Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ian Costa Cavalcanti (UFCG)

Minicurrículo

    Ian Costa é professor adjunto da Universidade Federal de Campina Grande, atua nas áreas de poéticas sonoras e do audiovisual. Doutor em Comunicação pela UFPE (2024), mestre em Comunicação pela UFPB (2015) e graduado em Arte e Mídia pela UFCG (2011). Pesquisa desenho de som no audiovisual com foco em representações do realismo e hiper-realismo sônico, dinâmicas de produção audiovisual e cinemas periféricos.

Ficha do Trabalho

Título

    Vento áspero, rocha líquida: materialidade sonora e hiper-realismo em Pulmão de Pedra

Seminário

    Histórias e tecnologias do som no audiovisual

Resumo

    No contexto das transformações do audiovisual contemporâneo, o som assume papel ativo na construção do real. Em Pulmão de Pedra (2023), a manipulação digital articula materialidades orgânicas e minerais, produzindo uma escuta instável. A partir de entrevistas e documentos de produção, este estudo analisa, nos planos morfológico e sintático, como processos técnicos de captação, processamento e mixagem de som constroem a dimensão metafórica do discurso fílmico através do hiper-realismo sonoro.

Resumo expandido

    As transformações tecnológicas do audiovisual contemporâneo têm deslocado o estatuto da materialidade sonora, permitindo que o som opere menos como registro do real e mais como instância de sua fabricação. Nesse cenário, Pulmão de Pedra (Torquato Joel, 2023) radicaliza esse deslocamento ao construir uma poética sonora em que a escuta é conduzida por uma lógica de intensificação e instabilidade, colocando em crise a ideia de fidelidade como parâmetro de realismo.
    A dimensão sonora do filme estrutura-se a partir de um campo metafórico que articula formas orgânicas e inorgânicas, produzindo uma ambiguidade constitutiva: respirações que se confundem com fluxos de ar em cavidades minerais, atritos de pedra que assumem ritmicidade fisiológica, reverberações que oscilam entre interioridade corporal e espacialidade geológica. Longe de operar como simples reforço da imagem, essas texturas sonoras — elaboradas por meio de sobreposição, processamento e manipulação digital — instauram uma materialidade ativa, responsável por construir o próprio sentido do filme. O “pulmão-pedra” não é apenas uma metáfora visual ou narrativa, mas uma entidade acústica que emerge da síntese entre matéria captada e matéria transformada.
    Essa operação desloca o parâmetro do real, aproximando-se do realismo perceptivo formulado por Prince (1996), no qual a credibilidade decorre da coerência sensorial e não da correspondência empírica. Ao mesmo tempo, a indeterminação entre referencialidade e construção encontra paralelo nas formulações de Buhler (2019) em que o limiar entre realidade e fantasia se mantém estruturalmente ambíguo. Em Pulmão de Pedra, tal ambiguidade não é efeito colateral, mas princípio organizador: as sonoridades, ainda que plausíveis no plano diegético, operam como artefatos que desestabilizam a escuta e instauram uma condição de insegurança perceptual (ELSAESSER, 2009; CARREIRO; CÁNEPA, 2023).
    A análise articula os planos morfológico e sintático para evidenciar esse regime de construção. No primeiro, destacam-se camadas sonoras densas e heterogêneas, constituídas por ambiências, efeitos e materiais de diferentes origens, submetidos a processos de equalização, reverberação e delay que expandem sua presença espectral. No segundo, observa-se a organização dessas camadas ao longo do tempo, frequentemente operando por suplementaridade em relação à imagem, rompendo com a expectativa de correspondência direta e reforçando a dimensão construída do som.
    A análise faz uso de entrevistas e documentos fornecidos pelo designer de som Bruno Alves e o diretor Torquato Joel, incluindo sessões de edição em DAW, anotações e registros de comunicação entre direção e equipe que evidenciam o caráter hiper-realista deliberado dessas operações, assim como a recusa ao uso convencional da música como vetor emocional, privilegiando a construção de atmosferas a partir de elementos não musicais. Por sua vez o trabalho do designer de som se revela central na mediação entre concepção estética e realização técnica, operando com relativa autonomia na elaboração de sonoridades renderizadas (COSTA, 2024).
    Ao evidenciar o percurso que vai da captação à síntese, o filme revela um regime de construção em que o som não reproduz o real, mas o reconfigura como experiência sensorial intensificada. O hiper-realismo, nesse contexto, não se define pela fidelidade, mas pela capacidade de produzir um real que se afirma na e pela percepção.

Bibliografia

    ALVES, Bruno. Entrevista concedida a Ian Costa em 13 jun. 2024.
    BUHLER, James. Theories of the soundtrack. Nova Iorque: Oxford University Press, 2019.
    CARREIRO, Rodrigo; CÁNEPA, Laura. Insegurança perceptual e multissensorialidade no horror nórdico contemporâneo. Rebeca, v. 12, p. 1-22, 2023.
    CARREIRO, Rodrigo; OPOLSKI, Débora; MEIRELLES, Rodrigo. A imersão sonora no cinema. São José dos Pinhais: Estronho, 2023.
    COSTA, Ian. O hiper-realismo sonoro no audiovisual paraibano contemporâneo. 2024. 456 f. Tese (Doutorado em Comunicação) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2024.
    ELSAESSER, Thomas. World cinema: realism, evidence, presence. In: NAGIB, Lúcia; MELLO, Cecília (org.). Realism and the audiovisual media. Londres: Palgrave Macmillan, 2009. p. 3-19.
    JOEL, Torquato. Entrevista concedida a Ian Costa em 17 jun. 2024.
    PRINCE, Stephen. True lies: perceptual realism, digital images, and film theory. Film Quarterly, Oakland, v. 49, n. 3, p. 393-407, 1996.