Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Matheus Batista Massias (UNICAMP)

Minicurrículo

    Graduado em Letras – Língua Inglesa pela UEPA (2014), mestre em Inglês: Estudos Linguísticos e Literários, com ênfase em cinema, pela UFSC (2016), e doutorando em Multimeios pela UNICAMP. Pesquisa atualmente sobre os dez curtas-metragens (1954-1959) do diretor italiano Vittorio De Seta partir das fronteiras do documentário e do filme-ensaio. Além disso, faz parte do grupo de pesquisa do CNPq Audioensaio e atua como bolsista CAPES.

Ficha do Trabalho

Título

    Um Protoensaio Sobre o Mezzogiorno: Discurso e Excurso em Il mondo perduto de Vittorio De Seta

Resumo

    Os filmes de Vittorio De Seta dos anos 1950 quando vistos e pensados em conjunto a partir da coleção Il mondo perduto podem ser encarados como uma única obra, um protoensaio que reflete sobre o Sul da Itália retrabalhando, como uma sinfonia pastoral e filmes de excursão, alguns dos estereótipos relacionados à sua paisagem pitoresca e seus modos de vida. Este trabalho almeja verificar como um debate público como a Questão Meridional pode ser articulado a partir de um ponto de vista pessoal.

Resumo expandido

    Esta proposta pretende, em primeiro lugar, dar continuidade à uma série de trabalhos que apresento desde 2023 na SOCINE dedicados à obra do diretor italiano Vittorio De Seta. Depois de cotejar alguns filmes de De Seta e Ermanno Olmi num contexto histórico e estético e observar questões relativas à representação do trabalho e da paisagem em seus filmes, este trabalho procura desenvolver a hipótese, adiantada anteriormente, de que os curtas-metragens de De Seta dos anos 1950, quando vistos e pensados em conjunto, compõem uma única obra. Mais do que uma simples coleção que agrupa dez filmes, Il mondo perduto (2008) sugere que as incursões de De Seta pelo Sul da Itália podem ser encaradas como um projeto cinematográfico de relevo ensaístico.
    O uso do adjetivo ensaístico, em vez do substantivo filme-ensaio, é usado tendo em vista a precaução necessária para abordá-lo, de modo que Il mondo perduto também pode ser compreendida como um protoensaio. Indexados e assistidos como documentários, os filmes da coleção, individualmente, não apresentam de imediato nenhuma das características já conhecidas e bem demarcadas do filme-ensaio como um território, ou seja, um quarto domínio do cinema, para além do ficcional, do documental, e do experimental, mas que, apesar de diferente deles, é livre e pode ser facilmente contaminado por eles (Teixeira). O épico e o trágico, em cores e ritmos, da “ópera da realidade” de De Seta (Farassino) não desnaturalizam exatamente o documentário, mas tentam, na verdade, engendrá-lo como um “tratamento criativo da realidade” (Grierson).
    Se ligada e pensada a partir das sinfonias urbanas dos anos 1920 e 1930, como A Propósito de Nice, Il mondo perduto pode ser entendida como uma sinfonia pastoral, cujo residual experimental persiste obliquamente e a ideia de “pastoral” remete menos a uma maneira idealizada de retratar os modos de vida de camponeses (e outros trabalhadores) do que a uma atitude formal e ideológica, sobretudo a partir da noção de “ponto de vista documentado” (Vigo), cuja modernidade cinematográfica reivindica uma reflexão sobre esse “mundo perdido” e seus habitantes “esquecidos.” É necessário observar, assim, como “atividades de múltiplos níveis de um ponto de vista pessoal como uma experiência pública” (Corrigan) se materializam.
    Ao longo do século XIX, as representações do Sul (pela literatura do Grand Tour, oficiais do governo, revistas ilustradas, escritores veristas) destacaram principalmente os aspectos negativos da região, como o atraso econômico e a miséria de sua população, criando uma “geografia imaginária” que distanciava a Itália do resto da Europa Ocidental e, nacionalmente, o Sul do Norte e do Centro, fortalecendo dicotomias como rural/industrial e arcaico/moderno que, consequentemente, refletiam e configuravam suas aspirações burguesas (Moe). O Sul italiano, apesar disso, foi celebrado por suas paisagens pitorescas: seus campos, mares e vulcões foram visitados e admirados, e esse cenário idílico, em suma, serviu como uma imagem-antídoto contra o mundo industrializado.
    Mais do que apenas registrar e documentar, como uma etnografia de salvaguarda, De Seta retrabalha alguns desses estereótipos do Mezzogiorno, mas sob uma nova luz, sob um ponto de vista que busca confrontar uma nova modernidade italiana, aquela do pós-guerra, do milagre econômico. Neste sentido, seus filmes são menos travelogues do que “filmes de excursão” (Corrigan), mas em vez de transformarem e desestruturarem o sujeito viajante, eles tentam rearticular e refletir sobre o discurso que tem informado a região: a Questão Meridional entrevista nesses filmes não retém nada dos tratados políticos escritos sobre ela ou do que um documentário institucional e expositivo faria, mas aquilo de prosaico e poético que o ensaio enseja (Bense) — como um debate público pode tornar-se pessoal? —, onde cada filme é uma viagem e uma redescoberta, e esse acúmulo de espaços e tempos pode ser visto como uma tentativa de dar contorno a algo.

Bibliografia

    BENSE, M. “O Ensaio e Sua Prosa.” In: PIRES, P. R. (org.). Doze Ensaios Sobre o Ensaio. São Paulo: IMS, 2018.
    CORRIGAN, T. O Filme-Ensaio: Desde Montaigne e Depois de Marker. Campinas: Papirus, 2015.
    FARASSINO, A. “De Seta: The ‘Grand Form’ of the Documentary.” In: Paisagem: O Trabalho do Tempo. Serpa: Doc’s Kingdom – Seminário Internacional Sobre Cinema, 2008.
    MOE, N. The View from the Vesuvius: Italian Culture and the Southern Question. Berkeley: University of California Press, 2002.
    RASCAROLI, L. How the Film Essay Thinks. New York: Oxford University Press, 2017.
    TEIXEIRA, F. E. (org.). O Ensaio no Cinema: Formação de um Quarto Domínio das Imagens na Cultura Audiovisual Contemporânea. São Paulo: Hucitec, 2015.
    VIGO, J. “Toward a Social Cinema.” Sabzian, 2015. Disponível em: https://sabzian.be/text/toward-a-social-cinema. Acesso em: 27 fev. 2026.