Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Gabriel Moro Sabedotti Chemim (Unespar)

Minicurrículo

    Gabriel Moro Sabedotti Chemim é cineasta, produtor cultural e pesquisador. É mestrando em Cinema e Artes do Vídeo pela Universidade Estadual do Paraná (Unespar/FAP), onde investiga a ontologia da imagem e a materialidade da encenação animal no cinema clássico. Possui vivência prática na realização audiovisual, atuando no desenvolvimento e direção de projetos fílmicos, bem como na curadoria, organização e mediação de mostras, cineclubes e festivais de cinema.

Ficha do Trabalho

Título

    O rinoceronte não ensaiou: Ontologia da imagem e zonas de contato em Hatari!

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    O trabalho investiga o impacto ontológico da presença de animais reais em Hatari! (Hawks, 1962). Articulando as discussões sobre o realismo baziniano e o conceito de zonas de contato de Donna Haraway, argumenta-se que o corpo animal instaura um movimento onde a ficção é fraturada pelo real empírico. Filmar a fera equivale a documentar um emaranhamento multiespécie que desestabiliza a mise-en-scène clássica e recoloca a imagem como testemunho da nossa inseparabilidade material do mundo.

Resumo expandido

    No filme Hatari! (Howard Hawks, 1962) vemos a captura de animais selvagens para zoológicos ao redor do mundo. Sua trama, quase ausente, é apenas um pretexto para o que Hawks sempre privilegiou: o profissionalismo, a camaradagem, a câmera junto ao corpo em ação. Mas há algo mais acontecendo em Hatari! que ultrapassa a poética hawksiana tal como a crítica a consolidou. Quando os atores John Wayne, Hardy Krüger e Red Buttons perseguem rinocerontes e girafas, a câmera está diante de corpos que não foram roteirizados, que não obedecem à lógica da representação e que introduzem na cena um excesso ontológico que o dispositivo ficcional não consegue domesticar.
    Diante do fascínio com o que essas imagens podem representar, este trabalho propõe analisar Hatari! a partir de dois eixos teóricos articulados. O primeiro mobiliza a ontologia fotográfica de André Bazin, a imagem fotográfica como uma relação de identidade com o real, um “molde de luz” que preserva a presença do objeto no tempo. Em Hatari!, os animais fotografados são seres que existiram naquele instante de captura, e sua imprevisibilidade se estabelece justamente no fato de que nenhuma mise-en-scène os contém. A câmera baziniana, que respeita a ambiguidade do real ao resistir à uma grande construção na montagem, encontra aqui seu limite e sua confirmação. O animal fratura a continuidade diegética pelo seu excesso de presença.
    Um rinoceronte que ataca um jipe é um agente que reorganiza a cena, redireciona a câmera, transforma o humano que veio capturá-lo. Para pensar essa reciprocidade, recorro à noção de “zona de contato” de Donna Haraway em Quando as espécies se encontram (2022): espaços de fricção onde espécies se constituem mutuamente em relações assimétricas de poder. Hatari! é inteiramente construído nessas zonas e podemos observar duas espacialidades distintas que materializam essa definição, permitindo-nos analisá-las.
    A primeira é a perseguição ao rinoceronte na cena de abertura do filme. Ali a violência é estrutural. O objetivo é deter, transportar, vender. Mas o controle humano nunca é absoluto. O animal ataca o carro e desvia no último instante: sua agência altera o curso da ação de maneira que nenhuma direção de atores poderia produzir. A câmera, forçada a reagir, registra a negociação em tempo real entre o que foi planejado e o que o animal impõe. A imagem é aqui também rastro de uma relação de força. Não há imagem do animal sem a presença humana que a provocou, e essa presença só existe transformada pelo animal que a forçou a recuar ou avançar.
    A segunda espacialidade é o acampamento. O guepardo que circula pelo banheiro e jardim. As fronteiras entre o “selvagem” e o “doméstico” se dissolvem em etiquetas improvisadas de convivência. Se a savana é zona de contato pelo risco e pela velocidade, o acampamento é zona de contato pela banalidade e pela assimetria cotidiana. Um laboratório onde regras de coexistência são negociadas continuamente. A ficção hawksiana não romantiza esse espaço e simplesmente o filma com a mesma atenção que dedica ao gesto humano, e é nessa equivalência de olhar que reside seu gesto político mais silencioso.
    Lidos juntos, Bazin e Haraway permitem que a análise fílmica alcance uma dimensão que nenhum dos dois autores, isoladamente, conseguiria nomear: um cinema em que a ontologia da imagem fotográfica e a ética multi-espécie se encontram no mesmo instante de captura. Hatari! é uma ficção porosa, habitada por corpos que resistem à representação e que transformam, plano a plano, tanto os humanos que os perseguem quanto o dispositivo cinematográfico que os registra.

Bibliografia

    AUMONT, Jacques; MARIE, Michel. A Análise do Filme. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2009.
    BAZIN, André. O que é o cinema?. São Paulo: Ubu Editora, 2018.
    HARAWAY, Donna. Quando as espécies se encontram. São Paulo: Ubu Editora, 2022.
    HATARI! Direção: Howard Hawks. Estados Unidos: Paramount Pictures, 1962. Filme.
    MCCARTHY, Todd. Howard Hawks: The Grey Fox of Hollywood. New York: Grove Press, 1997.
    RIVETTE, Jacques. O Gênio de Howard Hawks. In: A política dos autores. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.
    WOOD, Robin. Howard Hawks. New ed. Detroit: Wayne State University Press, 2006.