Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Daniela Giovana Siqueira (UFMS)

Minicurrículo

    Professora da graduação em Audiovisual e docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFMS. Doutora em Ciências pela ECA/USP. Mestre em História e Culturas Políticas pela UFMG. Líder do Grupo de Pesquisa CNPq “História, Educação e Audiovisual: circularidades e formação social e responsável pelo Laboratório de Pós-Produção e Arqueologia das Mídias. Pesquisa as relações entre cinema, história, educação e memória, com desdobramentos no campo da preservação audiovisual.

Ficha do Trabalho

Título

    Sarah Maldoror: gesto cinematográfico que dá a ver África, França e Brasil

Resumo

    A cineasta Sarah Maldoror possui uma filmografia que atravessa um período importante da história contemporânea, as décadas de 1970 e 1980. A partir da análise fílmica, em cotejo com a perspectiva da preservação audiovisual, esperamos propor uma discussão que seja capaz de estabelecer relações entre sua obra e processos históricos, a partir da associação com cineastas que, no presente, aproximam-se do gesto cinematográfico de Sarah, o que permite pensar conexões entre França, África e Brasil.

Resumo expandido

    As lutas políticas do século 20, que trouxeram com mais força pautas interseccionadas por raça, gênero, sexualidade e classe social fizeram o trabalho de colocar sobre a mesa diversas questões que cercam a existência humana, possibilitando em alguma medida a emergência de vivências heterogêneas. Hoje, na universidade, é possível ver como os estudantes se preocupam mais com as interseccionalidades na produção de seus filmes e em suas pesquisas.

    A cineasta Sarah Maldoror participa dessa partilha estabelecendo uma produção cinematográfica que atravessa um período importante da história contemporânea, as décadas de 1970 e 1980. O registro historiográfico atribui a ela a primeira filmagem de um longa-metragem dirigido por uma mulher em África.

    Sua câmera dedicou-se ao registro de temas sensíveis do passado, mas, que ao mesmo tempo, apresentam-se no presente com significações que ora apresentam avanços e, por muitas vezes, repetem-se sem diferença: migrantes, gênero, luta política, literatura negra.
    Parte da obra televisiva e fílmica de Sarah passou recentemente por processos de restauração e esse trabalho torna-se então fundamental para o presente. No campo arquivístico, as políticas de acervo, permeadas por jogos de poder e por disputas de ordem política e históricas, implicam em processos de seleção que afetam diretamente a gramática da memória: lembranças e esquecimentos em comunidade.

    Nesta proposta, a interseção entre trabalho histórico e arquivístico, colabora para que possa ser instaurada uma discussão que visa extrapolar o lugar da segmentação, um lugar que insiste em enquadrar as produções pelas questões que apresentam e com isso criam separações que em verdade isolam os filmes do todo cinematográfico. Um exemplo disso: o estudo do cinema feito por mulheres ao invés de estudar uma história do cinema mundial em que essas mulheres estejam integralmente inseridas.

    Pensar a ida de Sarah para a África, espaço periférico na dinâmica geopolítica global para registrar a existência social e política de africanos é gesto que podemos associar a um dado levantado em 2022 junto ao Museu das Favelas, instituição da cidade de São Paulo. Ao mapear na periferia paulistana objetos a serem musealizados pela instituição, a equipe técnica constatou que a maior parte dos documentos encontrados se referiam a registros audiovisuais.

    Dessa mesma periferia paulistana destacamos o trabalho do cineasta Lincoln Péricles, que a partir da ideia de construir uma “Cinemateca da Quebrada” estabeleceu elos com França e África e, entorno do projeto Night School, voltado para o cinema comunitário do sul global, hoje viaja por diversos países africanos, mantendo parceria junto a cineasta francesa Alice Diop e o Centre Pompidou da França, no projeto “Cinemateca das Periferias do Mundo”.

    A obra precursora de Sarah Maldoror nos permite ver conexões que refutam de vez a leitura que engaveta sua produção como uma parte. Essas obras restauradas impõem-se para que nossos olhos no presente possam rever, a partir do cinema e do audiovisual, os sentidos que socialmente construímos para a vida.

Bibliografia

    HOOKS, bell. Ensinando comunidade: uma pedagogia da esperança. São Paulo: Elefante, 2021.

    EDMONDSON, Ray. Filosofia e princípios da arquivística audiovisual. Rio de janeiro: Associação Brasileira de Preservação Audiovisual/Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, 2013.

    MARTINS, Leda Maria. “Performance do tempo espiralar”. In: RAVETTI, Graciela. e ARBEX, Márcia. (orgs.). Performance, exílio, fronteiras: errâncias territoriais e textuais. Belo Horizonte: FALE-Faculdade de Letras da UFMG, 2002.

    MONTEIRO, Lúcia Ramos (org.). O cinema anticolonial de Sarah Maldoror. São Paulo: Buena Onda, 2026.

    SANTOS, Milton. A natureza do espaço. Técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo, SP: EDUSP, 2014.