Ficha do Proponente
Proponente
- Lígia Maciel Ferraz (UBI)
Minicurrículo
- Lígia Maciel Ferraz é doutoranda em Media Artes pela Universidade da Beira Interior (com bolsa FCT), mestre em Estudos Comparatistas pela Universidade de Lisboa e bacharel em Comunicação Social — Cinema e Vídeo pela UNISUL. Investiga o trabalho doméstico no cinema latino-americano por uma perspectiva figural e comparada. Em Portugal, integra o AfectaLab e a Unidade de Investigação em Artes e é membro da Direção da AIM. Colabora com festivais de cinema com programação, júri e crítica.
Ficha do Trabalho
Título
- As poéticas do vão da porta no trabalho doméstico do cinema latino-americano
Seminário
- Estudos Comparados de Cinema
Resumo
- A partir do motivo visual do vão da porta, analiso os filmes A mulher sem cabeça, Aquarius e Santiago para pensar as poéticas do trabalho doméstico no cinema latino-americano. Numa abordagem figural e comparada, aproximando cinema, arte e filosofia, percebo a potência plástica singular do vão da porta como uma passagem que abre e fecha empregadas e mordomo por meio de luz, sombra e enquadramento. Pelas suas manifestações assombrosas, é possível acessar as suas experiências de agência e controle.
Resumo expandido
- Na história do cinema latino-americano, a figura da trabalhadora doméstica aparece como uma presença constante, embora muitas vezes discreta. Desde o início dos anos 2000, cresce o número de filmes com empregadas protagonistas que trazem para o centro da narrativa e para o interior do espaço doméstico questões de classe que evidenciam as diferenças entre empregada e família empregadora. No entanto, há filmes que mantêm essas figuras como figurantes ou personagens secundárias, mas as tornam visíveis pelo tratamento estético singular dado aos sons e às imagens. Ambas as estratégias contribuem para um pensamento do cinema sobre o trabalho doméstico por meio de suas invenções figurativas, pelas quais um filme mostra ser capaz de alterar como percebemos e concebemos diferentes fenômenos e as relações entre eles (Guimarães; Veras, 2016).
Entre figurantes e protagonistas, pretendo analisar A mulher sem cabeça (Martel, 2009), Aquarius (Mendonça Filho, 2016) e Santiago (Moreira Salles, 2007) pelo mesmo motivo visual: o vão da porta. Nos três filmes, o vão da porta deixa de ser uma simples estrutura arquitetônica para criar uma moldura dentro de uma moldura, capaz de mostrar e esconder as empregadas e o mordomo, marcando características onipresentes e assombrosas. O vão da porta torna-se um portal por onde materializam passagens entre confiança e desconfiança, luz e sombra, movimentos fugazes e rígidos, gestos lentos e sombrios.
Como método, recorrerei à abordagem figural e comparada assente na fenomenologia (Didi-Huberman, 2020), aproximando o cinema do campo da arte e da filosofia. Enquanto o figural é um processo da imagem que emana de “uma lógica do visual como ato” (Dubois, 2012, p. 109), as constelações fílmicas (Souto, 2019) são um método comparatista que permitem reunir filmes que se aproximam ou se afastam sob um mesmo motivo visual (Balló; Bergala, 2016). Juntas, as abordagens figural e comparada oferecem um aporte teórico-metodológico inventivo que potencializa uma análise baseada na comparação das evidências das imagens, proporcionando reflexões variadas no campo dos estudos fílmicos a respeito do próprio cinema, e, neste caso, do cinema latino-americano.
Em Aquarius, enquanto a empregada do presente é de confiança e garante o bom funcionamento da casa permanecendo no fundo do quadro e na cozinha, a empregada do passado, após ser chamada de “criatura” pela patroa, ganha corpo ao sair do álbum de fotografias e atravessar o vão da porta num movimento fugaz que mal a câmera consegue captar. Em A mulher sem cabeça, o filme endossa o estado de assombro da protagonista ao fazer das figuras pobres seres assombrosos. Ao atravessarem o vão da porta e escaparem para fora do quadro, perdem seus contornos ou ganham forma humana, aumentando a desconfiança da patroa.
Como contraponto às empregadas figurantes, Santiago apresenta o antigo mordomo como figura central, mas emoldurada por enquadramentos rígidos do vão da porta que reduzem o campo visual, mantendo-o à distância, cerceado e controlado pelas ordens do filho do patrão. As sombras intensas produzidas no espaço e em si fazem dele um prisioneiro da sua casa e da sua própria condição, mas que podem ser libertadas na montagem, na sua transfiguração póstuma nos montes de papéis que datilografou ao longo da vida como copista.
No cotejo entre os três filmes, as imagens mostram-se enquanto imagem: som, cor, luz, sombra dão a ver a transfiguração das figuras do trabalho doméstico, criando categorias da experiência do mundo do trabalho com as suas invenções, sensações e emoções, ao atribuírem ao trabalho doméstico valores como agência e controle.
Com esta comunicação busco fortalecer a relação entre os Estudos Comparados e a análise figural (Brenez, 1998). Ao incluir o motivo visual como eixo agregador das constelações fílmicas, discuto a presença do trabalho doméstico no cinema latino-americano pelas suas invenções figurativas, dando a ver um pensando das formas pela amplitude das imagens.
Bibliografia
- BALLÓ, Jordi; BERGALA Alain (org). Motivos visuales del cine. Barcelona: Galaxia Gutenberg, 2016.
BRENEZ, Nicole. De la figure en général et du corps en particulier: L’invention figurative au cinéma. Paris: De Boeck Université, 1998.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Imagens apesar de tudo. São Paulo: Editora 34, 2020.
DUBOIS, Philippe. Plasticidade e cinema: A questão do figural. In: HUCHET, Stéphane (org.) Fragmentos de uma teoria da arte. São Paulo: Edusp, 2012. p. 97–118.
GUIMARÃES, Victor; VERAS, Pedro. Invenção figurativa e pensamento fílmico. In: PENAFRIA, Manuela et al. (org.) Propostas para a teoria do cinema. Teoria dos Cineastas, Vol.2. Covilhã: LabCom.IFP, 2016. p. 15–38.
SOUTO, Mariana. Infiltrados e invasores: Uma perspectiva comparada sobre relações de classe no cinema brasileiro. Salvador: EDUFBA, 2019.