Ficha do Proponente
Proponente
- tiago de aragão silva (IFB)
Minicurrículo
- Tiago de Aragão é realizador e professor do Instituto federal de Brasília, nos cursos de produção audiovisual no campus Recanto das Emas. Dirigiu o longametragem A Câmara (2023), além dos curta-metragens Luta Pela Terra (2022) em parceria com Camilla Shinoda, Entre Parentes (2018), Curió (2014) e Da Maior Importância (2011). Atualmente se dedica à finalização do longa-metragem Missão Pankararu, em codireção com Camilla Shinoda.
Ficha do Trabalho
Título
- CONTRADISCURSOS PELO CINEMA BRASILEIRO: Notas iniciais de um projeto sobre modos de produção alterna
Seminário
- Políticas, economias e culturas do cinema e do audiovisual no Brasil
Resumo
- O cinema brasileiro é uma esfera pública de disputas onde discursos sobre modos de produção influenciam a legitimidade do campo. Sob a ótica de públicos e contrapúblicos de Michael Warner, a pesquisa analisa performances que confrontam práticas hegemônicas. O foco desse primeiro artigo está em contradiscursos dos cineastas Sueli e Isael Maxakali, Adirley Queirós e Cristina Amaral, cujas práticas propõem temporalidades e ontologias que desafiam políticas e o senso comum da indústria.
Resumo expandido
- CONTRADISCURSOS PELO CINEMA BRASILEIRO: Notas iniciais de um projeto sobre modos de produção alternativos e filosofias de trabalho de cineastas no Brasil
O cinema no Brasil pode ser entendido como uma esfera pública habitada por diferentes grupos. A natureza heterogênea da composição desse campo implica em diferentes disputas, uma delas, que interessa esse projeto, se dá sobre o que é e qual é a “cara” do cinema brasileiro. Nesse cenário, diferentes grupos e discursos disputam espaço.
Enquanto uns trabalham pela manutenção de sua dominância, seja ela econômica ou simbólica, outros resistem se fazendo presentes e reivindicando visibilidade no mapa imaginário do cinema brasileiro. Nesse espaço de disputa, os discursos dos artistas sobre os seus modos de produção se tornam elementos importantes para o entendimento desse campo. Esses discursos e embates acabam por fazer parte da organização da esfera pública do cinema brasileiro no que se refere à legitimidade dos que fazem cinema.
Para ajudar nessa reflexão, tomo a noção de contrapúblicos — em diálogo com a perspectiva de Michael Warner (2002) — como perspectiva teórica para articular os elementos comunicacionais dessa disputa. A perspectiva da contrapublicidade dá continuidade à discussão da noção de Esfera Pública, em debate teórico capitaneado por Nancy Fraser (1990), que apresentou contrapontos à teoria de Jürgen Habermas, incluindo na dinâmica da esfera pública espaços discursivos de grupos socialmente subalternizados, os contrapúblicos. Michael Warner ampliaria essa ideia de contrapublicidade também para grupos não necessariamente subalternos, mas que, em alguma medida, contrapõem e estão em rota de colisão com discursos estabelecidos. Para Warner, tanto grupos Queer como fundamentalistas religiosos podem estar em rota de colisão com discursos hegemônicos. Pensar discursos sobre o cinema brasileiro por esse prisma é uma tentativa de análise que visa não se restringir ao discurso, mas pensar seus elementos performativos e implicações da ordem da organização social. As performances são objetos centrais para essa análise.
Esse artigo é a primeira manifestação pública sobre um projeto mais amplo e de longo prazo que tem o cinema brasileiro como uma esfera pública e se dedica a investigar diferentes discursos sobre modos alternativos de realização audiovisual, que em algum sentido se contrapõem a uma prática hegemônica, entendendo o discurso como um importante elemento da esfera do cinema brasileiro, seja ele um discurso ou contradiscurso. Essas performances, para além de buscar legitimidade da esfera pública, confrontam aspectos práticos do mundo que interferem no fazer cinematográfico, como regras de editais, planejamento de políticas públicas, além de confrontar noções de senso comum sobre o cinema brasileiro.
Como primeiro gesto de pesquisa, relaciono a produção e pensamento de quatro cineastas: os contradiscursos de cinema de i) Sueli e Isael Maxakali, produção artística cuja potência transpassa por intermédio de filmes povoados por povos-espíritos ou animais-humanos, quaisquer expectativas de representações puristas sobre o que seria um “cinema indígena”, trazendo imagens de “mundos ontologicamente distintos que coexistem no campo e em sua relação com o extracampo do filme” (Brasil 2020:172); ii) Adirley Queirós, cuja prática cinematográfica é radicalizada a partir de sua experiência territorial no Distrito Federal, entre Ceilândia e Brasília, constrói em seus filmes verdadeiros labirintos de sensações, onde as ações dramáticas não progridem em função de uma narrativa clássica, mas que a partir de suas cenas fragmentadas tem como esforço principal compor uma atmosfera (Campos 2020); e Cristina Amaral, cuja reflexão sobre o fazer cinematográfico clama por organizações e temporalidades próprias, que não cabem em editais ou cronogramas de realização estabelecidos na indústria cinematográfica.
Bibliografia
- Brasil, André. 2020. “O Cinema-Lagarta Dos Tikmũ’ũn: Teoria-prática Das Imagens xamânicas”. Intexto, nº 48 (janeiro). Porto Alegre:157-75. https://doi.org/10.19132/1807-8583202048.157-175.
Campos, João Paulo de Freitas. 2020. “Delírio Fantasma, Ou Os Tempos De ‘Era Uma Vez Brasília’”. ILUMINURAS 21 (53). Porto Alegre. https://doi.org/10.22456/1984-1191.100166.
Foucault, Michel. A Ordem do Discurso. Tradução de Laura Fraga de Almeida Sampaio. São Paulo: Loyola, 1996.
Fraser, Nancy. 1990. “Rethinking the Public Sphere: A Contribution to the Critique of Actually Existing Democracy”. Social Text, no. 25/26, 56–80
Warner, Michael. Publics and Counterpublics. New York: Zone Books, 2002.
https://doi.org/10.2307/466240.