Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Lauren Marinho de Cerqueira Lima (UFBA)

Minicurrículo

    Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura e Cultura e graduado em Letras – Inglês, ambos pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Membro do VOLTA – Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Cinema Irlandês Contemporâneo, orientado pelo Prof. Dr. Sanio Santos da Silva. Pesquisa sobre cinema irlandês, folk horror e som no cinema de terror. É também professor bolsista do NUPEL – Núcleo Permanente De Extensão Em Letras, na UFBA.

Ficha do Trabalho

Título

    Sons de um Trauma Silencioso: Folk Horror, Som e Irlandesidade em Fréwaka (2024), de Aislinn Clarke

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    Em filmes do subgênero folk horror, a música explora o tradicional e o eletrônico, suscitando temporalidades conflituosas. Este trabalho busca analisar a narrativa sonora em Fréwaka (2024), de Aislinn Clarke, com base em estudos e teorias sobre som no cinema de terror, com enfoque no folk horror e em lendas do folclore irlandês. A metodologia é a análise de conteúdo, de Laurence Bardin (1977), e espera-se que a pesquisa amplie debates sobre representações sonoras no cinema irlandês de terror.

Resumo expandido

    No cinema, o termo audiovisual é reflexo do fato de imagens atuarem junto ao som para acionar sensações que sustentam a experiência do público. Claudia Gorbman (1987) escreve a respeito da música no som de um filme, argumentando que ela desfruta de um lugar especial na narração fílmica, infligindo na narrativa valores emocionais através de códigos culturais. Assim, a música diminui as defesas do público contra as estruturas fantasiosas que a narrativa abre, aumentando a suscetibilidade do espectador à sugestão (Gorbman, 1987). No cinema de terror, essa música ganha destaque ao passo que essa arte ganha dimensões sensoriais específicas. Rodrigo Carreiro (2019) define que, a partir de vozes, músicas e efeitos sonoros, a mobilização afetiva da plateia em relação ao sentimento de horror se tornou mais efetiva. A função narrativa de aplicar sustos no espectador, portanto, pode ser atingida através da música, atuando esta como sinalizador afetivo para o público (Carreiro, 2019). Essa tendência pode ser notada no filme irlandês de terror Fréwaka (2024), de Aislinn Clarke, no qual a protagonista Shoo enfrenta traumas familiares, que se materializam na forma de lendas folclóricas. Durante a história, ela é seguida por essas memórias através de caminhos ancestrais e religiosos. A música do filme, composta pela artista Die Hexen, engendra essa trama, na medida em que a artista utiliza instrumentos folclóricos e característicos do gênero terror para a construção da narrativa sonora do longa. A obra também se encaixa no subgênero folk horror, que atua na liminaridade entre passado e presente, gerando um confronto de espaços e tempos distintos, que se chocam em um retorno ancestral aterrorizante. Adam Scovell (2017) define que o subgênero conecta o passado e presente, criando um confronto de crenças e pessoas; modernidade e Iluminismo contra a superstição e fé. A música do subgênero, de forma similar, propõe reforçar esse contraste entre tempos distintos, promovendo um diálogo entre o terror de rituais antigos, frequentemente associados a espaços rurais, contra uma civilização que os rejeita. Alexander Kolassa (2024) sublinha essa música como uma que consiste em instrumentos tradicionais, porém eletrônicos, e que, talvez, o folk horror manifeste uma música contraditória: um ritual perdido reimaginado, irredutível a traços musicais, porém constituído por rachaduras no tempo. Fréwaka acolhe essas noções e posiciona Shoo como catalisadora de um processo ancestral de descoberta de sua linhagem, enquanto enfrenta criaturas ancestrais ao som de instrumentos tradicionais celtas mesclados a sintetizadores modernos. A narrativa sonora do longa, portanto, engendra a atmosfera de terror através de técnicas comuns ao gênero, ao mesmo tempo que sustenta e sonoriza as lendas folclóricas irlandesas representadas. Nesse sentido, o presente trabalho pretende responder o seguinte questionamento: como a narrativa sonora de Fréwaka é construída, através do subgênero folk horror, a partir das lendas folclóricas irlandesas presentes no filme? A partir desta pergunta, este trabalho estabeleceu como objetivo geral analisar a narrativa sonora em Fréwaka, sob a luz de estudos e teorias sobre som no cinema de terror, com enfoque no subgênero folk horror e em lendas do folclore irlandês. A metodologia escolhida para o desenvolvimento desse estudo foi a análise de conteúdo, definida por Laurence Bardin (1977). Trata-se de uma proposta que pretende investigar representações narrativas sonoras do folk horror no contexto irlandês, utilizando a obra de Clarke como ponto de partida. A pesquisa também deve discutir significâncias históricas do folclore no processo de edificação da identidade nacional irlandesa e suas representações, que podem evocar o passado como reflexo de medos por meio de técnicas narrativas e sonoras.

Bibliografia

    BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977.

    CARREIRO, Rodrigo. Por uma teoria do som no cinema de horror. Revista Ícone. Recife, Vol. 17, N. 3, p. 251–269, 2019.

    FRÉWAKA. Direção: Aislinn Clarke. Irlanda, Reino Unido: DoubleBand Films, Fís Éireann/Screen Ireland, Cine4, Wildcard Films, 2024.

    GORBMAN, Claudia. Unheard melodies: narrative film music. Indiana: Indiana University Press, 1987.

    HOLLOWAY, Julian. Sounding Folk Horror and the Strange Rural. In: History as Fantasy Music, Sound, Image, and Media. COOK, James; KOLASSA, Alexander; ROBINSON, Alexander; WHITTAKER, Adam. Nova York: Routledge, p. 187-206, 2024.

    SCOVELL, Adam. Folk Horror: Hours Dreadful And Things Strange. Liverpool: Auteur, 2017.

    SOBCHACK, Vivian. Carnal Thoughts: Embodiment and Moving Image Culture. Berkeley: University of California Press, 2004.