Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Fernanda Bastos Braga Marques (UFRJ)

Minicurrículo

    Fernanda Bastos é mestre (2016) e doutora (2021) em Comunicação e Cultura pela UFRJ. Atua como editora audiovisual desde 1999, tendo editado videoarte, programas de TV, filmes e videoclipes, em produtoras como Conspiração Filmes, TvZero, Giros, Filmes do Serro, Producing Partners e Hungry Man.
    Pesquisadora independente, integra a coordenação do ST Edição e Montagem Audiovisual: reflexões, articulações e experiências entre telas e além das telas, da Socine.

Ficha do Trabalho

Título

    E todos os dias eu sonho com o mar – um vídeo surrealista de Katia Maciel

Seminário

    Edição e Montagem audiovisual: reflexões, articulações e experiências entre telas e além das telas

Resumo

    No presente artigo analisamos a obra “E todos os dias eu sonho com o mar”, de Katia Maciel, inscrevendo-a na História da arte de acordo com as temáticas que aborda: mar e sonho. Investigamos a construção fílmica que se dá na etapa da edição/montagem. E problematizamos as questões psicológicas e narrativas que relacionam sonho e arte, a operação da tradução poética e a relação do/da espectador/a com a imagem cinematográfica e com a imagem da videoarte, considerando suas aproximações e diferenças.

Resumo expandido

    O vídeo “E todos os dias eu sonho com o mar” (2024), de Katia Maciel, aborda desde o título duas importantes vertentes da arte: a marinha, que se constituiu em um subgênero da pintura de paisagens no séc. XIX, e o sonho, que foi inspiração método e conteúdo do movimento Surrealista no séc. XX.
    A obra, criada para a exposição “Um quarto de mar”, realizada na Pinakotheque Cultural, no Rio de Janeiro, reúne 26 poemas imagéticos elaborados a partir de sonhos da artista e construídos no processo de edição audiovisual, em que imagens, sons e textos escritos se juntam, ganhando ritmo e duração. Cada poema tem seu início marcado por uma capitular da altura da tela, numa espécie de abecedário, que ao fim do filme forma a frase “E todos os dias eu sonho com o mar”.
    Apenas três das 26 imagens utilizadas foram gravadas para a obra; todas as outras vieram do arquivo de Maciel, de obras anteriores.
    Nesse artigo, pretendemos tratar o caráter surrealista do vídeo, que o inscreve na linhagem de obras desenvolvidas desde a emergência do movimento nos anos 1920, pelo grupo de artistas liderado por André Breton, que buscava criar textos e imagens desviando-se do pensamento lógico e racional. E num grupo de obras da própria artista, que inclui vídeos com “Timeless” (2011-2015), “Meio cheio, meio vazio” (2009), entre outros.
    Segundo Freud, em “A Interpretação dos Sonhos”, durante o sonho, a transformação dos pensamentos latentes, com seu significado oculto e profundo, em conteúdo manifesto, ou seja, naquilo que lembramos ao acordar, não é aleatória, mas sim um verdadeiro processo de tradução, que ele denomina “elaboração onírica”. Essa operação exige um código próprio, comparada por Luiza Leite à tradução de poesia, que vai além da tradução das palavras e demanda uma transcriação. Para a autora, a expressão estética, assim como uma narrativa onírica, nos transmite informação sobre a integração entre níveis mentais diferentes, isto é, sobre a interface entre consciente e inconsciente, bem como sobre a relação desses níveis mentais com o mundo. Além disso, o significado de um sonho não se encontra propriamente em nenhum elemento isolado da narrativa, mas nas relações entre tais elementos.
    Sendo assim, essa obra de Maciel acumula diversas camadas de criação ao transformar sonhos em poemas fílmicos.
    Para analisar seu processo de construção, recorreremos ao conceito de cine-reciclagem, da fotógrafa e cineasta francesa de Agnès Varda, e ao método de cine-colagem, utilizado pelo cineasta brasileiro Júlio Bressane em alguns de seus filmes, descrito por Ismail Xavier.
    Na cine-reciclagem, Varda, reapresenta materiais utilizados, anteriormente, em novas obras e diferentes contextos, de modo ressignificá-los, gerando trabalhos autênticos em forma, sentido e na relação com o/a espectador/a.
    Já a cine-colagem de Bressane, segundo Xavier, inspira-se no “Manifesto Antropofágico”, de Oswald de Andrade, e refere-se diretamente ao processo de montagem/edição, em que o cineasta associa elementos e materiais heterogêneos, sem esconder as emendas, de modo que suas interpolações sustentem o “tonus” da narrativa e criaem relações intertextuais que revelam as ideias e os conceitos.
    Além disso, é necessário problematizar o modo de exibição de E todos os dias eu sonho com o mar, que demanda ambiente de penumbra, tela de grande escala e banco para que o/a espectador/a possa sentar-se, de modo que se envolva na imagem e habite as praias oníricas sonhadas pela artista. Tais recursos levam o/a espectador/a de videoarte, historicamente ativo/a e frequentemente ativador/a da narrativa, de volta às origens do/da espectador/a de cinema descrito/a por Jean-Louis Baudry, cujo corpo relaxado e imóvel na poltrona, instalado na sala escura, comtempla as imagens projetadas a sua frente, como se sonhasse diante da tela de cinema que, de acordo com o autor, assemelha-se à tela do mecanismo do sonho descrito por Sigmund Freud.

Bibliografia

    ARAGON, Louis. Uma vaga de sonhos. São Paulo: 100/cabeças, 2024.

    BAUDRY, Jean-Louis. L’Effet cinema. Paris: Éditions Albatros, 1978.
    FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1999.
    FREUD, Sigmund. O delírio e os sonhos na Gradiva de W. Jensen, in: Obras completas, volume 8: O delírio e os sonhos na Gradiva, Análise da fobia de um garoto de cinco anos e outros textos (1906-1909), São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
    LEITE, Luiza, Se eu pudesse explicar não seria um sonho: alguns apontamentos de Gregory Baterson sobre narrativas oníricas. Tradução em Revista, Rio de Janeiro, v. 39, p. 54-72, 2025.2.
    MACIEL, Katia e REZENDE, Renato. Poesia e videoarte, Rio de Janeiro: Circuito, 2012.
    RODRIGUES, Carolina. A “cine-reciclagem” na obra de Agnès Varda. Anais Digitais – 26o Encontro SOCINE, 2023.
    XAVIER, Ismail. Roteiro de Júlio Bressane: apresentação de uma poética. ALCEU, Rio de Janeiro, v. 6, n. 12, p. 5-26, 2006.