Ficha do Proponente
Proponente
- Cíntia Langie Araujo (UFPel)
Minicurrículo
- Cineasta e professora dos cursos de Cinema da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), onde ministra as disciplinas de Roteiro e Distribuição. Coordena o projeto Circuito, voltado à realização de oficinas de escrita com a comunidade. É mestre em Comunicação Social e doutora em Educação, com tese premiada pela CAPES. Autora do livro “Cinema brasileiro e distribuição educativa”, desenvolve pesquisas com ênfase no cinema brasileiro, na circulação de obras e na escrita de roteiros audiovisuais.
Ficha do Trabalho
Título
- Experiência, recipiente e fabulação: outro modo de escrever ficção para cinema
Mesa
- Roteiro audiovisual contemporâneo: fabulação, escrita sensível e saberes em disputa
Resumo
- O estudo investiga a criação de roteiros a partir de experiências pessoais, analisando a escrita singular de Luciano Vidigal e Paulo Vieira. Articula a Teoria da Cesta (Le Guin) e a noção de fabulação (Deleuze) para pensar a escrita como recipiente de memórias, propondo práticas pedagógicas que valorizem o repertório pessoal em vez de modelos canônicos.
Resumo expandido
- Este estudo investiga a mobilização de experiências pessoais na construção de roteiros de ficção, tendo como eixo os processos criativos dos cineastas brasileiros Luciano Vidigal (Kasa Branca, 2025) e Paulo Vieira (Pablo e Luisão, 2025). Diferentemente de abordagens centradas em fórmulas de manuais ou na invenção de situações a serviço de um enredo, a pesquisa enfatiza um movimento de criação que parte da própria vivência: memórias e afetos pessoais que, ao serem reelaborados, transformam-se em cenas e narrativas singulares.
Essa perspectiva encontra ressonância na chamada Teoria da Cesta, formulada por Ursula K. Le Guin. Ao propor a narrativa como um recipiente — uma cesta — que segue a lógica do cuidado, e não da ação, Le Guin desloca o foco das narrativas heroicas para uma lógica de partilha de experiências. Nesse estudo, a “cesta” pode ser compreendida como aquilo que comporta afetos e eventos singulares que, juntos, contam uma outra história além da jornada clássica: mais feminina, mais sensível.
Também serve de base ao estudo o texto de Gilles Deleuze (2005), “As potências do falso”, através da noção de fabulação. Como ensina Deleuze, a fabulação é o ato de escrever de um outro modo em uma língua dominante, pelas beiradas, na invenção de estratégias próprias. Fabular é destruir modelos de verdade para se tornar um criador, e tal desafio pressupõe um enunciado coletivo, já que a fabulação se opõe aos mitos do colonizador.
Nesse contexto contemporâneo, em que culturas locais se veem cada vez mais ameaçadas por lideranças reacionárias e autoritárias, tem-se enfatizado a necessidade de salvaguardar uma soberania imaginativa no audiovisual brasileiro. Para isso, torna-se fundamental valorizar e investigar as tecnologias brasileiras de produção e constituição de imagens, especialmente em um cenário marcado pela disputa de narrativas (hooks, 2019). Tais tecnologias singulares frequentemente se constituem em tensão com fronteiras e na evocação de outros repertórios. A aproximação com saberes ancestrais também se faz presente, especialmente na referência aos griôs africanos, destacados por Paulo Vieira como fonte de inspiração. Nessa tradição, a narrativa não se separa da vida, sendo transmitida a partir da experiência e da memória coletiva. Essa concepção reforça a ideia de que contar histórias é um gesto enraizado no vivido, e não na reprodução de modelos formais hegemônicos.
A metodologia da pesquisa prevê a realização de entrevistas com os cineastas, buscando compreender como se dá, em seus processos, a transformação de experiências pessoais em material ficcional. A hipótese é que a escrita se constitui como uma prática de montagem de “retalhos” da experiência, em que diferentes lembranças são reunidas, tensionadas e reorganizadas até formarem uma história, tal qual um recipiente fabulativo.
Por fim, o estudo aponta desdobramentos pedagógicos, especialmente no campo do ensino de roteiro. Ao invés de priorizar estruturas clássicas — como a narrativa em três atos ou modelos canônicos —, propõe-se uma abordagem centrada na ativação do repertório pessoal dos participantes. Trata-se de criar condições para que cada sujeito reconheça a potência narrativa de suas próprias experiências, evitando a reprodução de fórmulas e incentivando a construção de histórias singulares.
Bibliografia
- DELEUZE, Gilles. Cinema 2 – A imagem-tempo. Tradução de Eloisa de Araujo Ribeiro. São Paulo: Brasiliense, 2005.
ESTÉS, Clarissa Pinkola. O dom da história: uma fábula sobre o que é suficiente. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
hooks, bell. Olhares negros: raça e representação. São Paulo: Elefante, 2019.
LE GUIN, Ursula. A ficção como cesta. Dancing at the Edge of the World – Thoughts on Words, Women, Places. Ed. Grove Press, 1989.