Ficha do Proponente
Proponente
- Laécio Ricardo de Aquino Rodrigues (UFPE)
Minicurrículo
- Professor associado do Departamento de Comunicação Social da UFPE, vinculado ao Bacharelado em Cinema e Audiovisual, e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da mesma instituição (PPGCOM – UFPE).
Ficha do Trabalho
Título
- “All I had was nothingness” (2025) e o devir-arquivo do “espólio” Shoah
Resumo
- Em 2025, o documentário Shoah, dirigido por Claude Lanzmann, completou 40 anos de lançamento. Nossa proposta dá continuidade aos debates inspirados pela efeméride, revisitando o seu “espólio”. Em particular, a produção All I had was nothingness (2025), de Guillaume Ribot, constituída por outtakes de Shoah e anotações de Lanzmann. Como numa reviravolta irônica, o trabalho de Ribot nos ajudará a melhor entender uma obra que se notabilizou pela recusa enfática dos arquivos em sua execução.
Resumo expandido
- Dirigido por Claude Lanzmann, Shoah (França, 1985) foi motivado por um árduo desafio. Como apontam Sucasas (2018) e Biosca (2001), o empreendimento de Lanzmann buscava colher evidências e relatos suficientes que silenciassem as dúvidas sobre o genocídio promovido pelos nazistas (os negacionismos que questionavam a realidade da “solução final” para a questão judaica). Para tanto, Lanzmann investira numa prática documentária austera, amparada num emprego radical da entrevista (com ênfase no testemunho), e na recusa em definitivo dos arquivos audiovisuais e do excesso de contextualizações.
Ao adotar tais procedimentos, Lanzmann parece partilhar a crítica de Godard, para quem muitas das obras realizadas sobre o genocídio judeu se aproximariam de uma espécie de “pornô concentracionário”. O termo tem sentido difuso: se refere às tentativas fílmicas de romantizar e/ou simplificar o lager; e também à circulação abusiva das imagens dos campos de concentração produzidas pelos aliados – tomadas de cadáveres e corpos esquálidos que corriam o risco de serem naturalizadas pelo espectador. Como nos lembra Sontag (2004), a existência de registros que documentam o sofrimento não é um problema em si; o problema decorre quando passamos a nos lembrar unicamente dos registros e negligenciamos a complexidade dos eventos.
Para Lanzmann (2011), os arquivos não apenas simplificavam, como também petrificavam a nossa capacidade de entendimento do que ocorrera nos campos. Mas se tais preceitos se encaixam bem à engenharia criativa de Shoah, nas décadas posteriores ao filme, Lanzmann passa a absolutizar essas premissas, se convertendo num adversário radical do emprego de arquivos enquanto evidência audiovisual (Deguy, 2010). Uma recapitulação dessa ortodoxia se encontra no livro Imagens apesar de tudo, obra na qual Didi-Huberman (2012) defende a vitalidade do arquivo para estimular a nossa imaginação histórica e, assim, promover novas legibilidades do passado.
Fruto de doze anos de atividades e de centenas de horas de gravação, Shoah deixou um espólio inesgotável. O próprio Lanzmann, nas décadas seguintes, voltaria a este acervo para dali extrair novos documentários – O último dos injustos (2013) e As quatro irmãs (2017), por exemplo. Dada a conexão entre os títulos, não seria exagero dizer que ambos integram uma única e imensa obra. Porém, desde a sua morte, em 2018, este espólio se encontra disponível a novos realizadores.
Desse modo, foi a partir dos “outtakes” de Shoah e das anotações do seu diretor que Guillaume Ribot finalizou All I had was nothingness (2025). Ou seja, um documentário realizado unicamente com arquivos. Em certa medida, a obra de Ribot tem algo de enaltecedora (denota um evidente respeito pelo legado de Lanzmann), mas está longe de ser um “making of tardio”. Antes, ela nos ajuda a compreender as estratégias mobilizadas em Shoah; e, de modo inédito, nos concede a oportunidade para acessarmos as inseguranças de Lanzmann ao abraçar um projeto “bigger than life”.
Tais hesitações e dificuldades – de financiamento, para se aproximar dos algozes, para encontrar um eixo narrativo – estão ausentes do corte final de Shoah, mas nos chegam com uma honestidade surpreendente em All I had was nothingness (2025), revelando uma vulnerabilidade pouco compatível com a firmeza pública de Lanzmann. Assim, digamos que entre as duas obras se estabelece uma complementaridade notável.
Neste sentido, nossa proposta para o seminário dá continuidade aos debates inspirados na efeméride em torno de Shoah. Porém, privilegiaremos o seu espólio e, de modo mais preciso, o documentário All I had was nothingness (2025). Documentário que, numa reviravolta irônica, atesta igualmente que Shoah e o próprio Lanzmann, não obstante sua ortodoxia, não puderam escapar de uma espécie de devir-arquivo.
Bibliografia
- BIOSCA, Vicente Sánchez. Imágenes marcadas a fuego – Representación y memoria de la Shoah. In: Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 21, nº 42, p. 283-302. 2001. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbh/a/9YH69DqGd5fwFjT9BkBzLdB/?lang=es [23 de abr 2026]
CAZENAVE, Jennifer. An archive of the catastrophe. The unused footage of Claude Lanzmann’s Shoah. Nova York: Suny Press, 2019
DEGUY, Michel. (org.). Au Sujet de Shoah. Paris: Éditions Belin, 2010.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Imagens apesar de tudo (trad.: Vanessa Brito e João Pedro Cachopo). Lisboa: KKYM, 2012.
LANZMANN, Claude. A lebre da Patagônia. São Paulo: Cia das Letras, 2011.
SONTAG, Susan. Sobre a fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
SUCASAS, Alberto. Shoah. El campo fuera de campo: cine y pensamiento en Claude Lanzmann. Valencia: Shangrila, 2018.
TODOROV, Tzvetan. Diante do extremo. São Paulo: Editora Unesp, 2017.
WIEVIORKA, Annette. The era of the witness. Ithaca: Cornell University Press, 2006.