Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Joanise Levy (Jô Levy) (UEG)

Minicurrículo

    Roteirista e professora no curso de Cinema e Audiovisual da UEG. Doutora em Estudos Fílmicos e da Imagem, Universidade de Coimbra, e doutora em Literatura pela UnB. Mestre em Educação e graduada em Jornalismo pela Universidade Federal de Goiás. É membro da SRN – Screenwriting Research Network e da Rede de Docentes de Roteiro do Forcine – Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual. Coordenou o Seminário Temático da Socine: “Estudos de Roteiro e Escrita Audiovisual” (biênio 2023-2024)

Ficha do Trabalho

Título

    O gato e a bolsa: da fórmula industrial do roteiro à imaginação da narrativa como abrigo

Mesa

    Roteiro audiovisual contemporâneo: fabulação, escrita sensível e saberes em disputa

Resumo

    O ensino de roteiro é atravessado por disputas de paradigma. A publicação no Brasil de Salve o Gato! (Snyder) e A teoria da bolsa de ficção (Le Guin) evidencia essa tensão: enquanto Snyder prescreve uma narrativa centrada no herói, no conflito e na resolução, Le Guin propõe a lógica da narrativa que acolhe múltiplos elementos, dispersa a agência e opera por acumulação e coexistência. Esse embate revela que as pedagogias do roteiro não são neutras e orientam modos de imaginar o mundo.

Resumo expandido

    As publicações recentes, no Brasil, de Salve o Gato! (Blake Snyder, H1, 2024) e de A teoria da bolsa de ficção (Ursula K. Le Guin, Cobogó, 2025) expõem um movimento curioso do mercado editorial: a tradução de um manual consagrado da indústria audiovisual e a reedição de um ensaio crítico que tensiona os próprios fundamentos da narrativa. A longevidade editorial de Salve o Gato! deve-se à sua capacidade de traduzir a narrativa em procedimentos replicáveis. A beat sheet de Snyder organiza a história segundo uma progressão que conduz o protagonista de um desequilíbrio inicial à resolução final, oferecendo ao aspirante a roteirista uma gramática orientada à produção de histórias “que funcionam”. Sua ampla adoção consolidou um padrão de inteligibilidade narrativa baseado na causalidade, na escalada de conflitos e na transformação individual.
    É precisamente esse paradigma que o ensaio de Le Guin vem desestabilizar. Em A teoria da bolsa de ficção, a autora recusa a centralidade da figura do herói e mobiliza a hipótese do recipiente como princípio organizador da narrativa, que deixa de ser concebida como trajetória orientada a um clímax e passa a ser entendida como um campo de relações. Essa proposição apoia-se em Woman’s Creation (1980), de Elisabeth Fisher, que questiona o modelo do “homem caçador” e desloca o eixo explicativo da evolução humana para práticas de coleta e cuidado, sugerindo que a primeira tecnologia humana teria sido o recipiente — cestos, bolsas, redes —, e não a arma.
    Le Guin parte dessa hipótese para mostrar que as formas de explicar a origem da cultura já estão estruturadas narrativamente. A centralidade da caça na antropologia tradicional não é apenas um dado empírico, mas a inscrição de um modelo heroico que organiza a experiência em termos de ação, conflito e conquista. Ao deslocar esse eixo para a lógica do recipiente, Le Guin propõe uma reconfiguração da própria forma narrativa: se a narrativa heroica privilegia a flecha que avança em linha reta até seu alvo, em seu lugar emerge uma imaginação baseada no acolhimento de múltiplos elementos e relações, na qual o conflito não é o princípio organizador.
    A distância entre Snyder e Le Guin não é apenas formal, mas ontológica. Enquanto o primeiro pressupõe que a narrativa é essencialmente conflito orientado à resolução, a segunda questiona a naturalização dessa premissa. Em Salve o Gato!, o conflito é motor, o protagonista é centro e a estrutura é caminho; em Le Guin, a narrativa pode prescindir de um clímax, dispersar a agência e operar por acumulação, repetição ou coexistência. Esse deslocamento tem implicações diretas para o ensino de roteiro: a centralidade de manuais como o de Snyder tende a consolidar uma pedagogia da reprodução, na qual aprender a escrever significa dominar uma estrutura previamente legitimada. A introdução de Le Guin não oferece um método alternativo, mas algo mais radical: uma crítica ao próprio desejo de método.
    A presença dessas obras no contexto brasileiro pode ser lida como uma oportunidade de explicitar que o ensino de roteiro é atravessado por disputas de paradigma. Entre o “gato” que deve ser salvo e a “bolsa” que acolhe múltiplas experiências, desenha-se uma tensão produtiva entre narrativa como técnica de captura da atenção e narrativa como espaço de abrigo de experiências. Ao admitir que narrativas criam mundos, somos levados a reconhecer que o ensino de roteiro não é neutro, pois orienta formas de narrar que organizam modos de ver e imaginar.
    Esta comunicação integra a pesquisa O ensino de roteiro: uma perspectiva histórica, em desenvolvimento na Universidade Estadual de Goiás, e tem como objetivo analisar criticamente a centralidade de modelos normativos no ensino de roteiro à luz de perspectivas que deslocam seus fundamentos epistemológicos, buscando contribuir para a ampliação do repertório teórico e metodológico do campo.

Bibliografia

    FISHER, Elizabeth. Woman’s creation: sexual evolution and the shaping of society. New York: McGraw-Hill Book, 1980.

    LE GUIN, Ursula K. The carrier bag theory of fiction. In: LE GUIN, Ursula K. Dancing at the edge of the world: thoughts on words, women, places. New York: Grove Press, 1989. p. 165–170.

    LE GUIN, Ursula K. A teoria da bolsa de ficção. Tradução de Isabel Diegues. Rio de Janeiro: Cobogó, 2025.

    LEVY, Joanise. The challenges of a decolonial pedagogy: a critical and comparative analysis of the SRN’s recommended readings. In: TURINA, Romana; BAUTZI, Alessandra (org.). Comparative screenwriting: dialogues on concepts, traditions and teaching strategies. No prelo.

    MENDES, João Maria. Culturas narrativas dominantes: O caso do cinema. Lisboa: Ediual, 2019.

    SNYDER, Blake. Salve o gato! Tudo o que você precisa saber sobre roteiro Tradução de Diego Franco Gonçalves – 2 ed. Santos: H1, 2025.