Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Eduardo Victorio Morettin (USP)

Minicurrículo

    Professor da USP. Autor de Humberto Mauro, Cinema, História (2013) e organizador, dentre outros trabalhos, de Cinema e espaços de perpetração (2025). Um dos líderes do Grupo de Pesquisa CNPq “História e Audiovisual: circularidades e formas de comunicação”. Participante do CNRS Excellence “Fellow-Ambassadeur” programme (2026 – 2028). Bolsista PQ/CNPq, nível 2. Professor visitante na Université Sorbonne Nouvelle Paris 3 (2019) e estágio de pesquisa realizado na New York University (2024-2025).

Ficha do Trabalho

Título

    O que dizem as imagens de uma telerreportagem?

Resumo

    A comunicação tem por objetivo enunciar as formas visuais e sonoras das imagens que pertencem às telerreportagens do Fundo Tupi, depositadas na Cinemateca Brasileira, disponibilizadas no Banco de Conteúdos Culturais da instituição, material digitalizado no âmbito do Projeto Temático FAPESP “Audiovisual, história e preservação”. Trata-se de estabelecer alguns parâmetros de leitura, dada a diversidade e a quantidade desta coleção.

Resumo expandido

    A comunicação tem por objetivo enunciar as formas visuais e sonoras das imagens que pertencem às telerreportagens do Fundo Tupi, depositadas na Cinemateca Brasileira (CB), disponibilizadas no Banco de Conteúdos Culturais (BCC) da instituição, material digitalizado no âmbito do Projeto Temático FAPESP “Audiovisual, história e preservação”. Não temos a pretensão de esgotar as possibilidades de leitura, tendo em vista: 1) a diversidade temporal desta produção, dispersa entre os anos 1950 a 1970; 2) a quantidade disponível para consulta, que hoje totaliza mais de 44 horas de vídeos, com duração que varia de 15 segundos a 3 minutos; 3) a origem dessas imagens, parte advinda de agências de notícias internacionais, parte produzida pela própria equipe de reportagem da TV Tupi; 4) o contexto de veiculação, em virtude da existência de inúmeros telejornais; 5) e, por fim, a dificuldade em estabelecer a exibição ou não do material arquivado.
    O Fundo Tupi permite que recuperamos parte da história da emissora, que, em 18 de setembro de 1950, em São Paulo, realizou a primeira transmissão da TV Tupi, empresa dos Diários e Emissoras Associados. Hegemônica nos anos 1950, a emissora de Assis Chateaubriand enfrentou a partir dos anos 1960 concorrentes como a Excelsior, Record e a Globo, atravessando sucessivas crises e mudanças, que levaram ao encerramento de suas atividades em 14 de julho de 1980. Após a falência da empresa, seu espólio foi utilizado para saldar suas dívidas junto à Previdência Social. Nesse processo iniciado em dezembro de 1985, o acervo cobria os anos entre 1954 e 1979, ou seja, praticamente toda a existência da TV Tupi de São Paulo. Em 18 de março de 1987 é finalmente assinado um acordo de doação do acervo para a Fundação Nacional Pró-Memória, que o transfere à CB. Os primeiros rearranjos do Fundo Tupi na CB proporcionaram uma identificação mais apurada, chegando a aproximados 180 mil rolos de telerreportagens 16mm, realocados em cerca de 8.800 mil estojos, cada qual correspondendo a um dia de exibição de telejornais na grade da emissora. Soma-se a organização de mais de 350 mil folhas de roteiros de telejornais nacionais, hoje digitalizados e disponíveis na plataforma Banco de Conteúdos Culturais (BCC) da CB, e mais de 22 mil folhas de documentação das notícias estrangeiras, material oriundo das agências de notícias internacionais com as quais a TV Tupi mantinha contrato.
    Após 45 anos, a parte telejornalística dessa jornada vive um novo capítulo por meio do Projeto Temático (PT) financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) “História, Audiovisual e Preservação: o lugar dos cinejornais e das telerreportagens brasileiros na construção da memória (1946 – 1974), que tem por objetivo a recuperação de parte das telerreportagens salvaguardadas na Cinemateca Brasileira (CB). O projeto, que se encerrará em fevereiro de 2028, encontra-se em seu terceiro ano de funcionamento, tendo colocado à disposição para consulta da comunidade mais de 2000 registros audiovisuais por intermédio do BCC.
    A oferta do acervo da TV Tupi em um site aberto como o BCC vai na contramão do atual cenário de disponibilização de conteúdos dos acervos televisivos no Brasil. Estes, em sua maioria ligados a empresas privadas, não oferecem ao público acesso ao seu acervo ou, quando o fazem, disponibilizam uma pequena parcela mediante barreiras burocráticas e financeiras. Resumidamente, um acervo privado, visto como commodities, segue os interesses de grupos restritos.
    Nesta comunicação pretendemos, portanto, enfrentar o desafio de refletir sobre a materialidade destas imagens e sons, apresentando as suas principais características. Por outro lado, esta reflexão se insere dentro de um quadro geral vinculado ao uso da televisão, ou melhor, dos diferentes formatos televisivos para a compreensão histórica do passado e construção de uma memória histórica.

Bibliografia

    BOSSAY, Claudia e DEL VALLE, Ignacio. Miradas Descentralizadas: Las Noticias de UCV-TV (1968-1977). Santiago, Cineteca Nacional de Chile, 2023.
    GOMES, Itania. Constrangimentos históricos para constituição de uma política pública de conservação e acesso ao acervo televisivo no Brasil. Revista Eco-Pós, v. 17, n. 1, 2014.
    HAMBURGER, Esther; GOZZI, Giancarlo; MELLO, Cecília. Notes on the state of Brazilian television archives: from scattered initiatives to an uncertain future. Critical Studies in Television: The International Journal of Television Studies, 2024.
    MACHADO, Arlindo. A televisão levada a sério. SP: Senac, 2000.
    MORETTIN, E. “Dossiê Cine e Telejornalismo.” Revista USP, n. 148, jan/fev/mar 2026, p. 9-124.
    NAPOLITANO, Marcos. A Televisão Como Documento. In: Circe Maria Bittencourt. (Org.). O saber histórico na sala de aula. 3 ed.SP: Editora Contexto, 1997, p. 149-162.