Ficha do Proponente
Proponente
- Carlos Rodrigo Diehl (UFMS)
Minicurrículo
- Possui graduação em Publicidade e Propaganda pela Universidade Católica Dom Bosco (1999) e pós-graduação em Imagem e Som pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (2004) e Mestrado em Estudos de Linguagens pela UFMS (2009). Atualmente é doutorando em Cominicação pela UFMS e produtor executivo da Fundação de Rádio e TV Educativa de Mato Grosso do Sul – TVE/MS – , atuando também como diretor, roteirista e editor. Atua em pesquisa de recepção em cinemas periféricos e de bordas.
Ficha do Trabalho
Título
- DAS BORDAS AO PERIFÉRICO: REPRESENTAÇÕES DOS SEM-TELA EM MATO GROSSO DO SUL
Seminário
- Cinemas, Comunidades, Territórios: interpelações aos gestos analíticos
Resumo
- O texto analisa o cinema periférico em Mato Grosso do Sul sob a ótica do “cinema de bordas”. A produção, realizada fora dos circuitos tradicionais, surge da resistência e da escassez como ferramenta de disputa política e afirmação de identidade. O estudo destaca a autorrepresentação como forma de enfrentar lógicas hegemônicas, revelando um audiovisual potente e múltiplo que utiliza o território para propor novas reflexões sobre pertencimento e vozes historicamente excluídas.
Resumo expandido
- O cinema, enquanto meio de comunicação de massa, detém um papel central na construção de narrativas sobre a realidade e na formação de identidades coletivas. Contudo, a produção hegemônica frequentemente exclui vozes e territórios que não se alinham aos padrões da indústria cultural. Em Mato Grosso do Sul, essa exclusão é acentuada por uma conjuntura de “periferia da periferia”, onde o estado figura entre os que menos possuem Certificados de Produtos Brasileiros (CPBs) emitidos pela Ancine. Diante deste cenário de escassez e invisibilidade, emergem práticas audiovisuais produzidas por sujeitos periféricos que utilizam o cinema não apenas como entretenimento, mas como uma ferramenta de disputa política, existência e resistência cultural.
A análise ancora-se no conceito de “cinema de bordas”, termo cunhado por Bernadette Lyra para designar produções realizadas por autodidatas em subúrbios ou cidades do interior, operando fora dos circuitos industriais e institucionais. Diferente do Cinema Marginal, que possui domínio técnico e se opõe esteticamente ao modelo dominante, o cinema de bordas apropria-se de gêneros populares (como ação, terror e faroeste) para ressignificá-los conforme as necessidades de autorrepresentação do local. Essa dinâmica é compreendida à luz da Teoria das Mediações de Martín-Barbero, que propõe que a recepção de produtos midiáticos não é passiva, mas mediada por hábitos mentais e resíduos culturais que transformam os sentidos das expressões dominantes. O cinema periférico atua, portanto, como um espaço de negociação cultural onde a “experiência da escassez” serve como ponte para a tomada de consciência e a afirmação de identidades historicamente silenciadas.
O objetivo central deste trabalho é investigar como o cinema ficcional periférico em Mato Grosso do Sul articula táticas de produção e escolhas estéticas para se constituir como um espaço de negociação e resistência. Metodologicamente, a pesquisa utiliza a cartografia e a pesquisa-intervenção para acompanhar os processos em andamento, capturando práticas e saberes dos agentes envolvidos. O estudo de caso foca em realizadores como Alexandre Couto, cartazista de cinema cineasta de Campo Grande que realizou 6 “Filmes Sertanejos” e Celso Marques, um pedreiro cineasta de Dourados que realizou 16 filmes utilizando recursos próprios e redes de colaboração comunitária.
A produção periférica sul-mato-grossense revela-se múltipla e híbrida. De um lado, encontram-se os pioneiros “Filmes Sertanejos” (1978-1985), que utilizavam a estética do faroeste americano como instrumento de autoafirmação popular. De outro, a produção contemporânea de Celso Marques demonstra como a digitalização dos meios permitiu que a “quebrada” organizasse sua própria gramática audiovisual.O documentário “Construindo a Quarta Parede” (2024), de Bruno Augusto, exemplifica o tensionamento entre o cinema profissional (do centro) e o de bordas. Ao registrar a trajetória de Celso Marques, o filme expõe o contraste entre um saber dependente de financiamento e especialização técnica e um fazer movido puramente pela vontade de existir e se ver na tela. Essa relação evidencia que o cinema periférico não busca apenas emular o mainstream, mas sim converter a precariedade em linguagem, desafiando hierarquias artísticas e promovendo a autorrepresentação como forma de agência cultural.
O cinema periférico em Mato Grosso do Sul, em suas diversas vertentes — amadora, indígena ou de coletivos organizados —, atua como um potente criador de novas esferas públicas. Ao apropriar-se das ferramentas audiovisuais, sujeitos historicamente excluídos deixam de ser apenas “vistos” por olhares externos e estereotipados para se tornarem narradores de suas próprias histórias. O fenômeno do cinema de bordas demonstra que, mesmo sob a hegemonia da indústria cultural, existem ruídos e fissuras que possibilitam a reinvenção das tradições e a produção de novas subjetividades no território.
Bibliografia
- DIEHL, C. R. Filme sertanejo: o cinema amador sul-mato-grossense. 2009. Dissertação (Mestrado) Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens, Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Campo Grande, 2009. 15 p.
LYRA, B. Jerusa Ferreira e Glória Anzaldúa: Histórias pelas bordas das bordas – um depoimento. In: SANTAELLA, L. Cultura de Bordas: do passado ao presente. São Paulo: EDUC, 2020. 193p. cap 5, p. 75 – 79. GONÇALVES, J. D. (2021). Hiper-realismo, autorrepresentação e meios de produção: um ensaio de conceituação do cinema periférico. Revista Alterjor, 23(1), 144-168.
SANTOS, M. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 6 ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.
Vicente, W. (2021). Disputas culturais e o audiovisual feito na e pela periferia. Lutas Sociais, 25(46), 64–71. https://doi.org/10.23925/ls.v25i46.54241