Ficha do Proponente
Proponente
- Heverton da Silva Guedes (UFPE)
Minicurrículo
- Historiador, doutorando em Comunicação (PPGCOM-UFPE) e bolsista CAPES. Investiga história e teoria do cinema, com ênfase no espaço e na cultura dos sertões.
Coautor
- Adriano Reis Cominato de Lima (UFPE)
Ficha do Trabalho
Título
- Sirât: sobre certo realismo árido
Resumo
- Propomos uma aproximação do longa Sirât (2025), de Óliver Laxe, com base em dois movimentos centrais: a elaboração da paisagem, investigando especificamente a imaginação do espaço desértico, e a abordagem realista, em especial consonância com o realismo sensório. Terminamos, então, posicionando ambos os levantamentos em chave de complementaridade e tensionamento, esboçando a potencialidade de um “realismo árido”.
Resumo expandido
- Em Sirât (2025), de Óliver Laxe, encontramos mais uma história de procura no deserto: um homem comum se junta a um grupo de “ravers” no Marrocos, ele busca por sua filha perdida, eles, por aventura e transcendência. Contudo, à medida que seguem, deserto adentro, encontram sempre mais incômodo e confronto do que respostas. O deserto, reiteradamente árido, impõe a todo instante a agência de sua paisagem (Lefebvre, 2007) enquanto opera a estética e a narrativa que acompanhamos.
O que pretendemos, a partir disso, é ensaiar o que tomamos como certo “realismo árido”, primeiro, através de um breve tensionamento do imaginário sobre o espaço-deserto (Mendonça, 2011; 2012) e, segundo, a partir de uma articulação com o realismo sensório no cinema contemporâneo (De Luca, 2015).
O filme nos atrai porque abraça e contorna, simultaneamente, muito do que esperamos ver e dizer do deserto. Para situar um pouco disso, comecemos retomando as noções ocidental e oriental do deserto: enquanto a primeira enfatiza a provação e o vazio (Mendonça, 2011), a segunda sugere uma lógica mais contemplativa e redentora (Mendonça, 2012) — “há terras que estão cheias de água para o bem-estar do corpo, há terras que estão cheias de areia para o bem-estar da alma”, diz, por exemplo, um conhecido ditado tuaregue (p. 328). Muito do filme está nesse contraste, pouco reconfortante, entre certa promessa de redenção e a provação, mais que certa, da árida realidade. Prova disso está na própria caracterização dos personagens: são sujeitos sofridos, amputados, maltrapilhos, sujos… Sujeitos que nos questionam, constantemente, se o deserto representa uma escolha ou, na verdade, tão somente, o que lhes resta. São pessoas que almejam “fugir” do mundo deserto adentro, mas, atravessando-o, descobrem que o deserto está mais para um “fim” de mundo. São pessoas que se deparam, enfim, com uma transcendência inalcançável, perdida entre a sujeira, escondida pela poeira, enterrada na areia… de uma paisagem árida demais, real demais.
Além disso, Sirât também se insere em um movimento de retomada dos procedimentos associados ao realismo ontológico pelo cinema mundial contemporâneo. Isso se estende desde critérios estilísticos, com excessivos planos-sequência com profundidade de campo conduzindo a viagem pelo deserto, até o âmbito narrativo, com o retrato micro de indivíduos comuns atravessados por mazelas sociais e políticas de uma ordem macro. Ao mesmo tempo, esse realismo contemporâneo diferencia-se daquele dos cinemas modernos pela intensificação da corporeidade e da sensorialidade, ou seja, pela forma como seus recursos “realçam a realidade principalmente como um fenômeno perceptual, sensível e experiencial, criando uma irredutibilidade fenomenológica que é percebida e transmitida através da experiência sensória.” (De Luca, 2015, p. 73). Tal viés sensório é frequentemente lido em sua aderência ao que Laura Marks (2000) caracterizou como visualidade e escuta “hápticas”: essas que privilegiam texturas, estímulos, sensações e plasticidade em detrimento do delineamento preciso e coerente do espaço cinematográfico. Todas essas reformulações também se inscrevem na arenosidade imersiva e contemplativa de Sirât.
Por isso, propor um realismo árido: para apreender uma experiência de real calcada na aridez, para entender uma presença de mundo marcada pelo embate (duro, bruto, árduo) entre sujeito e paisagem. Aqui, a aridez se desdobra da paisagem e “devora” a gente, dentro e diante da tela. Aqui, ela é chave de um realismo tanto imersivo quanto desconcertante… Assim, enfim, ela traz um encontro com um mundo mais áspero e menos “liso” (Han, 2019), mais marcado pela fricção do que pela simples absorção, afinal, “o deserto nunca é realmente suave” (Marks, p. 126), e nesse sentido, tamanho confronto é mais que bem-vindo.
Bibliografia
- DE LUCA, T. Realismo dos sentidos: uma tendência no cinema mundial contemporâneo. In: Realismo fantasmagórico. SP: USP, 2015, p. 61-93.
HAN, B. C. A Salvação do belo. Petrópolis: Vozes, 2019.
LEFEBVRE, M. Between setting and landscape in the cinema. In: LEFEBVRE, M. Landscape and film. Abingdon: Routledge, 2007. p. 19-60.
MARKS, L. Asphalt nomadism: the new desert in arab independent cinema. In: LEFEBVRE, M. Landscape and film. Abingdon: Routledge, 2007. p. 125-148.
MARKS, L. The Skin of the film: intercultural cinema, embodiment and the senses. Londres/Durham: Duke University Press, 2000.
MENDONÇA, F. Nos Contornos do vazio: Gerry e o cinema de deserto. In: CÁNEPA, L.; MÜLLER, G.; SILVA, M. XII Estudos de Cinema e Audiovisual Socine – Vol. 2. SP: Socine, 2011, p. 170-179.
MENDONÇA, F. O cinema-parábola de Nacer Khemir e sua trilogia do deserto. In: SOUZA, G; BRAGANÇA, M; CARREIRO, R. XIII Estudos de Cinema e Audiovisual Socine – Vol. 1. SP: Socine, 2012, p. 328-340.