Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Maria Celina Gil Reis Boeira (Unicamp)

Minicurrículo

    Maria Celina Gil é graduada em Cinema pela FAAP (2011) e em Letras pela FFLCH/USP (2014). Mestra e Doutora em Artes da ECA/USP. Membro do Núcleo de Traje de Cena, Indumentária e Tecnologia da USP. Pesquisadora de Pós-Doutorado na Unicamp, com a pesquisa “O ator coautor do traje”, onde também atua como docente nos cursos de teatro e dança, ministrando disciplinas de cenografia, figurino e caracterização. Atua como figurinista em teatro, performance e cinema.

Ficha do Trabalho

Título

    O PAPEL DO FIGURINO NA GESTUALIDADE DO ATOR

Resumo

    Esta proposta de comunicação investiga como figurinos cinematográficos podem ir além da estética para moldar diretamente o gesto e o trabalho corporal do ator. Diferente do foco exclusivo na visualidade, o estudo propõe analisar trajes criados propositalmente para tensionar, limitar ou modificar movimentos, servindo como ferramenta performativa. O objetivo é entender como essa relação vestimenta-corpo aprofunda a criação gestual, partindo de exemplos contemporâneos de filmes em que isso ocorreu.

Resumo expandido

    Seminário temático: Estética e Teoria da Direção de Arte Audiovisual

    Nesta proposta de comunicação, pretendemos discutir as possibilidades de relação entre o trabalho de corpo do ator e o figurino utilizado por ele em cena. O figurino audiovisual costuma ser objeto de análises principalmente a partir de dois ângulos: seus modos de construção; e sua relação para a construção visual da personagem. Muitas vezes os estudos de figurino aparecem ligados a áreas de conhecimento correlatas, como história da moda ou teorias do design; ou à semiótica, relacionando cada elemento do traje a possíveis significados.
    É indiscutível que o figurino é uma parte fundamental na construção da personagem, sendo comum, por exemplo, que se ouça que o figurino funciona como uma “segunda pele do ator”. A grande questão é que frequentemente esse tipo de análise se foca na aparência do ator usando o figurino, ao invés de olhar para o corpo que o veste.
    No teatro e, principalmente, na dança e na performance, a ideia do figurino como potência para o gesto do ator tem sido explorada por diferentes encenadores. Conceber figurinos que possam propositalmente tensionar o corpo do ator, de modo a modificar sua movimentação ou mesmo direcioná-la, criando desenhos que vão além de formas humanas tradicionais, têm sido um procedimento bastante utilizado desde o início do século XX.
    O que se pergunta aqui é se a criação de figurino para o cinema pode também estabelecer uma relação mais direta com a gestualidade do ator, para além da construção visual da personagem, e de que modo isso seria possível, considerando-se as diferentes linguagens e gêneros cinematográficos.
    Não nos referimos aqui simplesmente a modelagens que modifiquem a silhueta do ator, como, por exemplo, em filmes cujo foco é a reconstrução histórica, em que é comum que os trajes busquem se assemelhar a silhuetas características do período retratado. Isso, por si só, não é uma garantia de que o traje terá um impacto tão grande no gestual do corpo do ator, pois, o que se percebe, é que essas peças são costuradas prezando pelo conforto dos atores, preocupando-se apenas em manter a visualidade do período histórico e não a sensação de usá-las na época.
    Tampouco pensamos aqui em figurinos que por alguma razão tiveram erros de construção, provocando algum tipo de restrição de movimento, problema que tem sido comum, por exemplo, entre os atores que interpretam heróis. Na tentativa de fazer o corpo do ator parecer esculpido como nas histórias em quadrinhos, os figurinistas acabam criando trajes que são muito difíceis de serem colocados. O foco aqui não é pensar em problemas de costura, mas em trajes que são propositalmente criados com uma determinada modelagem para auxiliar na construção do trabalho de corpo do ator.
    Ainda que inicialmente se possa pensar principalmente em obras audiovisuais realizadas a partir de uma linguagem menos realista, o que defendemos aqui é que a forma de construção do figurino pode impactar na construção gestual do ator como um todo em qualquer gênero trabalhado. Um exemplo recente é “Garota Dinamarquesa” (2015), dirigido por Tom Hooper. Paco Delgado, figurinista da obra, conta que, no início do filme, para demonstrar o sentimento de inadequação de Lili Elben (interpretada por Eddie Redmayne), mulher transgênero que viveu nos anos 1920 em Copenhagen, Redmayne utilizava trajes de alfaiataria justos ao corpo, de modo a fazer com que seus movimentos ficassem contidos. O figurinista utilizou esse procedimento para aludir à própria sensação de aprisionamento que a personagem sentia.
    A proposta aqui é investigar este e outros casos em que o traje modifica propositalmente os movimentos do ator, colocando o trabalho de construção corporal no centro da relação entre o traje e aquele que o usa. Isso aprofunda as possibilidades de criação do gesto do ator, além de incentivar uma criação processual, que faz com que o ator seja uma parte da própria construção do figurino.

Bibliografia

    BARBIERI, Donatella. Costume in performance: Materiality, Culture and the Body. Londres: Bloomsbury, 2017.
    BORGES, Cristian. A representação do movimento e o duplo estatuto do corpo. Revista Visuais, Campinas, SP, v. 7, n. 2, p. 9–31, 2021. Disponível em: https://econtents.bc.unicamp.br/inpec/index.php/visuais/article/view/15911. Acesso em 18 abr. 2026.
    PAVIS, Patrice. A análise dos espetáculos. São Paulo: Perspectiva, 1996.
    WWD. Disponível em: Acesso em 18 abr. 2026.