Ficha do Proponente
Proponente
- Patricia Moran Fernandes (USP)
Minicurrículo
- Livre docente. Professora da ECA/USP. Coordenou a coleção de onze livros do CINUSP, organizando dois dos volumes, um sobre Machinima com Janaína Patrocínio e Harun Farocki – Programando o Vi. Lançou em co-autoria com com Marcus Bastos Audiovisual ao vivo. Tendências e Conceitos, e em 2023 o livro Historias e Técnicas de Cinema. No final dos anos 80 e na década de 90 realizou documentários e ficções experimentais. Atualmente grava o documentário “Tempo Presente”
Ficha do Trabalho
Título
- Orestes e a encenação em abismo da traição e violência
Mesa
- Cinema, Arte, Política – entre deslocamentos e invenções II
Resumo
- Os documentários de Rodrigo Siqueira reencenam tramas para explorar traumas, faltas, hipóteses e jogar com dramaturgias que se deslocam entre eventos performáticos, depoimentos tradicionais, situações encenadas e documentos. Orestes (2015) parte do estilhaçamento emocional de seus personagens, e cria situações narrativas para a emergência de uma multiplicidade de eus. Explora-se o trânsito entre personagem e persona, entre afetos, dores e raiva. A complexidade de eus como tessitura narrativa.
Resumo expandido
- Segundo Hito Steyerl “a única coisa que podemos afirmar com certeza sobre o modo documentário em nossos tempos é que sempre duvidamos se é verdade” Realizadores como Rodrigo Siqueira fazem de sua filmografia um espaço para se explorar através das dificuldades e ambiguidades de seus personagens a fragilidade do estatuto da verdade. A partir da riqueza e contradições dos personagem são conduzidas narrativas com a potência do falso. Os documentários Orestes (2015); 171 ( 2023) e Terra deu terra come (2010) de Siqueira reencenam tramas para explorar traumas, faltas, hipóteses e jogar com dramaturgias que se deslocam entre eventos fora de qualquer roteiro de gravação, performances, situações reencenadas e documentos audiovisuais, além de fotos e matérias de jornal. Recursos tradicionais do documentário são apropriados para a exploração de experimentação formal, de modo a se sobreporem gêneros e estilos.
O longa parte da tragédia Orestes de Ésquilo como estratégia para nomear o inominável, para tocar em cenas difíceis de se revisitar. Como em boa tragédia há disputas de poder, envolve-se política e família. O texto de Ésquilo é considerado um paradigma jurídico, quando a lei do mais forte e da vingança passa a ser regulada em um juri popular. Qual o tema do filme? A dor, a injustiça social, a violência policial e o teatro do julgamento popular. A rigor construção da dramaturgia e de personagens é tema da filmografia do documentaristas que expõe seu público a um encontro paulatino com os personagens e eventos.
O documentário Orestes é dividido em três partes, ou três atos como reivindicava Aristóteles para a estrutura da tragédia: a traição, a vingança e o julgamento. Na primeira o público conhece a filha de Soledad, militante de esquerda assassinada pela ditadura militar, após a traição do Cabo Anselmo. Na ocasião ele tinha uma relação afetiva com Soledad. Como falar de um homem que usou a proximidade com seus pais para entregar a ambos para a dituradura? No filme convivemos com ironias do destino desta personagem, cujas imagens da infância são atribuídas ao responsável pelo morte de sua mãe.
A segunda parte acrescenta a violência social, o assassinato de jovens pela polícia. Conhecemos inicialmente como pais lidam com a perda de seus filhos, para cujo assassinato a polícia encontra justificativa semelhante, esclarece uma advogada. Uma delegacia utilizada para a tortura durante a ditadura militar é palco para o debate sobre a violência. O documentário passa a ser conduzido por práticas de psicodrama, e dois profissionais da área em cena, atuam como disparadores do debate. Momento de confrontos. Uma mulher com camiseta escrita “Justiça é o que se busca” expõe preconceitos e lugares comuns sobre a necessidade de vilência policial. Da cena montada emergem contradições, performances e versões. A raiva suscitada pelo dinâmica autoriza o descontrole do bom tom social. A performance corporal e social encontram filiações políticas claras.
Já na terceira parte, mais dura formalmente, encena um julgamento mesclando Orestes da tragédia, aos dois jovens assassinados pela polícia. O julgamento é entremeado por cenas de psicodrama improvisadas.
Rodrigo Siqueira convoca para este filme pessoas diversos estratos da sociedade, este aspecto por si, representa a presença de personagens distintos. Dividimos com Jean-Louis Comolli o entendimento de que“todos aqueles que eu filme já são atores e interpretados em outras Mise-en-scènes, que precedem e, às vezes, contrariam aquela do filme.” (pg. 84). “O cineasta filma representações já em andamento, mise-en-scènes incorporadas e reencenadas pelos agentes dessas representações.” (pg. 85). As encenções em abismo em Orestes jogam para o público performances de personagens que experimentam a auto-representação, a presentificação de um desejo de fala nos psicodramas, performances estruturadas a partir das surpresas propostas pelo outro e algumas mais.
Bibliografia
- Barba, Eugênio. A arte secreta do ator. Um dicionário de antropologia teatral. Eugenio Barba, Nicola Svarese ; tradução de Patricia Furtado de Mendonça. São Paulo: Realizações, 2012.
Balsom, Erika and Peleg, Hila. Documentary Across Disciplines. Documentary Across Disciplines. Berlin/Cambridge and London: Haus der Kulturen der Welt/MIT, 2016.
Comollli, Jean-Louis. “Carta de Marselha sobre a automise em scène”. In Ver e Poder : a inocência perdida, cinema, televisão, ficção. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008.
Fischer-Lichte, Erika. The transformative power of performance. A new aesthetics. London and NT: Routledge, 2008.
Goffman, Erving. Representação do eu na vida cotidiana. 20a ed. Petrópolis: Vozes, 2014.
Russel, Catherine. Experimental Etnography. The work of film in the age of video. Durham and London: Duke University Press, 1999
Stanislavski, Constantin. A construção da personagem. 21a ed. RJ: Civilização Brasileira, 2012.