Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Lilian Sola Santiago (USP)

Minicurrículo

    Lilian Solá Santiago é cineasta, pesquisadora e professora de cinema. Historiadora, mestre em Integração da América Latina e doutora em Meios e Processos Audiovisuais pela USP, integra o LabArteMídia. Dirigiu mais de uma dezena de filmes premiados no Brasil e no exterior, entre eles Família Alcântara (2006, com Daniel Santiago). Seu documentário Balé de Pé no Chão (2005, com Marianna Monteiro) integra a lista de obras obrigatórias do Vestibular Seriado da UFMG (2026–2028).

Ficha do Trabalho

Título

    Casa da Memória Negra de Salto: um terreiro documental

Seminário

    (Re)existências negras e africanas no audiovisual: epistemes, fabulações e experiências

Resumo

    Este trabalho parte da criação da Casa da Memória Negra de Salto, implantada no interior de um museu histórico, para propor o conceito de terreiro documental. Trata-se de uma prática audiovisual afroreferenciada que articula instalação audiovisual e ativação coletiva, na qual o documentário de exposição materializa a memória e é ativado nos saraus “Café com Pretos”. O terreiro documental instaura um território onde a população racializada passa a se ver e a se reconhecer na história.

Resumo expandido

    Este trabalho parte da experiência de criação da Casa da Memória Negra de Salto para propor o conceito de terreiro documental. Implantada no interior de um museu histórico que privilegiava a memória das elites locais, a Casa se inscreve como resposta a regimes de visibilidade que historicamente produziram a dessemelhança e a exclusão da experiência negra dos espaços de representação e memória.

    Nesse contexto, o audiovisual é mobilizado como procedimento de materialização do que foi sistematicamente invisibilizado. O documentário, assim, não ocupa o museu: ele o desloca.

    A Casa se organiza como uma instalação audiovisual multitelas que articula imagem, som, objetos e oralidade, configurando um documentário de exposição que é ativado nos saraus mensais “Café com Pretos”. Nesse movimento, o espaço deixa de ser apenas visitado e passa a ser vivido, constituindo um território onde a experiência negra se apresenta como presença compartilhada.

    Essa operação se ancora na materialização de experiências historicamente não arquivadas (HARTMAN, 2022) e na compreensão da memória como experiência encarnada (MARTINS, 2021). Ao mesmo tempo, responde a regimes de visualidade que reiteram a dessemelhança e dificultam a produção de reconhecimento (BORGES, 2025).

    O que se propõe como terreiro documental não é a soma entre exposição e ativação, mas a abertura de uma clareira no interior do museu histórico. Em diálogo com a noção de terreiro como território relacional (SODRÉ, 2002), o documentário deixa de operar como registro e passa a atuar como procedimento de relação e tratamento criativo da realidade.

    A partir dessa experiência, delineia-se uma prática que opera no interior de museus históricos, inclusive aqueles que estruturam a tradição ocidental, reconfigurando seus regimes de visibilidade e instaurando outras formas de memória, presença e pertencimento, em um gesto que se inscreve em uma perspectiva anticolonial (FANON, 1968).

Bibliografia

    HARTMAN, Saidiya. Vidas rebeldes, belos experimentos. São Paulo: Fósforo, 2022.
    MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar. São Paulo: Cobogó, 2021.
    SODRÉ, Muniz. A cidade e o terreiro. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.
    BORGES, Rosane. Imaginários emergentes: representação, visibilidade e formas de gestar o impossível. São Paulo: Editora Instante, 2025.
    FANON, Frantz. Os condenados da terra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968.