Ficha do Proponente
Proponente
- THIAGO MENDONCA (PPGMPA – ECA – USP)
Minicurrículo
- Diretor, roteirista e crítico de cinema. Bacharel em Ciências Sociais pela USP, é mestre e doutorando pela ECA-USP, onde pesquisa a obra de Andrea Tonacci. Recebeu por seus filmes mais de uma centena de prêmios. Entre seus curtas estão “Minami em Close- up”, “A Guerra dos Gibis”, “Piove, il Film di Pio”, “O Canto da Lona”, “Entremundo”, “Procura-se Irenice”, “O Karaokê de Isadora” e “Belos Carnavais”. Entre seus longas destacam-se “Jovens Infelizes”, a obra infantil “Um Filme de Cinema” e “Curta
Ficha do Trabalho
Título
- Os filhos do Golpe. Uma análise de Olho por olho de Andrea Tonacci
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- Em seu 1o curta, Olho por olho (1966), Andrea Tonacci capta o mal-estar de jovens vivendo sob o regime autoritário, que se traduz em apatia e violência gratuita. Aponta uma adesão ou, ao menos, uma não objeção à ordem vigente. Essa conivência é manifestada pela passividade com que ouvem as notícias de rádio e ao mesmo tempo pela brutalidade que manifestam em seus comportamentos sociais. Este curta é um dos 1os filmes a refletir sobre a alienação da juventude que se formava após o golpe de 1964.
Resumo expandido
- Em 1965 o cineasta Andrea Tonacci realiza seu 1o curta-metragem, Olho por Olho. O filme foi realizado junto a outros dois curtas, dirigidos por Rogerio Sganzerla e Otoniel Santos Pereira. Cada um dos diretores dirigiu e escreveu sua história. Os filmes foram feitos com recursos mínimos, em preto e branco, sem som direto e dublados posteriormente. Se há algo que os une é um mal-estar diante da aparente pasmaceira cotidiana do período pós-golpe.
No início de Olho por olho os atores não profissionais do filme, a maioria colegas de faculdade de Tonacci, que cursava Engenharia no Mackenzie, são apresentados através de fotos. As 1as imagens em movimento mostram ruas de São Paulo dos anos 1960 do ponto de vista dos personagens, em um carro em movimento. São dois jovens protagonistas, que perambulam pela cidade. Um deles reclama da rádio (ouvimos uma notícia sobre a guerra do Vietnã). Este pequeno gesto em relação às notícias, logo no início do curta, já explicita uma constante perseguida por Tonacci neste seu trabalho inaugural: a alienação da juventude de classe média diante das questões de seu tempo, pouco depois do golpe civil-militar de 1964. Com inteligência, o autor estabelece uma relação ambígua com seus atores: sua câmera, postada no banco traseiro do carro, como se fosse um personagem no meio deles, aproxima-os. Ao mesmo tempo, a postura blasé e agressiva dos jovens causa mal-estar e distanciamento. O lugar do espectador é, portanto, um lugar instável e, em alguns momentos, desconfortável: o que Roberto Schwartz classificou, a propósito de Os fuzis, de Ruy Guerra (1964), como uma “identificação antipática”.
Logo depois, os personagens voltam a comentar sobre os programas do rádio. A cena reitera a displicência diante dos fatos concretos, somando às pistas já apresentadas sobre os personagens mais uma informação importante, sua origem social. Eles usam o carro, mas não são proprietários. Provavelmente tomaram emprestado o carro dos pais. São jovens de classe média, desocupados e dependentes. Assim, logo o início, as informações básicas para entender os personagens deste road movie “às avessas” são expostas. Chamo de road movie “às avessas” porque é construído na contramão dos filmes que caracterizam este gênero, expressão de rebelião de uma juventude que via no carro e na estrada a possibilidade de ampliar os horizontes e fugir dos condicionamentos impostos pelo sistema político e econômico. No filme de Tonacci, o carro não amplia nenhum horizonte. A viagem não se completa, pois o carro gira em falso, ele não vai para lugar algum. O comportamento dos jovens é de um conformismo atroz. Uma juventude narcisista, que reproduz os valores propagados pela cultura oficial da ditadura.
É interessante frisar que os diálogos foram dublados posteriormente. Portanto, muitas frases foram provavelmente pensadas a posteriori, não surgiram de improviso. Há intencionalidade do diretor em imprimir sentido a elas. Os discursos confusos, a dificuldade de estabelecer uma reflexão, o deambular inutilmente, procurando sem consequências uma experiência a ser vivida, a total apatia e desidentificação com o mundo e com as classes populares estabelecem um corte profundo entre esta geração e a anterior, engajada e crítica, e mostram o horror de uma juventude formada sob o signo dos valores da ditadura e seu ideário. Tonacci frisa a todo momento a alienação de seus personagens na estrutura do filme: um circuito fechado, com personagens vazios, que só se rompe com a explosão de violência sem justificativa no final, e que é, em si, parte de um círculo mais amplo de repetição. A displicência e o desinteresse fazem parte deste contínuo de reiteração de um comportamento alienado e enfadadiço, que despreza os que são “de fora” de seu grupo social e ignora os acontecimentos relevantes de seu tempo. A violência gratuita é a resposta visceral que estes jovens dão à sociedade que os criou: olho por olho, dente por dente.
Bibliografia
- DEVIRES-CINEMA E HUMANIDADES. Tonacci. Belo Horizonte, UFMG, v.9 n.2. 2012
FERREIRA, Jairo. Cinema de invenção. São Paulo, Editora Limiar, 2000.
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LASCH, Christopher. A cultura do narcisismo, São Paulo, Fósforo Editora, 2023.
SCHWARZ, Roberto. O pai de família e outros estudos. São Paulo, Cia. das Letras, 2008
SGANZERLA, Rogério. Rogério Sganzerla. Série Encontros. Org. Roberta Canuto. Rio de Janeiro, Azougue Editorial, 2007.
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XAVIER, Ismail. O cinema brasileiro moderno. São Paulo, Paz e Terra, 2001
_________. O cinema marginal revisitado: pequeno retrato em largas pinceladas. In: FARIA, A.; PENNA, J. C.; PATROCÍNIO, P. R. T. (Org.). Modos da margem. Rio de Janeiro, UFRJ, 2015.