Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Murilo Barbosa Simões (UFF)

Minicurrículo

    Bacharel em Cinema pela UFF (2023) e em Ciências Sociais pela Unicamp (2013). Assistente de Direção na animação HoHo & the Tropical Sound Clash, coproduzida com a CCTV chinesa. Diretor dos curtas Menino de Areia, Edital LabCurta 2021, e Deixe o Sol (2019). Na UFF, captou e editou material audiovisual para o Centro de Artes. Crítico na Revista Ganga Bruta, cobriu a 21ª e a 22ª Mostras de Cinema de Tiradentes. Curador do cineclube Carnaval no Fogo no PPGCine e palestrante em oficinas no FICA (MG).

Ficha do Trabalho

Título

    O elemento grotesco no horror pornográfico de Fauzi Mansur (1983-1986)

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    A presente comunicação debate as manifestações do “grotesco”, conforme conceito definido por Bakhtin (1987), em filmes de horror pornográficos realizados por Fauzi Mansur entre 1983 e 1986. O cineasta consolidara uma vasta carreira na Boca do Lixo, dedicando-se ao cinema popular em diferentes gêneros. Os filmes de horror realizados no período explícito vão associar sexualidade e violência gráfica, traduzindo o esgotamento de uma certa ideia de erotismo, revelando o “terrível” por trás do prazer.

Resumo expandido

    A transição da Boca do Lixo para o cinema explícito nos anos 1980 reverbera em uma guinada de violência gráfica nos filmes de horror dirigidos por Fauzi Mansur. O cineasta, que já apresentara relevantes fitas do gênero nos anos 1970 (“A Noite das Fêmeas”, 1976; “Belas e Corrompidas”, 1977), flerta com o explícito em 1983, propondo, em “Sadismo – Aberrações Sexuais”, uma protagonista que sente prazer imaginando-se em situações de estupro, tortura e canibalismo. Enquanto os pares de Mansur radicalizam o apelo erótico no âmbito de suas respectivas propostas estéticas, o seu cinema de horror vai associar esta “nova” sexualidade ao grotesco, conceito que abordaremos a partir da historiografia proposta por Bakhtin (1987).

    O autor apresenta diferentes compreensões do “grotesco” ao longo da história da arte. Originalmente, na Idade Média, as manifestações grotescas, ao representar funções do corpo, como a alimentação, a excreção e a sexualidade, eram relacionadas à satisfação de necessidades naturais e imbuídas de significado positivo, assinalando “o princípio da vida material e corporal” (Bakhtin, 1987, p. 16). Este “princípio” era universal e popular, ligado à fertilidade e à abundância. A ideia de “rebaixamento” não teria, ainda, um sentido moral: “o ‘alto’ é o céu; o ‘baixo’ é a terra; a terra é o princípio de absorção (o túmulo, o ventre) e, ao mesmo tempo, de nascimento e ressurreição (o seio materno)” (Bakhtin, 1987, p. 18).

    O grotesco vai ganhar conotação negativa no período do Romantismo, quando suas expressões perdem o caráter universal e se tornam subjetivas, individuais. “Tudo o que é costumeiro, banal, habitual, reconhecido por todos, torna-se subitamente insensato, duvidoso, estranho e hostil ao homem (Bakhtin, 1987, p. 34)”. Aproximando da abordagem acionada por Mansur, Bakhtin fala também em uma interpretação satírica do grotesco, entendido como “o exagero do que não deve existir, exagero que ultrapassa o verossímil e se torna assim fantástico” (Bakhtin, 1987, p. 39).

    Ainda no ano de 1983, Mansur mergulha no pornô com “Ninfetas do Sexo Selvagem”, uma distopia pós-apocalíptica. Para além dos excessos na exposição da sexualidade e de seu imbricamento com a violência através de numerosas sequências de estupro, uma passagem sintomática apresenta os personagens degolando um animal vivo e devorando sua carne. Quaisquer “funções naturais do corpo”, como, neste caso, a alimentação, surgem “hostis” e ameaçadoras.

    A presente comunicação visa assim debater, com perspectiva historiográfica, as implicações do elemento “grotesco” acionado na filmografia de horror pornográfico construída por Fauzi Mansur a partir de então. Em 1984, “As Rainhas da Pornografia” retrata uma distopia orgiástica em que humanos são reféns de um ser místico capaz de incitar desejo com sua flauta. Em 1985, “A Seita do Sexo Profano” concebe um culto onde prazeres são perpetrados em rituais de mutilação. Em 1985, “Devassidão Total até o Último Orgasmo” apresenta uma prisão clandestina na floresta onde escravizadas sexuais estão à disposição de seus carcereiros. Nestas fitas, ambientadas em diegeses “inverossímeis” ou “fantásticas”, as expressões materiais do corpo, em especial a sexualidade, tornam-se veículo para os temores humanos, para o “habitual” que se torna “estranho”.

    A filmografia de horror de Mansur na década de 1980 evidencia como o apelo ao grotesco não se restringe a uma ideia vaga de sensacionalismo, podendo ser compreendido mais amplamente como uma expressão das angústias de um cinema em vias de esgotamento. Ao radicalizar a exposição e do corpo e seus limites naturais, associando intrinsecamente prazer e violência, estes filmes espelham a decadência da proposta erótica mais “inocente” gestada na Boca do Lixo na década anterior. O corpo humano erotizado, neste momento de seu cinema, é expressão do que há de mais abjeto, terrível e degradante para aqueles que dedicaram suas carreiras à construção do erótico no cinema popular.

Bibliografia

    ABREU, Nuno Cesar. Boca do Lixo: cinema e classes populares. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2015.

    BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec, 1987.

    BALTAR, Mariana. Moldura narrativa como (re)designação moral e política na pornografia comercial – um exercício de análise para o papel das feminilidades em Sexo dos Anormais. Anais do Congresso Fazendo Gênero 11 – ST Olhares Pornográficos, 2017.

    CÁNEPA, Laura Loguercio. Medo de que?: uma historia do horror nos filmes brasileiros. Tese de Doutorado, Unicamp, Campinas, SP, 2008.

    LAMAS, Caio Túlio Padula. Boca do Lixo: erotismo, pornografia e poder no cinema paulista durante a ditadura militar (1964-1987). Dissertação de Mestrado em Ciências da Comunicação, USP. São Paulo, 2013.

    MULVEY, Laura. “Prazer Visual e cinema narrativo”. In: XAVIER, Ismail (org.), A Experiência do Cinema: antologia. Rio de Janeiro: Edições Graal: Embrafilmes, 1983.