Ficha do Proponente
Proponente
- Wanderley de Mattos Teixeira Neto (UFBA)
Minicurrículo
- Doutor e Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas na linha Culturas da Imagem e do Som (UFBA) com pesquisa desenvolvida na área de recepção cinematográfica. Crítico de cinema associado a Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). Graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo e Direito.
Ficha do Trabalho
Título
- Videoheaven, o metadocumentário como expressão da cinefilia e registro histórico das videolocadoras
Resumo
- A presente comunicação tem o intuito de realizar uma análise do documentário Videoheaven (2025) do diretor Alex Ross Perry à luz da ideia de cinefilia e da noção do audiovisual como registro histórico. A partir da análise de filmes e séries que utilizaram as videolocadoras como cenário de suas histórias, Ross Perry realiza uma análise da trajetória cultural e econômica desses espaços em uma narrativa de ascensão e queda, mas também expressa sua nostalgia por uma prática de socialização cinéfila.
Resumo expandido
- O documentário Videoheaven (2025) do estadunidense Alex Ross Perry faz uma análise a respeito do impacto cultural das videolocadoras entre as décadas de 1980 e 2010. O filme acompanha a ascensão e a perda da relevância desses espaços a partir da sua representação em narrativas audiovisuais. Analisando cenas de filmes e séries que inserem as videolocadoras como cenários pontuais ou predominantes, Videoheaven procura compreender o que essas lojas representaram no imaginário dos apreciadores de filmes e desenvolver um percurso cronológico do seu impacto econômico e cultural na indústria.
A análise desse metadocumentário parte dos pressupostos da análise fílmica ao decompor e recompor elementos a fim de perceber como estes funcionam em conjunto (AUMONT e MARIE, 2004; VANOYE e GOLIOT-LETÉ, 2012). Assim, a observação de recursos como o texto de Ross Perry narrado pela atriz Maya Hawke combinado com a escolha de cenas dos filmes comentados, além de intervenções nas imagens a título de suporte analítico – acelerações, pausas e zooms – foram importantes para compreendermos como o longa trabalha um conceito relevante à análise em questão: a ideia de cinefilia e do cinema como registro histórico.
A cinefilia é entendida como um culto não apenas aos filmes, mas ao processo de prolongamento da existência deles a partir de experiências de socialização (BAECQUE, 2010). A ideia de cinefilia também está atrelada a experiências de consumo intensificadas pela popularização do VHS nos anos 1980 e práticas de colecionismo, entrando em voga o prazer pela posse de objetos como pôsteres, bonecos de personagens emblemáticos e, claro, a mídia física, parte fundamental das videolocadoras (JULLIER e LEVERATTO, 2012).
Videoheaven é um documentário que tematiza e exerce a cinefilia ao abordar as videolocadoras oras com romantismo nostálgico oras com distanciamento de análise da história. Ao discutir a representação desses espaços em narrativas audiovisuais entre os anos de 1980 e 2010, o documentário aborda elementos reconhecíveis a fãs de filmes como as interações com o mítico personagem do funcionário de videolocadora – O Balconista (1994) – ou a aura misteriosa em torno da seção de filmes pornográficos – Dublê de Corpo (1984) -, demonstrando como esse ambiente era parte do cotidiano e da interação social sobre filmes em um determinado período da história do audiovisual. Há ainda, um percurso histórico didaticamente traçado através da análise dessas obras: o fascínio pelo surgimento das videolocadoras de bairro com suas possibilidades de acesso àquilo que não poderia ser consumido em público ou que não era oferecido pelo mainstream – O Vingador Tóxico 3 (1989) – até seu declínio a partir do final dos anos 2000, quando esses espaços já não apresentavam nenhum momento novo ou excitante, sendo marcado por cenários vazios e funcionários frustrados – Diabolicamente sedutora (2007). Ao longo de Videoheaven, Ross Perry observa aspectos como a direção de arte (pôsteres e cores dos ambientes), a relevância desses cenários na trama, a percepção dos personagens sobre a experiência de locar filmes e suas interações (partilhas de gostos entusiasmadas ou desentendimentos).
A análise promovida por Videoheaven aproxima-se de esforços como a série A História do Cinema: Uma Odisseia (2011) de Mark Cousins ou mesmo de práticas do vídeo-ensaio online como crítica de cinema, conforme já abordado em outra edição do congresso (TEIXEIRA NETO, 2023). O longa então é expressão das lembranças do seu diretor como cinéfilo, frequentador de videolocadoras, mas também encampa a noção do cinema como registro da história (FERRO, 2010). Todos os filmes citados por Ross Perry, ao usarem as videolocadoras como cenário para as ações dos seus personagens, acabam revelando vestígios de um pensamento dos cineastas sobre aqueles espaços e também a trajetória dessa forma de socialização de obras audiovisuais e importante e estratégica ramificação da indústria do cinema de um dado período.
Bibliografia
- AUMONT, J.; MARIE, M. A análise do filme. Lisboa: Texto&Grafia, 2004.
BAECQUE, A. Cinefilia. São Paulo: Cosac Naify, 2010.
FERRO, M. Cinema e história. São Paulo: Paz e Terra, 2010.
JULLIER, L.; LEVERATTO, J.M. Cinéfilos y cinefilias. 2012
TEIXEIRA NETO, W.M. [in]Transition, a prática do vídeo-ensaio como crítica acadêmica. In: BORGES, C. et al (org). Anais de textos completos do XXV Encontro da SOCINE: inventar futuros. São Paulo: SOCINE, 2023.
VANOYE, F.; GOLIOT-LETÉ, A. Ensaio sobre a análise fílmica. Campinas: Papirus, 2012.