Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Elizabeth Motta Jacob (UFRJ)

Minicurrículo

    Professora Associada do Curso de Comunicação Visual Design, EBA/UFRJ, foi coordenadora do Curso de Pós Graduação em Artes da Cena, ECO/ UFRJ e da Pós-graduação em Direção de Arte na UNESA. Professora na Escuela Internacional de Cine e Tv, Cuba. Trabalhou para The Survivors of the Shoah Archives, Spielberg. Trabalhou para emissoras de TV, publicidade e filmes. Trabalha atualmente com questões relativas a visualidade háptica, espacialidade, visualidades e direção de arte na cena contemporânea.

Ficha do Trabalho

Título

    Terá a morte um Lar? Reflexões sobre a casa e a morte em um filme de Almodovar.

Seminário

    Estética e Teoria da Direção de Arte Audiovisual

Resumo

    Nesse artigo analiso as estratégias de direção de arte na constituição da morte enquanto personagem em O quarto ao lado, Almodóvar, 2024. Entendo que a protagonista precisa se esvaziar dos objetos sobre os quais constituiu posse para poder cometer a eutanásia. Outra casa e uma amiga a amparam no desapego mais pleno que uma existência pode suscitar. A direção de arte fundamenta imageticamente lares e não lares nesse jogo de afetos que constitui a pele do cinema, já a morte não.

Resumo expandido

    Na película de alto contraste, a morte encobre sua carne branca com manto negro. A enorme foice que empunha incorpora-se ao corpo e organiza a silhueta. Assim é a morte em O sétimo selo, 1957, Bergman. De algum modo, essa serenidade da morte me acompanha em O quarto ao lado, 2024, Almodóvar, onde ela se apresenta descarnada. Interessa-me entender como a direção de arte constrói a morte enquanto personagem num filme em que ela não possui corpo.
    Ingrid (Moore) afirma ter escrito o livro para se reconciliar com a morte e acompanhará a amiga na eutanásia. Para Martha (Swinton), a morte não chega, ela é convidada, assim como Ingrid, a estar presente diante da ausência de desejo em viver sob tratamentos dolorosos e ineficazes.
    As amigas partem para a casa escolhida para o momento solene. Mas a chegada à casa é interrompida pois Martha esqueceu a droga letal, comprada na deep web.
    A vida, finda aos olhos de Martha, se apresenta no apartamento. Ela sofre impacto ao adentra-lo, posto que instância de vida. O apartamento montado pela equipe de arte é crucial para se entender a personagem. Este é preenchida pela materialidade de sua vida, seu retrato, suas plantas, seus discos de vinil, seus diários de guerra. A direção de arte trabalha no sentido de construir vinculo psicológico e a posse de cada objeto pela personagem. Para Han (2024), a casa revela intimidade e interioridade que caracterizam a posse das coisas. Somente uma relação intensa com as coisas determina posse já que é a história acumulada com seu uso prolongado e o vinculo libidinoso e intenso que as torna coisas do coração. Assim, o apartamento abriga o que pode ser codificado como objetos de longa convivência, objetos que inoculam memórias.
    Martha abre caixas de objetos dispares acumulados no tempo. Ingrid vai para o escritório. Tudo que ali está é informação sobre a personagem. Uma caixa vermelha, uma chave. Goodbye escrito à mão num envelope encera a angustia da busca. Nessa sequencia vários planos se fecham sobre as mãos o que leva o espectador pra palpabilidade das materialidades criadas pela direção de arte.
    Uma casa é, para o diretor de arte, um campo para dar vida ao personagem e ele o faz convocando aquilo que Han (2026) vai chamar de coisas silenciosas, discretas, que percebemos no cotidiano, que carecem de estimulo, mas nos ancoram no ser. Dar ancoragem no ser é uma das funções da direção de arte.
    O apartamento, é constituído enquanto metáfora da vida, não podendo acolher a morte. Assim elas partem. Na nova casa se instaura um cotidiano ritualístico. “Os rituais são técnicas de fechamento temporal. Eles transformam o estar-no-mundo no estar-em-casa. Eles são no tempo o que as coisas são no espaço. Eles estabilizam a vida ao estruturarem o tempo” (HAN, 2026, p.134). A casa é composta com memórias dos proprietários, dela as amigas não tem posse.
    A porta do quarto de Martha é vermelha e assume função ritualística e narrativa: enquanto estiver aberta representa que Martha está viva. Os rituais “são arquiteturas temporais. Desta forma, eles tornam o tempo habitável, até mesmo transitável, como uma casa.” (HAN, 2026, p.134). A porta alenta e alarma Ingrid: aberta ela simboliza a energia vital, fechada ela a encerra.
    Martha se prepara para a morte, escreve cartas, retira o patch, cobre as manchas causadas pela doença, passa batom, veste-se, deita-se na espreguiçadeira como os personagens de Hooper no quadro encontrado na casa.
    Martha, que se crê incapaz de escrever nesta guerra, estabeleceu o momento da morte, e esta, acolhida, abandonou sua selvageria. A morte não faz lar pois encerra a posse do humano sobre as coisas e sobre si mesmo. Sem a posse afetiva e investimento libidinal não se fazem lares. Diz-se neste filme que o sexo é a melhor maneira de afastar a morte. Fale com ela, 2002 o demonstra, quando o enfermeiro estupra a jovem em coma que desperta pela vida que nela se instala. Em O quarto ao lado à doente terminal é a transgreção que garante um digno fim

Bibliografia

    AUMONT, Jacques. As teorias dos cineastas. Campinas: Papirus, 200
    AGAMBEM, G. Notas sobre o gesto, Artefilosofia, Ouro preto, n.4, p.09-14, jan.2008.
    BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte: UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial, 2006.
    BENTO,G. O espectador e os efeitos da experiência cinematográfica, Ciências & Cognição 2008; Vol 13 (2).
    COCCIA, Emanuele. Filosofia da casa. O espaço doméstico e a felicidade, Rio de Janeiro: Dantes editora, 2021.
    DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995.
    GUILLON, Claude e Le Bonniee. Suicídio modo de usar, Lisboa: Ed. Antígona, 1984.
    HAN, Byung-Chul. Não coisas. Reviravoltas do mundo da vida, Petropólis, RJ: Editora Vozes, 2022.