Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Let Pei Galvão Martins (USP)

Minicurrículo

    Mestra em Meios e Processos Audiovisuais pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo com dissertação sobre o cinema de Hollis Frampton. Atualmente, organiza uma tese sobre sexualidade, fetichismo e corpo no cinema da Boca do Lixo dos anos 80.

Ficha do Trabalho

Título

    A obscenidade como forma: os corpos do cinema em Jan Soldat

Resumo

    O cineasta Jan Soldat é conhecido pelos retratos da comunidade gay-fetichista da Alemanha, principalmente no formato do curta-metragem. Através de uma análise de dois de seus filmes, Expectations (2020) e Nullo (2021), a comunicação tem como objetivo tecer uma relação entre a obscenidade do corpo retratado e da forma fílmica empregada por Soldat. A partir de uma rarefação das técnicas cinematográficas e da frontalidade de registro, o corpo fílmico equipara-se ao corpo do sujeito retratado.

Resumo expandido

    O cineasta Jan Soldat é conhecido por seus retratos da comunidade gay-fetichista na Alemanha, sobretudo no formato do curta-metragem, nos quais investiga práticas sexuais dissidentes a partir de uma abordagem formal rigorosamente contida. Através da análise de dois de seus filmes, Expectations (2020) e Nullo (2021), esta comunicação propõe estabelecer uma relação entre a obscenidade do corpo representado e a obscenidade da própria forma fílmica empregada por Soldat. Em “Nullo”, acompanhamos um homem que realizou a “nulificação” de seu próprio corpo, removendo o pênis e reorganizando sua existência a partir dessa ausência; o filme, nesse sentido, opera por subtração, fazendo da falta não apenas um dado temático, mas um princípio estrutural. Já em Expectations, observa-se um homem que tenta, sem sucesso, atingir a ereção enquanto mantém uma relação tensa com a presença do cineasta atrás da câmera: o filme se sustenta na incompletude do ato sexual, em uma expectativa continuamente adiada que nunca se resolve, convertendo o fracasso em motor dramático.

    A partir de uma rarefação das técnicas cinematográficas e da frontalidade do registro, Soldat parece buscar uma equivalência entre o corpo fílmico e o corpo do sujeito filmado. A economia de recursos (planos majoritariamente fixos, ausência de montagem elaborada, recusa de mediações expressivas) aponta para um regime de subtração que ecoa tanto a mutilação quanto a impotência, configurando uma busca por um tipo de “grau zero” da linguagem cinematográfica, por conta da recusa de uma estilização. Nesse regime, o acontecimento filmado se impõe sobre qualquer elaboração estética excessiva, fazendo com que o filme emerja da tensão direta entre aquilo que filma e aquilo que é filmado.

    Tais operações podem ser pensadas à luz do baixo materialismo de Georges Bataille, no qual o interesse pelo informe, pelo abjeto e pelo corpo degradado desloca a experiência estética para zonas de fascínio pelo obsceno e pelo heterogêneo. Além disso, os filmes de Soldat dialogam com a política sexual proposta por Gayle Rubin, ao trazer à visibilidade práticas marginalizadas e hierarquias do desejo, bem como com a contrassexualidade de Paul B. Preciado, ao evidenciar o corpo como campo de experimentação e reconfiguração tecnológica, simbólica e política. Entre a subtração e a incompletude, entre o corpo mutilado e o corpo que falha, os filmes analisados instauram um campo em que forma e conteúdo se contaminam, fazendo da obscenidade não apenas um tema, mas uma condição estrutural do próprio cinema.

Bibliografia

    BARTHES, Roland. O grau zero da escrita. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
    BATAILLE, Georges. A parte maldita. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
    BATAILLE, Georges. O erotismo. Belo Horizonte: Autêntica, 2013.
    CALIFIA, Patrick. Public Sex. San Francisco: Cleis Press, 1994.
    FEATHERSTONE, Mike (org.). Body Modification. London: Sage, 2000.
    KRISTEVA, Julia. Powers of Horror: Essay on Abjection. New York: Columbia University Press, 1982.
    PITTS, Victoria. In the Flesh: The Cultural Politics of Body Modification. New York: Palgrave Macmillan, 2003.
    PRECIADO, Paul B. Manifesto contrassexual. São Paulo: n-1 edições, 2014.
    RUBIN, Gayle. Políticas do sexo. São Paulo: Ubu Editora, 2017.
    VOGEL, Amos. Film as a Subversive Art. New York: Random House, 1974.
    WILLIAMS, Linda. Hard Core: power, pleasure and the frenzy of the visible. Berkeley: University of California Press, 1999.
    WILLIAMS, Linda. Screening Sex. Durham: Duke University Press, 2008.