Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Aline Veingartner Fagundes (UFSC)

Minicurrículo

    Mestra e doutoranda em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), na linha de pesquisa Crítica Feminista e Estudos de Gênero. Graduada em Letras (português e espanhol) pela Universidade de São Paulo (2010-2014). Integrante do núcleo de pesquisas Queerrâncias – Deslocamentos e curadorias lésbicas e queer nas artes. Escritora, atua também nas áreas de edição, redação e tradução de textos, além de ministrar oficinas de escrita criativa.

Ficha do Trabalho

Título

    Epistemologias do selvagem e lesbianidade codificada em Sangue de Pantera

Resumo

    Propomos uma leitura de Cat People (1942), de Jacques Tourneur, a partir das noções de “selvagem” e ferox de Jack Halberstam, investigando a construção de uma lesbianidade codificada. Analisamos a articulação entre animalidade, desejo e domesticação, mostrando como Irena desestabiliza fronteiras entre humano e não humano e entre normatividade e dissidência. O filme apresenta o selvagem como força interna que desafia o controle e reinscreve o desejo na opacidade e na indeterminação.

Resumo expandido

    Propomos uma leitura de Cat People (Sangue de Pantera, 1942), dirigido por Jacques Tourneur, a partir das noções de “selvagem” e “ferox” discutidas por Jack Halberstam em Wild Things: the disorder of desire, com o objetivo de investigar a construção de uma lesbianidade codificada no filme. Partindo da articulação entre animalidade, desejo e regimes de domesticação, observamos que a figura de Irena opera como um corpo atravessado por uma epistemologia do selvagem que desestabiliza fronteiras entre humano e não humano, racional e irracional, heterossexualidade normativa e formas dissidentes de desejo.
    Situamos a análise na oposição entre o espaço doméstico, associado à ordem, à inteligibilidade e à regulação dos afetos, e o selvagem, compreendido como uma força que atravessa e contamina o interior. Nesse sentido, o filme encena a domesticação como regime de contenção que falha diante de uma vitalidade queer que resiste à captura. A recusa de Irena ao contato heterossexual pleno, bem como sua relação ambígua com Alice, desloca o eixo do desejo para uma zona de indeterminação em que o erotismo surge como ameaça, contágio e desordem.
    A animalidade, especialmente na figura da pantera, promove uma mediação simbólica para afetos e pulsões que não podem ser nomeados no contexto da censura e dos códigos de representação da época. Os animais operam como instâncias de leitura que escapam à racionalidade humana, revelando uma dimensão instintiva que desautoriza o discurso científico e psiquiátrico. A insistência do saber clínico em traduzir a experiência de Irena em termos de patologia evidencia os limites de uma epistemologia moderna baseada na distinção entre mente e corpo, razão e fantasia.
    A partir da ideia de ferox, como proposta por Halberstam, o selvagem é abordado como forma de conhecimento que produz desorientação, opacidade e perda de sentido. Essa chave permite compreender a ambiguidade estrutural do filme como recusa de estabilização do sentido. A figura de Irena se inscreve, assim, em um espaço de indiscernibilidade que desafia os regimes de visibilidade e legibilidade do desejo.
    Nesse contexto, a lesbianidade emerge como força latente e não nomeável, codificada nas relações entre mulheres, nos jogos de perseguição, duplicação e espelhamento entre Irena e Alice, e na recusa de uma temporalidade heteronormativa orientada para o casamento e a reprodução.
    Apostamos que Cat People articula uma crítica à lógica moderna de domesticação, que atravessa tanto o campo das relações afetivas como o dos saberes científicos, ao figurar o selvagem como condição interna que desestabiliza qualquer pretensão de controle. Ao fazê-lo, o filme abre espaço para pensar formas de desejo e de existência que escapam às normatividades de gênero e sexualidade, inscrevendo-se, retrospectivamente, em uma genealogia de sensibilidades queer que encontram potências na opacidade, na ambiguidade e na indeterminação.

Bibliografia

    CREED, Barbara. The Monstrous-Feminine: Film, Feminism, Psychoanalysis. 1993.

    CVETKOVICH, Ann. Un archivo de sentimientos: trauma, sexualidad y culturas públicas lesbianas. Barcelona: Edicions Bellaterra, 2018.
    MOMBAÇA, Jota. Rastros de uma submetodologia indisciplinada. Concinnitas, Rio de Janeiro, ano 17, v. 1, n. 28, set. 2016.

    HALBERSTAM, Jack. Female Masculinity. Durham: Duke University Press, 2019.

    HALBERSTAM, Jack. Skin Shows: Gothic Horror and the Technology of Monsters. Durham; London: Duke University Press, 1995.

    HALBERSTAM, Jack. Wild Things: The Disorder of Desire. Durham; London: Duke University Press, 2020.

    PRECIADO, Paul B. “Cartografias ‘Queer’: O ‘Flâneur’ Perverso, A Lésbica Topofóbica e A Puta Multicartográfica, Ou Como Fazer uma Cartografia ‘Zorra’ com Annie Sprinkle”. Revista Performatus, Inhumas, ano 5, n. 17, jan. 2017.