Ficha do Proponente
Proponente
- Victoria Santos Santana (UFBA)
Minicurrículo
- Mestranda no Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da UFBA e graduada em Comunicação pela mesma universidade. Membro do LAF (Laboratorio de Análise Fílmica -FACOM/UFBA), do NIDAA (Núcleo de Investigação em Direção de Arte Audiovisual NIDAA/UFPE), sua pesquisa se centra na produção cinematográfica com ênfase na comunicação através da direção de arte. Possui formação em Direção de Arte (Cine Arts PROEX/UNEB) e atuação em projetos de publicidade e cinema nacional.
Ficha do Trabalho
Título
- A fabulosa agência dos objetos: direção de arte e produção de sentido em Amélie Poulain
Seminário
- Estética e Teoria da Direção de Arte Audiovisual
Resumo
- A pesquisa analisa como os objetos de cena de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Jeunet, 2001) constroem sentido a partir da direção de arte, propondo um percurso metodológico articulado em três movimentos: a crítica inferencial de Baxandall, a isotopia visual e o neomaterialismo da Teoria ator-rede Latouriana. A pesquisa defende que a cor vermelha, recorrente nos objetos de cena, configura a isotopia que organiza uma narrativa onde os objetos são analisados como actantes dotados de agência.
Resumo expandido
- Quando nos sentamos para assistir a um filme, o olhar tende a seguir as personagens. Os objetos que as cercam, as cores que preenchem o quadro, raramente recebem atenção equivalente. São percebidos, sentidos, assimilados, mas raramente interrogados. Esta pesquisa nasce exatamente desse deslocamento: voltarmos o olhar para os objetos, para enxergar o que eles revelam quando deixam de ser pano de fundo e passam a ser o centro da análise.
Como corpus, temos O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (Jean-Pierre Jeunet, 2001), obra cuja direção de arte, assinada por Aline Bonetto e inspirada no artista brasileiro Juarez Machado, constrói um universo visual tão densamente codificado que seus objetos de cena extrapolam a função decorativa e passam a agenciar a própria narrativa. A pergunta central é: como esses objetos constroem sentido, e como analisá-los metodologicamente a partir da direção de arte?
O campo que sustenta a investigação ainda enfrenta lacunas consolidadas. Bastos, Paiva e Medeiros (2023, p. 46) localizam “lacunas na bibliografia específica sobre o tema, especialmente no que diz respeito a uma metodologia de análise fílmica a partir deste aspecto”. É nessa lacuna que esta dissertação se posiciona, propondo e testando um percurso metodológico articulado em três movimentos complementares.
O primeiro, como olhar, ancora-se na crítica inferencial de Michael Baxandall. Em Padrões de Intenção (2006), o autor propõe que obras de arte devem ser compreendidas como respostas a problemas específicos, soluções materializadas para encargos e diretrizes que orientaram o processo criativo. Aplicada ao cinema, essa abordagem permite analisar as escolhas estéticas da direção de arte a partir dos vestígios inscritos na própria obra, sem depender de declarações dos realizadores, premissa especialmente valiosa quando não se tem acesso direto às intenções de Aline Bonetto.
O segundo movimento, o que procurar, opera com a noção de isotopia visual. O conceito, originado na semiótica greimasiana, designa a reiteração de efeitos de sentido ao longo de um texto. Como sintetiza Fiorin (2011, p. 112), “o que dá coerência semântica a um texto […] é a reiteração, a redundância, a repetição, a recorrência de traços semânticos ao longo do discurso”. Em Amélie Poulain, a cor vermelha aplicada sistematicamente aos objetos de cena mais narrativamente relevantes, na caixinha de Bretodeau, aa pasta de Nino e nas luvas de Amélie, configura uma isotopia figurativa que sustenta, em profundidade, uma isotopia temática identificada por Manguel (2001, p. 50) como o “amor pela ação”. Mais do que decoro estético, o vermelho qualifica, conecta e inscreve os objetos num sistema de sentido que percorre a obra integralmente.
O terceiro movimento, como interpretar, fundamenta-se no neomaterialismo e na Teoria Ator-Rede (TAR) de Bruno Latour. A TAR propõe que humanos e não-humanos participam conjuntamente da construção das redes de sentido, reconhecendo a ambos capacidade de agir e transformar. Latour (2012, p. 47) compara o trabalho analítico ao de uma formiga: é preciso rastrear pacientemente as conexões concretas entre actantes, sem pressupor quem tem mais importância na rede. As contribuições de Karen Barad (2007), com o conceito de intra-ação, e de Jane Bennett (2010), com o vitalismo da matéria, aprofundam essa leitura, demonstrando que os objetos não são símbolos fixos, mas entidades que emergem e se constituem nas relações que estabelecem.
A análise demonstra que a direção de arte de Amélie Poulain não é decoração, é linguagem, e que seus objetos participam ativamente da construção da narrativa, dotados de uma força que a análise centrada exclusivamente nos personagens humanos não alcança. O percurso metodológico proposto mostra-se coeso e analiticamente produtivo neste corpus específico e sua replicabilidade em outros filmes e contextos permanece como horizonte aberto.
Bibliografia
- BARAD, K. Meeting the Universe Halfway. Durham: Duke University Press, 2007.
BASTOS, M.; PAIVA, C.; MEDEIROS, J. Direção de Arte. In: FERREIRA et al. Dimensões da Direção de Arte na Experiência Audiovisual. Rio de Janeiro: Nau, 2023.
BAXANDALL, M. Padrões de Intenção. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
BENNETT, J. Vibrant Matter. Durham: Duke University Press, 2010.
BUTRUCE, D. Direção de arte no cinema brasileiro. Dissertação (Mestrado). UFRJ, 2005.
FIORIN, J. L. Elementos de Análise do Discurso. São Paulo: Contexto, 2011.
LATOUR, B. Reagregando o social. Salvador: Edufba, 2012.
MANGUEL, A. Lendo Imagens. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.