Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Glauber Brito Matos Lacerda (Uesb)

Minicurrículo

    Doutor em Comunicação e Cultura Contemporâreas (UFBA) e professor do Curso de Cinema e Audiovisual e do Programa de Pós-Graduação Memória: Linguagem e Sociedade da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). Atualmente, investiga biografias sociais e cinematográficas da canção em filmes latino-americanos.

Ficha do Trabalho

Título

    O karaokê no documentário brasileiro: performance, repertório e pertencimento em Noite de Seresta

Seminário

    Histórias e tecnologias do som no audiovisual

Resumo

    A presente comunicação analisa as perfomances de karaokê no curta-metragem documental Noite de Seresta (Sávio Fernandes/Muniz Filho). O documentário traça um perfil de Kátia Blander, cantora cearense que trabalha em bares e eventos acompanhada por um karaokê. A análise revela que o karaokê funciona, no filme, como um elemento que conecta a vida íntima da cantora à sua relação com o público.

Resumo expandido

    A interface entre projeção de imagens e canto não profissional é uma forma de lazer popular desde o princípio do cinema. Segundo Rick Altman (2001), é possível reconstruir práticas do fim do século XIX nos nickelodeons, como as illustrated songs, nas quais letras de canções populares eram projetadas em slides e acompanhadas por performance ao vivo, frequentemente ao piano. Essa prática estimulava o canto coletivo e também funcionava como estratégia de promoção de coletâneas de partituras pelas editoras musicais.
    O canto não profissional no espaço público ganharia um novo capítulo na década de 1970, quando o karaokê surgiu no Japão e se espalhou pelo leste asiático e, em seguida, pelo resto do mundo. O caráter performativo dos karaokês logo ganharia espaço na dramaturgia dos filmes. O canto recreativo com playback instrumental, em diferentes registros, está presente em filmes diversos, tais como Encontros e Desencontros (Lost in Translation. Sofia Coppola. EUA/Japão, 2003), Aftersun (Charlotte Wells. EUA/Reino Unido, 2022) e Evidências do Amor (Pedro Antonio Paes/Zaga Martelleto. Brasil, 2023). Wulff (2016), ao analisar cenas de karaokê no cinema, argumenta que a prática funciona como uma espécie de “máscara acústica” dos personagens que, através do canto não profissional, expressam emoções reprimidas, comunicam mensagens íntimas no espaço público ou vivenciam momentos de transição de identidade.
    No documentário brasileiro, o karaokê também se insere como um elemento dramático em diversas obras. Em Eu vou rifar meu coração (Ana Rieper. Brasil, 2012), o canto de karaokê é a corporificação da sensibilidade de um amante da música brega (Depetris Chauvin, 2016); em O Homem comum (Carlos Nader. Brasil, 2015), a performance de Nilciane revela a melancolia da personagem diante dos conflitos que já enfrentou com o seu pai, Nilson; já o curta-metragem Muito Além do Chuveiro (Poliana Paiva. Brasil, 2018) traz uma espécie de registro etnográfico dos frequentadores de karaokês no Rio de Janeiro.
    Noite de Seresta (Sávio Fernandes/Muniz Filho. Brasil, 2021), diferente das outras obras citadas, se centra em uma única personagem que faz do karaokê uma profissão. Kátia Blander é uma mulher de meia-idade que canta em bares das noites de Fortaleza, interpretando números consagrados do cancioneiro popular massivo brasileiro que vão de Gilliard a Raul Seixas, de Vanusa a Isabela Taviani, de Raça Negra a Pabllo Vittar. As músicas modulam as emoções da personagem e reforçam o senso de pertencimento de Blander frente à comunidade à qual se apresenta. A performance da cantora oscila entre o canto amador, com suas imprecisões técnicas, e o canto profissional, visto que a artista também faz do canto um de seus ofícios.
    Na presente comunicação, analisaremos a relação entre o repertório musical, a performance de Kátia Blander e sua relação com o público na apresentação da personagem e na construção da narrativa do documentário. Para orientar nossa análise, utilizaremos as noções de cantos monológicos, dialógicos e polilóquios que Cláudia Gorbman (2012, p. 26) se vale para compreender as dimensões públicas e privadas da personagem dentro da narrativa. Os cantos monológicos atuam mais no sentido de construir uma paisagem interior da personagem na sua intimidade. O dueto, presente na sequência em que Blander canta com Davi, é um canto dialógico revelador da cumplicidade da mãe com o filho que luta contra a dependência química. Por fim, os momentos em que Blander canta para o público que a acompanha em coro, compreendemos como canto polilóquio, que reforça o senso de pertencimento da cantora com a comunidade. Assim, o karaokê em Noite de Seresta se revela, ao mesmo tempo, como suporte técnico da performance e mediador entre a intimidade da cantora e o espaço coletivo do qual ela faz parte.

Bibliografia

    ALTMAN, Rick. Cinema and popular song: the lost tradition_. In: WOJCIK, Pamela Robertson; KNIGHT, Arthur (org.). Soundtrack available: essays on film and popular music. Durham: Duke University Press, 2001. p. 19–30.

    DEPETRIS CHAUVIN, Irene. Ter saudade até que é bom. Música y afectividad en dos documentales brasileños recientes. 452ºF: Revista de Teoría de la Literatura y Literatura Comparada, Barcelona, n. 14, p. 45-68, jan. 2016.

    GORBMAN, Claudia. O canto amador. In: COSTA, Fernando Morais da Costa; SÁ, Simone Pereira de. Som + Imagem. 7 letras: Rio de Janeiro, 2012. p. 23-41.

    WULFF, Hans J. Karaoke: Zwischen Kulturtechnik, kommunikativem Format und dramaturgischer Praxis. Archiv für Musikwissenschaft, v. 73, n. 4, 2016, p. 306-327.