Ficha do Proponente
Proponente
- Samuel Macêdo do Nascimento (UFBA)
Minicurrículo
- Pesquisador em Audiovisual, Imagem e Arte Contemporânea. Doutor em Comunicação, Linha 01 – Fotografia e Audiovisual, pelo PPGCOM da Universidade Federal do Ceará (UFC). Integra o Laboratório de Estudos e Experimentações em Artes e Audiovisual (LEEA/UFC). Atualmente, é professor substituto no Bacharelado Interdisciplinar em Artes do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos (IHAC) da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Ficha do Trabalho
Título
- Fantasmagorias do Poder e Colonialidade em O Agente Secreto e Pecadores
Resumo
- Este trabalho analisa paralelos entre O Agente Secreto (2025, Kleber Mendonça Filho) e Pecadores (2025, Ryan Coogler). Em ambos, a duplicidade dos protagonistas simboliza tensões históricas e sociais: ditadura no Brasil e embates raciais nos EUA, projetando futuros em disputa através das imagens (DIDI-HUBERMAN, 2015).
Resumo expandido
- A fantasmagoria de O Agente Secreto é a sombra das oligarquias e dos grupos dominantes que impedem o Brasil de se tornar algo além do destino compulsório imposto pelas elites do atraso. Já em Pecadores, vemos o declínio de uma certa branquitude que não suporta dividir território e dignidade com outras raças. O vampiro, nesse contexto, funciona como uma fabulação fantasmagórica de um poder em crise, como um thriller que revela o medo de perder privilégios e hegemonia.
Os paralelos estéticos e narrativos se revelam sobretudo na duplicidade dos protagonistas. Em O Agente Secreto, temos um personagem que é professor universitário e pai, articulando ao seu modo um contrapoder dentro do contexto da cidade do Recife, do Estado brasileiro e da própria universidade. Ele transita entre espaços distintos: dentro e fora da sala de cinema, entre a vida conjugal e a viuvez, sempre tensionando identidades e papéis sociais.
Em Pecadores, a narrativa apresenta dois irmãos gêmeos acompanhados de um primo, formando uma tríade marcada pela duplicidade cromática: um veste vermelho, o outro azul, enquanto o terceiro ocupa uma posição intermediária entre essas cores. Essa escolha estética não é apenas visual, mas também simbólica, pois reforça a atmosfera dual em que cores e personalidades se entrelaçam. O espaço onde essa tríade se movimenta, um galpão, torna-se cenário de resistência, atravessado pelo blues em diálogo com o samba e outros ritmos afro-brasileiros. Essa fusão sonora, impregnada pelas influências da cultura afrodiaspórica, reforça a atmosfera dual em que cores, corpos e personalidades se entrelaçam.
Em ambos os filmes, há jogos de poder que se manifestam também na linguagem da câmera. Em O Agente Secreto, ela persegue os personagens como se fosse uma câmera espiã. Em Pecadores, ela dança e incide sobre os corpos, criando uma coreografia visual que traduz disputas de poder. Essas tensões remetem a grupos que desafiam a moralidade de seu tempo: os subversivos da ditadura, de um lado, e os subversivos que se reúnem para dançar “o som do diabo”, de outro.
Essa mesma lógica de espelhamento e resistência aparece em outras formas de expressão artística. A exposição Ancestral Afro-Américas, realizada em 2025 no MUNCAB (Museu Nacional de Cultura Afro-Brasileira), trouxe à tona relações entre a colonialidade nos Estados Unidos e no Brasil, reunindo mais de 70 artistas e mais de 100 obras. Muitas delas utilizavam materiais ligados à experiência colonial, como o algodão e a madeira, além de metáforas como o sonho, evocando a busca por uma liberdade ainda porvir. Assim, o cinema e as artes visuais se entrelaçam como espaços de memória e fabulação, reforçando conexões transnacionais em torno dos embates raciais, sociais e políticos que atravessam as Américas.
Em minha tese e em outros escritos, tenho discutido as masculinidades desviadas no cinema nordestino contemporâneo, articuladas em figuras de duplicidade como o senhor e o coronel, o vaqueiro e o sertanejo, o homem do sertão e o indivíduo do litoral (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2013). Essa lógica se projeta no protagonista de O Agente Secreto, cuja dupla identidade é atravessada por um regime ditatorial que redefine Estado e práticas sociais, e em Pecadores, ambientado nos Estados Unidos das primeiras décadas do século XX, onde os embates raciais se constroem pela estética do duplo. Em ambos os filmes, o espelhamento dos protagonistas revela tensões históricas e políticas, e suas indicações ao Oscar de Melhor Ator simbolizam esse reconhecimento.
Essas obras não apenas tematizam o poder e a resistência, mas também interrogam a materialidade das imagens e seus circuitos de circulação, mostrando como o duplo se reinscreve na produção e na memória coletiva. Nesse sentido, como observa Didi-Huberman (2015), há uma reformulação dos problemas e, portanto, dos próprios termos que constituem a expressão “história da arte”, entendida como campo de disputa e como possibilidade de garantir futuros.
Bibliografia
- ALBUQUERQUE JÚNIOR, Durval Muniz de. Nordestino: uma invenção do falo – uma história do gênero masculino (nordeste – 1920/1940). – 2.ed – São Paulo: Intermeios, 2013.
BRENEZ, Nicole. Por uma história do cinema insubordinado (ou rebelde). Revista Eco-Pós, 19 (2), p. 9-13, 2016.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante do tempo: história da arte e anacronismo das imagens. Tradução: Vera Casa Nova, Márcia Arbex. – Belo Horizonte: Editora UFMG, 2015.
LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. Tradução maria Lucia machado. — São paulo: Companhia das Letras, 2009.
OYEWÙMÍ, Oyèronké. A invenção das mulheres: construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero. Tradução: Wanderson Flor do Nascimento. – 1.ed. – Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.
MBEMBE, Achile. Crítica da Razão Negra. Tradução: Marta Lança. Portugal: Antígona, 2014.