Ficha do Proponente
Proponente
- André Antônio Barbosa (UFPE)
Minicurrículo
- André Antônio é professor de Artes Visuais na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Começou a fazer filmes em 2012 dentro do coletivo Surto & Deslumbramento. A SEITA (2015), uma fantasia sci-fi, foi seu primeiro longa-metragem. VÊNUS DE NYKE (2021), seu média sobre sexualidade dissidente, foi exibido em festivais como a Semana da Crítica de Berlim. SALOMÉ (2024), seu segundo longa, foi o grande vencedor do 57º Festival de Brasília, conquistando os prêmios do júri, da crítica e do público.
Coautor
- Rodrigo Almeida Ferreira (UFRN)
Ficha do Trabalho
Título
- Construindo “A Grande Castração”: gestos sexuais como ficção científica
Seminário
- Tenda Cuir
Resumo
- Nossa proposta é compartilhar através de imagens de bastidores e trechos do filme, o processo de criação de “A Grande Castração”, novo e inédito longa-metragem do coletivo cuir Surto & Deslumbramento, com roteiro e direção dos co-autores deste trabalho. Apresentaremos o papel dos gestos sexuais na obra e sua relação com a ficção científica, através da narrativa que acompanha os desejos e práticas num futuro distópico, onde os humanos perderam a linguagem verbal e foram privados da genitália.
Resumo expandido
- Em abril de 2026, realizamos as filmagens de “A Grande Castração”, ainda inédito longa-metragem do coletivo cuir recifense Surto & Deslumbramento, com roteiro e direção de André Antônio e Rodrigo Almeida (co-autores deste trabalho). O filme continua as pesquisas estéticas que o coletivo vem desenvolvendo desde 2012, perpassando o artificial, o excessivo, o desejo, mas sobretudo investindo na criação audiovisual de um futuro distópico, a partir de um diálogo direto entre a ficção científica e sexualidades desviantes.
O filme se passa em um futuro distópico e noturno, a linguagem verbal foi substituída por gestos, todos os seres humanos perderam sua genitália e a violência policial é onipresente. Paizão, um homem marcado por cicatrizes de uma castração mecânica, vive em busca de uma conexão sensorial transcendental: o “cheiro do futuro”. Operando a partir de sua casa-laboratório e desbravando festas hedonistas em um mundo em ruínas, Paizão se dedica a práticas sexuais não centradas no falo, a fim de encontrar o prazer, ter um orgasmo, amar.
Os co-autores, na apresentação do trabalho, vão compartilhar ideias, desafios e etapas do processo de criação do filme em suas múltiplas dimensões (roteiro, direção, fotografia, figurino, arte, som), através de imagens de bastidores e trechos do filme em si, que em breve terá concluído sua pós-produção.
Dessa forma, pretende-se fomentar a seguinte discussão: quais os efeitos de se enxergar gestos que normalmente seriam classificados dentro das categorias e nomenclaturas do sexo fetichista e das práticas de BDSM como “gestos de ficção científica” – como ações que não denotam rótulos sexuais reconhecíveis mas que, na verdade, conotam um futuro que nos é ainda opaco e misterioso?
Octavia Butler, no conto Sons da Fala, em que constrói um mundo cuja comunicação deixou de ser realizada através das palavras, escreve que “a perda da linguagem verbal deu origem a todo um novo conjunto de obscenidades gestuais” (2020, p. 111), o que evocamos para elaborar as diretrizes e dinâmicas de poder nos quais emergem distintas lógicas de sexualidade, sobrevivência, desejo e prazer. Ao evitar que seus personagens se enxerguem enquanto praticantes deste ou daquele fetiche sexual não-centrado no genital e sim enquanto seres errantes existenciais num futuro sombrio, o filme “A Grande Castração” pretende fazer o espectador remover da imaginação (SONTAG, 2001) a gestualidade pornográfica do fetichismo dos sistemas de conhecimento/saber gerados pela heteronormatividade hegemônica (FOUCAULT, 1988) e re-apresentá-la como “puros gestos sem medialidade” (AGAMBEN, 2015).
A Grande Castração é um filme experimental que acena ao cinema silencioso e dialoga com a produção de cineastas como Pier Paolo Pasolini, David Cronenberg, Claire Denis, Werner Schroeter, Larry Clark e Julia Ducournau. Na ausência da palavra, mergulhamos na crise do falocentrismo e, no coração dessa crise, para mostrar o brilho e as linhas de força de novas possibilidades de masculinidade. Todo o filme se passa em locações em ruínas, com paredes descascadas, sem cor, acinzentadas e decadentes. Trata-se não exatamente de criar um universo ficcional sci-fi naturalista, com enredo narrativo. Mas de criar um mundo, uma atmosfera entre o pesadelo e a vigília, entre o ficcional e o registro, onde as ruínas não precisam ser um local onde se passa a ação de uma cena de ficção, mas lugar mais abstrato: as ruínas da própria masculinidade tradicional. Em meio a esse mundo sem cores, alguns objetos, peças de roupa, acessórios e focos de luz trazem tonalidades mais quentes (laranja, roxo e rosa).
Este trabalho pretende, também, trazer para Socine uma pesquisa que ocorre entre a prática cinematográfica e academia, borrando as fronteiras do pensamento sobre a sexualidade como um empreendimento ao mesmo tempo estético e conceitual, sensorial, intuitivo, mas também baseado numa pesquisa sólida. A Surto & Deslumbramento pretende estrear “A Grande Castração” em 2027.
Bibliografia
- “AS FRÍVOLAS arrasam!” – Entrevista com o coletivo Surto & Deslumbramento. Revista Cinética, 2021. Disponível em: https://encurtador.com.br/hlMu
AGAMBEN, Giorgio. Notas sobre o gesto. In: Meios sem fim: notas sobre a política. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
ANTÔNIO, André. Distopia queer. In: ALMEIDA, Rodrigo; MOURA, Luís Fernando (Orgs.). Brasil Distópico. Rio de Janeiro: Ponte Produções, 2017.
BERSANI, Leo. Homos. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1995.
BUTLER, Octavia. Sons da fala. In: BUTLER, Octavia E. Filhos de sangue e outras histórias. São Paulo: Morro Branco, 2020.
FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade I: A Vontade de Saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1988.
HALBERSTAM, Jack. A arte queer do fracasso. Recife: Cepe, 2020.
JAMESON, Fredric. Archaeologies of the future: a desire called utopia and other science fictions. London, New York: Verso, 2005.
SONTAG, Susan. The pornographic imagination. In: BATAILLE, Georges.
Story of the Eye. London: Pinguin, 2001.