista em Roteiro pela EICTV (Cuba). É membro do CUAL – Coletivo Urgente de Audiovisual. Dirigiu o longa “Jamex e o Fim do Medo” (2025) e o curta “A Praga do Resíduo Verde” (2026). Sua atuação e pesquisa focam em cinema independente, estética da urgência, fabulação e as interseções entre cinema, memória e subalternidade.

Ficha do Trabalho

Título

    Cosmopoéticas audiovisueiras: fabulação e subalternidade no cinema de pedreiro de Lincoln Péricles

Resumo

    A comunicação investiga o conceito de “cosmopoéticas audiovisueiras” a partir da obra de Lincoln Péricles. Analisamos como o “cinema de pedreiro” articula uma estética da urgência que desafia as normas industriais e institucionais. Através da fabulação e da subalternidade, discutimos como essas imagens operam uma disputa de memória e território, transformando a precariedade em potência criativa e política, reafirmando o cinema como ferramenta de emancipação nas periferias brasileiras.

Resumo expandido

    Introdução e Objetivos
    Esta comunicação propõe investigar a produção cinematográfica de Lincoln Péricles (LK) sob a lente do conceito de cosmopoéticas audiovisueiras. O termo, aqui formulado, nomeia práticas estéticas e políticas que emergem da experiência periférica, onde a precariedade material é convertida em potência criativa por meio de gestos de improviso, bricolagem e invenção coletiva. O objetivo central é analisar como as práticas de Péricles e de coletivos como o CEICINE reelaboram a subalternidade em potência epistemológica no cinema brasileiro contemporâneo. Especificamente, busca-se: 1) Analisar os procedimentos do “cinema de pedreiro” e do “cine-sample”; 2) Discutir como a subalternidade é reconfigurada nessas práticas; e 3) Sistematizar a chave teórica das cosmopoéticas como forma de insurgência contra narrativas hegemônicas.

    Fundamentação Teórica
    A proposta ancora-se na noção de cosmopoética, inspirada em Dénètem Touam Bona, que pensa poéticas do refúgio e da errância como invenção de mundos diante da violência colonial. A esta, soma-se o gesto audiovisueiro, enraizado na “gambiarra” e na experiência popular urbana. O “cinema de pedreiro” reivindicado por Péricles — um fazer que se constrói coletivamente, como quem levanta a própria casa — opõe-se à arquitetura planejada do cinema industrial, assumindo a precariedade como fundamento ético.

    A análise utiliza o conceito de cine-sample (Ana Júlia Silvino), aproximando a montagem cinematográfica da lógica do beatmaking e do rap, onde fragmentos de realidades e arquivos são remixados em colagens insurgentes. Dialogamos ainda com a Estética da Ginga (João Nogueira), compreendendo o improviso audiovisual como um saber-corpo que recusa a fixidez colonial, e com as Biopolíticas das Subalternidades (Maurício Matos), para observar como as imagens disputam a representação e produzem formas de vida diante de contextos necropolíticos (Mbembe). Por fim, a fabulação deleuziana é mobilizada não como ficção, mas como a criação de um “povo que falta”, operando um delírio criador que reconfigura o real.

    Metodologia
    A pesquisa adota uma abordagem qualitativa e o método da cartografia dos rastros (Suely Rolnik), priorizando fluxos e mutações em vez de representações fixas. O corpus de análise consiste em quatro filmes de Lincoln Péricles: Ruim é ter que trabalhar (2014), Aluguel: O Filme (2015), Filme de aborto (2016) e Mutirão: O Filme (2022). A análise fílmica cruza os procedimentos técnicos (chopping, loops, ruidos) com seus efeitos políticos e sociais. Complementarmente, realiza-se um estudo comparativo com as práticas do CEICINE, buscando identificar redes de enfrentamento que desestabilizam o centro a partir das margens.

    Resultados Esperados
    Espera-se demonstrar que o cinema de Lincoln Péricles não opera pela carência, mas pela abundância inventiva. As cosmopoéticas audiovisueiras revelam-se como lampejos que se erguem contra a paralisia social, utilizando o cinema como um fuzil estético voltado para a emancipação. A pesquisa pretende contribuir com uma chave teórica inédita para os estudos de cinema e cultura, reconhecendo as periferias como centros de produção simbólica radical que preservam seu “direito à opacidade” (Glissant) enquanto inventam outros futuros possíveis.

Bibliografia

    DELEUZE, Gilles. A imagem-tempo. São Paulo: Brasiliense, 2007.
    FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2008.
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    PÉRICLES, Lincoln. Cinema de Pedreiro. (Manifestos e entrevistas selecionadas).
    RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. São Paulo: EXO experimental org.; Editora 34, 2005.
    SHOHAT, Ella; STAM, Robert. Crítica da imagem eurocêntrica. São Paulo: Cosac Naify, 2006.
    SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
    SANTIAGO, Silviano. As raízes e o labirinto da latinidade. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
    XAVIER, Ismail. O Cinema Brasileiro Moderno. São Paulo: Paz e Terra, 2001.