Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Mariana Baltar (UFF)

Minicurrículo

    Doutora em Comunicação (UFF), é professora da graduação em Cinema e do PPGCine/UFF. Coordena o Nex (Núcleo de Estudos do Excesso) e pesquisa afeto, corpo e excesso no audiovisual. Autora de “Realidade Lacrimosa” (2019) e organizadora de “Panorama of Brazilian Porn” (2018), entre outros artigos sobre excesso e melodrama. Foi presidente da Socine (2023-2025) e contemplada como “Cientista do Nosso Estado” (Faperj 2021). Atuou como consultora e palestrante em projetos como FalaTuLab (2024 e 2025).

Ficha do Trabalho

Título

    Ausência em termos – a não presença gritante do melodrama na crítica midiática

Mesa

    Melodramas Cinematográficos no Brasil

Resumo

    Esta comunicação apresenta primeiros resultados de pesquisa sobre o termo melodrama na crítica brasileira. Na primeira metade do século XX, o termo era usado amplamente como indicador de demérito, mas praticamente nunca se refere a obras fílmicas brasileiras. A hipótese é que tal ausência corrobora discursos de distinção do cinema ao desconsiderar as bases melodramáticas dos filmes. Melodramas invisíveis para a crítica da época, ainda que saltitantes aos olhos da teoria nas décadas posteriores.

Resumo expandido

    Esta comunicação apresenta os primeiros resultados de pesquisa sobre os usos do termo melodrama, e seus correlatos, em parte da crítica cinematográfica brasileira. Empreendendo uma metodologia combinada de pesquisa, com busca ativa nas páginas das edições disponíveis na Hemeroteca Digital, além de análise especulativa a partir do levantamento bibliográfico sobre o melodrama no Brasil; percebeu-se que embora os termos melodrama e melodramático sejam largamente utilizados pela crítica; eles praticamente não se referem a obras cinematográficas brasileiras.
    Através dos dados levantados por um mapeamento dos termos, podemos confirmar que o melodrama é usado pela crítica brasileira da primeira metade do século XX como indicador de demérito estético e cultural. Olhar para a crítica cinematográfica e midiática é significativo pois, conforme argumenta Ismail Xavier (2019), Eliska Altmann (2016) entre outras, as percepções da crítica são centrais para a formação do pensamento sobre cinema no Brasil. Em relação a uma história do melodrama brasileiro, conforme reflete Xavier (2017), tal percepção que reafirmou e demarcou visões pejorativas sobre o melodrama reinaram no século XX. Certamente, essa foi a tônica nas páginas de Cinearte e Scena Muda, na primeira metade do século XX, onde os termos melodrama e seus correlatos eram largamente usados. Um resultado parcial do mapeamento que embasa esta comunicação, que foi inicialmente apresentado durante a V Jornada de Estudos em História do Cinema Brasileiro, em 2023, mostrou como o termo melodrama era basicamente usado para nomear obras estrangeiras.
    Nesta comunicação, iremos apresentar o mapeamento do uso dos termos melodrama e melodramático, nas páginas de Cinearte e Scena Muda em relação a obras nacionais que a historiografia do cinema brasileiro, em décadas seguintes, reconheceu como melodramas. Obras como Argila (Humberto Mauro, 1942), A Presença de Anita (Ruggero Jacobbi, 1951), O Ébrio (Gilda de Abreu, 1946), Romance Proibido (Adhemar Gonzaga, 1944) e Também Somos Irmãos (José Carlos Burle, 1949) fazem parte de um cinema melodramático brasileiro segundo autores como Mariana Baltar (2019), Cid Carvalho (2007), Silvia Oroz (1992), entre outros; contudo, é notável como nenhuma dessas obras é tratada em Cinearte e Scena Muda como melodramas, de acordo com a busca ativa realizada pelo mapeamento da pesquisa nos arquivos.
    A ausência, diria gritante, do léxico do melodrama para nomear e definir os projetos estéticos e políticos dessas obras indica que o termo seguia associado a uma perspectiva derrogatória, ainda que ele fosse amplamente conhecido e empregado no ambiente cultural nacional desde a segunda metade do século XIX, conforme demonstra Paula Ludwig (2015) em sua tese de doutorado sobre a presença do vocábulo “melodrama” no teatro no Brasil do século XIX.
    A análise dos dados do mapeamento, em associação com o levantamento bibliográfico e a reflexão especulativa sobre o campo, nos sugere que a relação que a crítica cinematográfica brasileira impressa mantém com o melodrama corrobora a dissonância entre as elaborações do pensamento crítico nacional (em seu alinhamento ao pensamento cultural francês) que produziu discursos de distinção do cinema como arte e as práticas estéticas operadas efetivamente pelas obras cinematográficas nacionais, muitas delas de base melodramática. Melodramas invisíveis nos termos da crítica da época, ainda que saltitantes aos olhos da teoria e historiografia das décadas posteriores.
    A comunicação a ser apresentada é uma reflexão dos dados colhidos através das pesquisas desenvolvidas no grupo de pesquisas NEX, especialmente através do projeto “Melodramas à brasileira”, com apoio da FAPERJ, que contou com participações valiosas e imprescindíveis de bolsistas de IC (Victoria Pereira da Silva e Souza, Lia Tierry Alvares e Flora Gaiad) entre 2022 e 2025).

Bibliografia

    ALTMANN, E. A crítica segundo a crítica latino-americana Contemporânea-Revista de Sociologia da UFSCar 6.2, p.431-431. 2016
    BALTAR, M. Realidade Lacrimosa. Niterói: EDUFF, 2019.
    BOURDIEU, P. A Distinção. Crítica social do julgamento. SP, EdUSP, 2008
    CARVALHO, C. Melodrama e nação no Cinema Brasileiro dos anos 1940. Tese. Programa de Pós-Graduação em Sociologia. UFC. Ceará, 2007.
    HUPPES, I. Melodrama. O gênero e sua permanência. SP, Ateliê Editorial, 2000.
    LUDWIG, P. O Melodrama francês no Brasil. Tese de doutorado. PPG em Letras, Universidade Federal de Santa Maria, RS, 2015.
    OROZ, S. Melodrama – o cinema de lágrimas da América Latina. RJ: Rio Fundo Editora, 1992.
    TERAO, D. Melodrama e lutas por reconhecimento no cinema brasileiro da década de 2010. Tese de Doutorado. Unicamp, 2025.
    XAVIER, I. Sétima arte: um culto moderno. O idealismo estético e o cinema. Edições Sesc, 2017
    ______. O papel estratégico da crítica na formação do pensamento cinematográfico. RuMoRes, [S. l.], v. 13, 2019