Ficha do Proponente
Proponente
- German Nilton Rivas Flores (UFC)
Minicurrículo
- Peruano radicado no Brasil, mestre em Artes e bacharel em Cinema pela UFC. Sua trajetória integra roteiro, montagem e direção, unindo rigor acadêmico e sensibilidade estética. Pesquisador do cinema latino-americano e integrante do grupo Intervalos&Ritmos (#ir!), dedica-se à construção de narrativas que exploram identidades. Com um olhar atravessado pela experiência multicultural, busca transformar a pesquisa cinematográfica em obras que dialogam com o público.
Contato: nilorrivas@gmail.com
Ficha do Trabalho
Título
- (Uma) estética de (re)existência: a linguagem cinematográfica em Wiñaypacha (2017)
Seminário
- Cinema e audiovisual na América Latina: novas perspectivas epistêmicas, estéticas e geopolíticas
Resumo
- O longa Wiñaypacha (2017), de Óscar Catacora, rompe com a gramática audiovisual hegemônica, estabelecendo uma “estética da (re)existência”. O presente trabalho propõe uma análise da linguagem cinematográfica do filme enquanto dispositivo de desobediência epistêmica e afirmação decolonial. Através de um exercício metodológico de aálise/decupagem fílmica investiga-se como a forma opera como um gesto político de soberania visual.
Resumo expandido
- O longa-metragem Wiñaypacha (2017), dirigido por Óscar Catacora, estabelece um marco incontornável no cinema peruano contemporâneo, não apenas por ser a primeira obra de ficção de longa-metragem falada inteiramente em aimará, mas fundamentalmente por propor uma ruptura epistemológica com a gramática audiovisual hegemônica.
O cinema, enquanto linguagem, foi (e é) historicamente moldado por convenções narrativas que priorizam o ritmo acelerado e o corte rápido; padrões que, muitas vezes, não comportam as vivências de culturas não-ocidentais. No contexto do cinema andino contemporâneo, a tensão entre essa forma “padrão” de fazer filmes e a especificidade das culturas locais é um campo de estudo crucial.
Esta pesquisa, derivada da dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal do Ceará (UF), investiga como as escolhas estéticas e formais do filme operam como mecanismos de desobediência epistêmica e afirmação decolonial.
A base metodológica desta análise consistiu na análise/decupagem fílmica sistemática, um exercício de desmontagem dos elementos constitutivos da linguagem audiovisual: enquadramento, duração dos planos, montagem, som, mise-em-scène, paleta de cores. Ao mapear a organização espacial, temporal e estética da obra, a pesquisa transcendeu a análise temática. A análise/decupagem permitiu identificar os estratégias de montagem e a estrutura rítmica, revelando que a “forma” do filme não é um elemento neutro, mas o lugar onde a cosmovisão andina se materializa e se opõe aos ritmos impostos pelo cinema global.
A análise/decupagem demonstra que a “estética da (re)existência” em Wiñaypacha (2017) manifesta-se através de três pilares centrais identificados nela. Primeiro, o uso intensivo de planos fixos de longa duração, que forçam o espectador a adaptar-se ao tempo da cena, e não o contrário. Segundo, a subversão do regime sonoro: a recusa da trilha sonora incidental desloca o foco para o som diegético (o vento, o silêncio, a natureza), transformando o ambiente num agente ativo na narrativa. Terceiro, o enquadramento como “cartografia visual”, onde a câmara não “captura” o sujeito, mas convive com ele, preservando a sua autonomia. Ao articular estes elementos, a obra habita a “fissura colonial”, tornando visível um modo de vida que resiste à assimilação. A forma cinematográfica aqui atua como campo de batalha político: ao recusar o corte dinâmico, Catacora constrói um cinema onde a técnica não serve apenas para contar uma história, mas para ditar um ritmo de visão próprio.
O percurso analítico permite concluir que Wiñaypacha (2017) não se limita a representar uma cultura; ele constrói essa cultura através das suas escolhas técnicas de montagem e enquadramento. Ao manter planos longos e recusar cortes rápidos, Catacora obriga o espectador a ajustar-se ao tempo da obra, demonstrando que a descolonização do cinema passa, necessariamente, pelo domínio e pela alteração da sua própria estrutura técnica.
Esta pesquisa propõe que a “estética da (re)existência” é um resultado prático de escolhas conscientes na câmara, no som, na direção, na montagem. Wiñaypacha (2017) deixa, portanto, de ser apenas uma obra regional para se tornar um caso de estudo essencial sobre como é possível fazer cinema de outra maneira. O filme nos convida a refletir que, quando alteramos a técnica cinematográfica, alteramos não só a forma como vemos o “outro”, mas também o nosso próprio ritmo de perceção do mundo.
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