Ficha do Proponente
Proponente
- Mariana Stolf Friggi (Unicamp)
Minicurrículo
- Doutoranda e mestra no Programa de Pós Graduação em Multimeios da Unicamp. Faz parte do o Grupo de Pesquisa CineRE Sem Fronteiras, coordenado por Ana Carolina de Moura Delfim Maciel, e do Laboratório Antropológico de Grafia e Imagens (LAGRIMA) na Unicamp, coordenado por Fabiana Bruno e Suely Kofes. Graduada no Bacharelado em Cinema e Audiovisual, pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Pesquisa documentário experimental e filme ensaio, com ênfase em produções femininas.
Ficha do Trabalho
Título
- Filme-ensaio, memória e testemunho: subjetividades migrantes
Eixo Temático
- ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL
Resumo
- A presente comunicação propõe investigar e produzir uma reflexão crítica sobre as intersecções entre o filme-ensaio, a memória e o testemunho de mulheres migrantes no Brasil. Tomando como ponto de partida Thakhi (2020), de Natali Mamani, busca-se compreender como a linguagem experimental e subjetiva do filme-ensaio opera como ferramenta de agência e representação para essas mulheres, trabalhando com a ideia de identidades fragmentadas no contexto de deslocamentos.
Resumo expandido
- A presente apresentação propõe debater confluências entre o filme-ensaio, a memória e o testemunho de mulheres migrantes no Brasil. O estudo busca um aprofundamento em filmes e demais obras audiovisuais que adotam a forma ensaística para relatar e fabular narrativas de mulheres que enfrentam deslocamentos forçados, sejam decorrentes de conflitos sociais, políticos, econômicos ou ambientais, no contexto brasileiro.
Este tema será trabalhado na minha pesquisa de doutorado, dando continuidade aos resultados do meu mestrado, em que trabalhei o filme-ensaio e o cinema de mulheres indígenas, a partir da análise fílmica das vídeo-cartas intituladas Nhemongueta Kunhã Mbaraete, de Graciela Guarani, Michele Kaiowá, Patrícia Ferreira e Sophia Pinheiro. O estudo do doutorado, portanto, desdobra-se na análise de como a forma ensaística, com sua natureza reflexiva e experimental, oferece um espaço singular para o desenvolvimento de narrativas constitutivas de memórias e testemunhos de mulheres migrantes no Brasil, através de elementos imagéticos e sonoros. O cinema, enquanto um dispositivo de construção de memória, pode ser também um meio fecundo para alocar e transformar as experiências dessas mulheres em testemunhos históricos.
O filme-ensaio se torna central neste projeto ao servir como reflexão sobre as experiências das mulheres migrantes, permitindo uma análise subjetiva e multifacetada. Isso é crucial para entendermos melhor sobre a identidade dessas mulheres, pois da mesma forma que o ensaio rejeita a noção de uma identidade fixa e de um “eu” unívoco, o testemunho dessas mulheres nos mostra que suas identidades são constituídas de experiências e deslocamentos constantes, e se aproximam da noção de subjetivação/subjetividade atrelada ao sujeito como um efeito provisório. Nesta comunicação, o filme Thakhi (2020) , de Natali Mamani, serve como ponto de partida para tais reflexões. Nele, a realizadora constrói uma espécie de road movie e registra sua viagem de São Paulo, Brasil, à La Paz, Bolívia, para conhecer seus familiares e o lugar a que pertence sua história. A partir dele pretendemos traçar e compreender fatores basilares para a pesquisa como: quais são as formas de inscrição subjetiva da ensaísta e como o deslocamento geográfico e subjetivo é tratado na mise en scène?
A construção desse tipo de narrativa pode produzir o que o historiador Márcio Seligmann chama de testemunhos históricos. Em seu livro A virada testemunhal e decolonial do saber histórico, o autor debate a importância do testemunho e o enquadra enquanto uma modalidade da memória. Para ele, no contexto pós-colonial em que vivemos, “o corpo e sua localização passam a ser reconhecidos como parte da construção de outras narrativas e epistemologias” (SELIGMANN-SILVA, 2022 p. 19).
A utilização do pensamento de Márcio Seligmann-Silva é fundamental para o presente debate, ao abrir portas para pensarmos o cinema e as artes para a criação de testemunhos e fabulações da realidade. Em complementação às suas contribuições, a autora Leda Maria Martins tem muito a acrescentar em relação aos estudos sobre a memória. Para ela, não é só a escrita que se concebe como lugar de memória, mas sobretudo, como na filosofia africana e indígena, a performance oral. “A palavra oraliturizada se inscreve no corpo e em suas escansões. E produz conhecimento” (MARTINS, 2022, p.32). O corpo torna-se a morada do tempo, das histórias, dos pensamentos, das danças, dos ritos e, portanto, da memória. O cinema, nesse sentido, tem muito a contribuir para a preservação dessas inscrições da oralitura.
Bibliografia
- CORRIGAN, Timothy. O filme-ensaio. Desde Montaigne e depois de Marker. Tradução: Luis Carlos Borges. Campinas: Papirus, 2015.
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar – poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2022.
SELIGMANN-SILVA, Márcio. Virada testemunhal e decolonial do saber histórico. Editora da Unicamp, 2022.
TEIXEIRA, Francisco Elinaldo (Org.) Arqueologia do ensaio no cinema-audiovisual brasileiro: formações e transformações 1a ed. São Paulo: Hucitec, 2022. 1a edição 2015.