Ficha do Proponente
Proponente
- Gustavo Souza (Unip)
Minicurrículo
- Doutor em Ciências da Comunicação pela ECA/USP, mestre em Comunicação e Cultura pela ECO/UFRJ e graduado em Comunicação Social/Jornalismo pela UFPE. Professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Paulista.
Ficha do Trabalho
Título
- Imagens da resistência: ativismo e colaboração no documentário brasileiro recente
Resumo
- A partir dos documentários Auto de resistência (Natasha Neri e Lula Carvalho, 2018) e Cheiro de diesel (Gizele Martins e Natasha Neri, 2026), ambos sobre a violência de Estado no Rio de Janeiro, este trabalho investiga questões relacionadas ao ativismo e à dimensão colaborativa na realização fílmica. Para isso, analisa o uso de imagens amadoras e de depoimentos articulados pela montagem, bem como a posição dos sujeitos que cedem suas histórias e vivências ao processo de realização.
Resumo expandido
- A partir da premissa foucaultiana de que “onde há poder, há resistência”, este trabalho investiga as configurações do documentário político contemporâneo, com foco em questões relacionadas ao ativismo e à dimensão colaborativa na realização fílmica. Os subsídios para essa discussão são fornecidos pelos documentários Auto de resistência (Natasha Neri e Lula Carvalho, 2018) e Cheiro de diesel (Gizele Martins e Natasha Neri, 2026). Auto de resistência aborda os homicídios cometidos pela polícia contra civis no Rio de Janeiro. O filme acompanha a trajetória de personagens que lidam com essas mortes em seus cotidianos, especialmente as mães que tiveram seus filhos assassinados pela polícia, evidenciando o tratamento dispensado pelo Estado a esses casos. Cheiro de diesel trata das violações cometidas pelo Estado contra moradores de favelas do Rio de Janeiro durante a militarização de seus territórios, em função de eventos como a Copa do mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. O filme tem como fio condutor a ativista Gizele Martins, que, além de assinar a direção, expõe seu cotidiano como jornalista que denuncia a violência de Estado.
Esses documentários têm origem em práticas ativistas, que, como se observa em ambos, envolvem frequentemente colaborações com outros coletivos, ONGs, jornalistas profissionais ou cidadãos, bem como com comunidades afetadas que resistem ao poder estatal responsável por tais violências. A forma como o político é registrado e expresso nesses documentários ganha materialidade em uma narrativa que articula a exposição de casos de violência à análise de evidências. Para isso, é crucial voltar a atenção para o uso que esses filmes fazem de imagens amadoras, realizadas por moradores, que confirmam a existência de uma violência de Estado abusiva e gratuita. Ao lado dessas imagens, a dimensão ativista ganha força nos depoimentos do grupo de mães em Auto de resistência e nas falas de Gizele Martins, ao relatar sua experiência profissional e pessoal diante da militarização do Complexo da Maré em 2014 e 2105. A intenção é compreender como, ao contrapor esses materiais fílmicos, a montagem torna visível a dimensão ativista e política de ambos.
Parcerias estratégicas e práticas emergentes de engajamento social são recorrentes no documentário brasileiro. O que esses dois filmes fazem, porém, é deslocar a posição dos sujeitos que cedem suas histórias e vivências para a realização fílmica. De personagens, eles passam também a contribuir para o roteiro e a direção. Isso se evidencia sobretudo em Cheiro de Diesel, no qual a participação de Gizele Martins não se restringe à condição de protagonista, pois, ao articular sua história pessoal à História, ela explora uma zona borrada entre a sua presença em cena como realizadora e sujeito político por meio do próprio ato de filmar. Tal procedimento se aproxima da prerrogativa de Trinh T. Minh-ha (1990), para quem a necessidade de fato é fazer filmes politicamente, e não filmes políticos, ou seja, filmes que a realização é em si política. Nesse sentido, aponta-se para práticas colaborativas na produção documental no país e, dentro do arcabouço teórico do documentário participativo, esses filmes permitem a proposição do termo ativismo de câmera, para compreender a participação individual, mediada pela câmera, como uma forma de intervenção política.
Os modos de engajamento e colaboração incluem tornar visíveis sujeitos que as representações oficiais ocultam ou atenuam; testemunhar eventos e situações igualmente ocultados ou apresentados de forma redutora por essas mesmas representações; e explorar traumas e experiências cotidianos que não são reconhecidos ou que são enquadrados por parâmetros interpretativos restritos pelos meios de comunicação hegemônicos.
Bibliografia
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