Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Maira Cinthya Nascimento Ezequiel (UFS)

Minicurrículo

    Doutora em Cinema pela Universidade Federal Fluminense – UFF, mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e graduada em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas – UFAL. É professora efetiva do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Sergipe e do PPGCINE-UFS. Coordena grupo de iniciação cientifica (PIBIC) que desenvolve pesquisa sobre protagonismo feminino em narrativas seriadas latino-americanas. É membra do grupo de pesquisa Mulheridades Cinematográficas (UFF).

Ficha do Trabalho

Título

    Para além da narco-bandida: feminismo comunitário e práticas descoloniais na série chilena La jauría

Seminário

    Cinema e audiovisual na América Latina: novas perspectivas epistêmicas, estéticas e geopolíticas

Resumo

    Esta comunicação propõe uma leitura do protagonismo feminino partilhado na série La Jauría como expressão de resistência que dialoga com um referencial teórico feminista latino-americano e recusa o estereótipo da narco-bandida. A hipótese é a de que o partilhamento do protagonismo como prática para o enfrentamento do patriarcado e da colonialidade do gênero e do poder na narrativa pode ser lido pelas lentes do feminismo latino-americano que convoca uma experiência comunitária e territorializada.

Resumo expandido

    Esta comunicação propõe uma leitura do protagonismo feminino partilhado na série chilena La Jauría (A matilha/Prime Video/2016) como expressão de uma resistência feminista que funciona como uma “fissura que desarticula a colonialidade do poder” (Segato, 2012) e se mostra uma exceção à ideia de que toda protagonista de séries criminais latino-americanas sejam “bandidas” (Lusvarghi, 2018). Mais ainda, dada a diversidade de suas representações (jovens estudantes, policiais experientes, mães e não-mães, casadas e solteiras, mulheres cis, trans e não-binárias, hetero e homossexuais) e o modo como compartilham o protagonismo parece possível fazer uma leitura da narrativa em diálogo com os argumentos de pensadoras feministas latino-americanas como, além de Segato, María Lugones (2014), Yuderkis Espinosa (2020) e Julieta Paredes (2015) que promovem formas diferentes de pensar gênero e patriarcado, a partir de perspectivas localizadas (sociais e territoriais). Ao longo das duas temporadas, dois núcleos de protagonistas mulheres se entrelaçam – um trio de policiais e um grupo de jovens ativistas feministas – na busca pelos responsáveis pelo sequestro e estupro coletivo de uma das jovens, que se revela, inicialmente, como parte de um jogo online, intitulado “o jogo do lobo”. Interessa observar como se dá a representação desse grupo de mulheres protagonistas em uma narrativa policial latino-americana que, ainda que se mantenha fiel a estrutura formal do gênero, se vale de um partilhamento do protagonismo entre diversas personagens femininas dominantes que, juntas, promovem uma frente de resistência ao poder colonial/patriarcal. A série também lança mão de elementos da realidade e da memória política chilena para abordar a questão da misoginia, do movimento redpill e, em última instância, da ascensão da ultra-direita cristã conservadora no Chile e na América Latina, com a contribuição efetiva dos EUA. Ainda que a trama não apresente uma resolução clara do tipo “o bem vence o mal” (e talvez por isso mesmo), a distribuição dos papéis dominantes entre personagens femininas diversas que agem em conjunto sugerem uma leitura inspirada em no que Rita Segato (2012) chama de práticas descoloniais e defendida por um feminismo latino (não-eurocêntrico) e comunitário, como elaborado por autoras como Lugones, Espinosa e Paredes. O esforço coletivo em confrontar a estrutura de opressão patriarcal se apresenta como única forma eficaz de provocar uma ruptura em uma força que também se dissemina de forma capilarizada, especialmente no contexto latino-americano em que atuam as forças da colonialidade. Em La jauría, os polos que representariam o “mocinho” e o “bandido” na narrativa policial clássica, se apresentam em agrupamentos de personagens, mas que, do lado do patriarcado, se organizam em hierarquias, enquanto que do lado da resistência feminina, em suas existências e seus modos de agir, se organizam de forma mais diversa e partilhada. A hipótese aqui investigada é a de que a narrativa pode ser lida pelas lentes do pensamento feminista latino-americano ao lançar mão de uma prática de enfrentamento do patriarcado e da colonialidade do gênero e do poder geopoliticamente localizada, que abrange desde a estética – ao partilhar o protagonismo feminino de modo que várias personagens atuem de forma coletiva para o andamento da narrativa – até sua autoria (sendo criada e dirigida pela cineasta argentina Lucía Puenzo). Nem femme fatales bandidas (como Lusvarghi acredita os serem “invariavelmente”) nem latinas sexualizadas ou melodramáticas: as protagonistas de La Jauría se mostram uma exceção à recorrência da anti-heroína narcobandida em narrativas desse gênero. São, em seu lugar, um coletivo de mulheres politizadas, com marcadores e características de gênero e sexualidade diversos, agindo em diversas frentes, configurando um outro modo de representação do protagonismo feminino (e feminista) latino-americano.

Bibliografia

    ESPINOSA, Yuderkis. Fazendo uma genealogia da experiência: o método rumo à crítica da colonialidade da razão feminista a partir da experiência histórica da América Latina. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.). Pensamento Feminista Hoje: Perspectivas decoloniais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020.
    LUGONES, María. Rumo a um Feminismo Descolonial. Estudos Feministas, Florianópolis, 22(3): 320, setembro-dezembro/2014.
    LUSVARGHI, Luiza. Protagonismo feminino no audiovisual latino-americano. In: Audiovisual e América Latina: estudos comparados. São Paulo: SOCINE, 2019.
    PAREDES, Julieta Carvajal. Uma ruptura epistemológica com o feminismo ocidental. In: HOLLANDA, Heloísa Buarque de (org.). Pensamento Feminista Hoje: Perspectivas decoloniais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020.
    SEGATO, Rita Laura. Gênero e Colonialidade: Em busca de chaves de leitura de um vocabulário estratégico descolonial. In: Epistemologias Feministas: Ao encontro da crítica radical. Coimbra, n. 18, 2012.