Ficha do Proponente
Proponente
- DANIELA ZANETTI (UFES)
Minicurrículo
- Professora Associada do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Territorialidades (PÓSCOM-UFES). Doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). É coordenadora do grupo de pesquisas Cultura Audiovisual e Tecnologia (CAT/UFES). Realizou pós-doutorado na Universidade Aberta de Lisboa (2016) e na Universidade Federal do Rio de Janeiro (2024).
Coautor
- Tatiana Levin Lopes da Silva (FVC)
Ficha do Trabalho
Título
- Ser mãe é também perder algo: uma visada psicanalítica do filme Se eu tivesse pernas, eu te chutaria
Resumo
- O trabalho analisa representações não romantizadas da maternidade em filmes dirigidos por mulheres, com foco em Se eu tivesse pernas, eu te chutaria (2025). À luz da análise fílmica e da psicanálise, examina a angústia da protagonista diante das demandas maternas e profissionais, destacando escolhas audiovisuais que expressam seus conflitos internos. A análise considera as estratégias narrativas para representar a complexidade dessas relações, bem como as aflições e delírios da protagonista.
Resumo expandido
- Questões em torno das dificuldades que as mulheres enfrentam ao assumirem a função materna têm sido tema de diversos filmes dirigidos por mulheres lançados nessa segunda metade do século XXI, constituindo um discurso de não romantização da maternidade e de complexificação dos papeis sociais e familiares. Os conflitos internos de mulheres frente às funções de mãe – por vezes também intensificados pela ausência ou displicência das figuras masculinas que deveriam assumir melhor as funções da paternidade – aparecem em A Filha Perdida (2021), de Maggie Gyllenhaal; Morra, amor (2025), de Lynne Ramsay; Se eu tivesse pernas, eu te chutaria (2025), de Mary Bronstein; e Mother’s Baby (2026), de Johanna Moder. São obras que de alguma forma destacam os desafios e contradições da maternidade e se alinham a discursos que questionam modelos patriarcais. À luz dos estudos sobre cinema e psicanálise (DUNKER; RODRIGUES, 2015; RIVERA, 2008), angústia (LACAN, 2005), da articulação entre pulsão de morte, gozo e toxicomania (COSENZA, 2024), e de análise fílmica (AUMONT; MARIE, 2009; GAUDREAULT; JOST, 2009; VANOYE; GOLIOT-LÉTÉ, 1994), o presente trabalho traz um estudo sobre o filme Se eu tivesse pernas, eu te chutaria (Produtora A24), considerando a relação que a protagonista estabelece com quatro personagens – sua filha, seu analista, uma de suas pacientes e seu marido – e o modo como a linguagem audiovisual possibilita representações em torno da angústia da personagem. No filme, Linda tem uma filha que possui uma doença grave, necessitando de cuidados permanentes. A criança é alimentada somente por uma sonda colocada em sua barriga. A mãe, além de seu trabalho como terapeuta em uma clínica – onde também atende uma moça em crise com sua função materna –, assume ainda o papel de enfermeira da filha. O marido, em viagem a trabalho, somente aparece em tela nas cenas finais do filme, mas se faz presente ao longo da narrativa por meio de voz off, em conversas por telefone com a esposa. Da mesma forma, o rosto da filha também aparece em tela somente ao final: sua presença é marcada por detalhes do corpo em planos fechados e por sua voz, quase sempre demandando a presença da mãe, a única que lhe dá o alimento que não quer/não pode ingerir sozinha. Na condição de permanente cuidadora, Linda é responsável por introduzir um alimento líquido na sonda por meio de uma máquina que emite sons e alarmes constantes – uma forma de lembrar que sua filha precisa dela para sobreviver, apesar de não ser mais um bebê indefeso. Entre as pressões do ambiente doméstico e profissional e as cobranças do marido, Linda precisa ainda dar conta da relação com seus pacientes na clínica e de seu próprio processo terapêutico com seu analista, além de ter que acompanhar as sessões coletivas de acolhimento a mães que vivem situações semelhantes à sua. Como consequência, a toxicomania e o alcoolismo se tornam escolhas de sobrevivência para ela: o entorpecimento para lidar com um cotidiano difícil de suportar, quando é preciso cuidar de muitos ao seu redor e não ter um espaço de cuidados para si mesma. O ambiente de escuta/analítico/terapêutico, portanto, permeia boa parte da narrativa. Assim, a análise também considera as escolhas audiovisuais para representar a complexidade dessas relações, bem como as aflições e delírios da protagonista. Fazem parte das estratégias fílmicas, por exemplo, o constante uso de enquadramentos fechados (primeiro plano) no rosto da protagonista, bem como a ausência de seu marido e de sua filha em tela na maior parte do filme. Ainda no plano da representação audiovisual, o enorme (e assustador) buraco que surge no teto do quarto de Linda (que se rompe devido ao excesso de água no andar de cima), e o pequeno furo na barriga de sua filha (por onde passa a sonda que transporta o alimento líquido), são elementos que também operam no plano do simbólico e reforçam certa dimensão psíquica da protagonista.
Bibliografia
- AUMONT, J; MARIE, M. A análise do filme. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2009.
COSENZA, D. Clínica do excesso: derivas pulsionais e soluções sintomáticas na psicopatologia contemporânea. Belo Horizonte. Scriptum, 2024.
DUNKER, C. I. L.; RODRIGUES, A. L. Fazer cinema, fazer psicanálise. In: DUNKER, C. I. L.; RODRIGUES, A. L. (Direção). A criação do desejo. Coleção Cinema e psicanálise. Volume 1. 2. ed. São Paulo: nVersos, 2015.
GAUDREAULT, A.; JOST, F. A narrativa cinematográfica. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2009.
LACAN, J. O Seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
RIVERA, T. Cinema, imagem e psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.
VANOYE, Francis; GOLIOT-LÉTÉ, Anne. Ensaio sobre a análise fílmica. Campinas: Papirus, 1994.