Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Antonio Tavares de Sousa Neto (USP)

Minicurrículo

    Bacharel em Cinema e Audiovisual (UFC) e mestrando no Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas (PPGAC) da USP, além de aluno da Escola de Arte Dramática (EAD). Membro do Outro Grupo de Teatro, trabalha como ator e produtor cultural, e é um dos idealizadores do projeto “Pausa Para o Fim do Mundo”.

Ficha do Trabalho

Título

    No escurinho do cinemão: o pornô merece uma história?

Eixo Temático

    ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS

Resumo

    O presente estudo faz uma breve análise sobre a abordagem histórica feita em duas importantes pesquisas brasileiras sobre locais de exibição de filmes pornográficos. A partir da dissertação “No escurinho do cinema: cenas de um público explícito” de Alexandre Fleming Vale (1997) e da tese “Cine(mão): espaços e subjetividades darkroom” de Helder Thiago Maia (2018), esse estudo busca refletir em como essas pesquisas contribuem para uma história do cinema no Brasil a partir do cinemão.

Resumo expandido

    Em “No escurinho do cinema: cenas de um público explícito”, Alexandre Fleming Vale (1997) mergulha no Cine Jangada, um cinema que esteve em atividade na cidade de Fortaleza de 1950 até 1996. Embora não seja uma pesquisa historiográfica – está centrada numa etnografia –, o autor investiga esses aspectos históricos parcialmente, tendo como ponto de partida o processo de inserção do Cine Jangada no mercado exibidor cearense até sua especialização em filmes pornográficos.

    Já Helder Thiago Maia (2018), na sua tese “Cine(mão): espaços e subjetividades darkroom”, pesquisa os cinepornôs a partir da literatura latioamericana. Sua abordagem histórica dos cines pornôs parte dessa produção literária para dialogar com uma história “maior” dos cinemas. O autor aborda as três fases das salas de cinema: a primeira se refere aos bailes e salões, elaborados principalmente pela historiadora Flávia Cesarino Costa; a segunda se refere aos grandes palácios cinematográficos, abordado a partir de João Soares Pena; e a terceira, quando o cinema passa para os shoppings e centros comerciais, apresentados por meio de Edgardo Cozarinski. Maia localiza os cines pornôs em diálogo com esses estudos e, ao recorrer à literatura como forma de contar essa história, expõe as lacunas que a historiografia clássica ignorou.

    Essas investigações nos fazem olhar para a pornografia como elemento fundamental da dinâmica das salas de cinema. Pesquisar sobre o Cine Jangada, como fez Vale, não é importante por se tratar de um cinema antigo, que poderia ser visto “apesar” da pornografia, mas porque nos ajuda a olhar para a pornografia como fundamental dentro da história do cinema (neste caso, a partir das salas de exibição como o Cine Jangada).

    Tanto Vale como Maia buscam o cinema como “fenômeno social, com o objetivo de descentralizar do texto fílmico como objeto principal de análise” (Freire, 2023, p. 22). Contribuições que podem ser vistas como o que Freire aponta como New Cinema History, dedicada à exibição e à recepção, que se pensa a história indo além de uma análise fílmica. Não se prendendo a esse termo em inglês, como também defende Freire, esse estudo pode ser entendido como uma contribuição para a “história do cinema no Brasil” e não somente uma “história do cinema brasileiro”.

    A importância dos cinemas pornográficos para a historiografia do cinema reside unicamente quando estes guardam um passado glorioso e/ou “ilibado”? E somente interessa aquele período que este funcionou enquanto cinema convencional? A historiografia do cinema vê a pornografia apenas como decadência, ignorando-a como parte fundamental das histórias dos cinemas? Ao apresentar duas pesquisas distintas, de épocas diferentes, que abordam os chamados cines pornôs, essa pesquisa busca elaborar uma reflexão sobre como pesquisas sobre os chamados cines pornôs podem criar fissuras nos processos historiográficos que tradicionalmente excluem determinados corpos e perspectivas.

Bibliografia

    FREIRE, Rafael de Luna. Colegas nortemaericanos y europeos: ¿Que no hay de nuevo en la New cinema history desde un punto de vista que no es el de ustedes? In: KRIGER, Clara; POPPE, Nicolás (Orgs.). Salas, negocios y públicos de cine en Latinoamérica (1896-1960). Buenos Aires: Prometeo Editorial, p. 19-39, 2023.

    MAIA, Helder Thiago Cordeiro. Cine(mão): espaços e subjetividades darkroom. Salvador: Devires, 2018.

    PRECIADO, Paul B. Museu, lixo urbano e pornografia. Revista Periódicus, [S. l.], v. 1, n. 8, p. 20–31, 2018. Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/revistaperiodicus/article/view/23686. Acesso em: 10 mai. 2025.

    VALE, Alexandre Fleming Câmara. Cenas de um Público Implícito: territorialidade marginal, pornografia e prostituição travesti no Cine Jangada. 1997. 147f. – Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Ceará, Programa de Pós-graduação em Sociologia, Fortaleza (CE), 1997.