Ficha do Proponente
Proponente
- Ediê da Cruz Reis (UFS)
Minicurrículo
- Mestranda em Cinema e Narrativas Sociais na Universidade Federal de Sergipe, pós-graduada em Design de Produtos de Moda pelo Senai Cetiqt e graduada em Comunicação Social Jornalismo pela Universidade Federal de Sergipe. Atua como diretora criativa da marca Avia e como docente em cursos e projetos formativos nas áreas de moda e comunicação. Desenvolve trabalhos na criação de figurinos, curadoria e processos criativos. Dedica-se aos estudos de figurino no cinema, com interesse em história da moda.
Ficha do Trabalho
Título
- A Era Espacial e a representação feminina: análise do figurino no filme Barbarella (1968)
Seminário
- Estética e Teoria da Direção de Arte Audiovisual
Resumo
- A proposta investiga como o figurino do filme Barbarella (1968), embora projete o futuro, representa as marcas históricas e socioculturais de sua criação e revela as expectativas de seu tempo. Amparada pelos estudos de Jane Pavitt (2008) em Fear and Fashion in the Cold War, a análise vincula a estética do filme aos desdobramentos da década de 1960, refletindo as confluências entre a Guerra Fria, a Segunda Onda Feminista e a revolução sexual.
Resumo expandido
- As projeções de futuro construídas no cinema traduzem a forma como a sociedade percebe o tempo, elaborando inquietações e anseios relacionados às transformações constantes do corpo social. Como observa Martins (2013), o imaginário é parte constitutiva da própria realidade humana, e a dimensão imaginária do cinema dialoga diretamente com a do espectador.
Assim como o cinema, a moda opera como linguagem simbólica que vincula a experiência subjetiva ao imaginário coletivo e dialoga com os contextos políticos, sociais e culturais de cada época (Crane, 2006). O figurino contribui para a construção de narrativas complementares ao enredo, oferecendo pistas sobre os personagens, sobre o contexto histórico e social, sobre sua personalidade e visão de mundo. Dentro da perspectiva de futuro, o figurino funciona como elemento estético e narrativo capaz de materializar as ideologias que configuram esses imaginários do porvir. Mesmo futuristas, essas criações não rompem com o contexto do presente, reapropriando silhuetas e materiais para assegurar verossimilhança e identificação ao imaginário especulativo (Lima, 2008).
Inspirado em uma série de histórias em quadrinhos homônimas, o filme Barbarella (1968), dirigido por Roger Vadim e protagonizado por Jane Fonda, é frequentemente lembrado por sua psicodelia visual. Ambientado no ano 40.000, o longa acompanha uma agente intergaláctica que navega por um universo onde as armas convencionais já foram relegadas aos museus e a sexualidade feminina é instrumento de poder.
A década de 1960 foi marcada por grandes transformações sociais que apresentavam um novo mundo, instituído com o fim da Segunda Guerra Mundial. Um mundo dividido entre duas formações econômico-sociais e temeroso pela deflagração de uma Terceira Guerra Mundial. Nesse contexto, a moda incorporou novos materiais e experimentações formais, traduzindo o fascínio pelo espaço sideral e pela autonomia do corpo (Pavitt, 2008).
A estética futurista do longa reflete utopias sociais que surgem nesse momento de transformações culturais e tecnológicas. O filme representa a chamada Era Espacial, fruto dos impactos estéticos que a corrida espacial e a competição tecnológica da Guerra Fria geraram. Ao mesmo tempo, a trama coloca o corpo feminino no centro de um debate entre liberdade e poder, reivindicado pela revolução sexual e Segunda Onda Feminista, versus objetificação e hipersexualização da mulher no cinema.
O figurino, criado por Paco Rabanne e Jacques Fonteray, funciona como resposta estética a esse contexto específico. Os trajes feitos de plásticos, metais e silhuetas ajustadas expressam tanto o otimismo tecnológico da corrida espacial, cuja referência direta é a coleção Era Espacial de Pierre Cardin (1964), quanto a promessa de liberação sexual e protagonismo feminino, respondendo às expectativas sociais de ruptura com padrões tradicionais. A subversão proposta na indumentária também está no uso de materiais sintéticos, rompendo com a tradição das fibras naturais e simbolizando uma nova era de produção têxtil pós-Guerra.
O objetivo dessa pesquisa, que se insere em um programa de mestrado interdisciplinar em cinema, é investigar de que forma o vestuário, enquanto figurino, atua como uma linguagem capaz de representar os códigos socioculturais e estéticos que sustentam a narrativa fílmica. Para isso, os estudos de Jane Pavitt (2008) no livro Fear and Fashion in the Cold War, que examina como a moda e o design operaram durante a Guerra Fria, servirão como base teórica central. A pesquisa adota os métodos bibliográfico e documental, reunindo e analisando também referências teóricas sobre as relações entre moda, figurino e sociedade; estética cinematográfica e futuro. Pesquisar o figurino de um universo futurista sob a perspectiva da história da moda contribui para ampliar a compreensão sobre como a narrativa audiovisual elabora e comunica símbolos culturais e preenche uma lacuna nos estudos do figurino enquanto campo interdisciplinar.
Bibliografia
- CRANE, Diana. A moda e seu papel social: classe, gênero e identidade das roupas. Tradução de Cristina Ferrari. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2006.
LIMA, Vitalina Alves de. O figurino dos filmes de ficção científica. dObra[s] – revista da Associação Brasileira de Estudos de Pesquisas em Moda, [S. l.], v. 2, n. 3, p. 75–80, 2008.
MARTINS, Alice Fátima. Saudade do futuro: ficção científica no cinema e o imaginário social sobre o devir. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2013.
PAVITT, Jane. Fear and Fashion in the Cold War. Londres: V&A Publications, 2008.