Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Matheus Martins Hernandes (Unicamp)

Minicurrículo

    Matheus Martins Hernandes é mestrando do Programa de Pós-Graduação em Multimeios, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), na linha de pesquisa “História, estética, práticas e processos midiáticos do cinema e do audiovisual”, sob orientação do prof. Dr. Marcius Freire. Sua pesquisa engloba a forma fílmica e aspectos historiográficos do cinema. É graduado em Comunicação e Multimeios, pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), em que também organizou o projeto de extensão Cine UEM.

Ficha do Trabalho

Título

    Confrontando vestígios: a pornochanchada na construção de um discurso sobre a Ditadura Militar

Eixo Temático

    ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS

Resumo

    O trabalho analisa o filme Histórias que nosso cinema (não) contava (Fernanda Pessoa, 2017), documentário de compilação que remonta trechos da pornochanchada para construir um discurso histórico sobre a Ditadura Civil-Militar brasileira. Examina como a montagem reconfigura essas ficções dos anos 1970 como vestígios históricos, por meio do contraste de discursos, vinculando cinema e história.

Resumo expandido

    A presente comunicação propõe analisar o filme Histórias que nosso cinema (não) contava (Fernanda Pessoa, 2017) a partir de um recorte específico: o modo como a montagem de excertos de 28 filmes da pornochanchada constrói um discurso histórico sobre a Ditadura Militar brasileira. A apresentação se concentrará em alguns segmentos do filme, a fim de evidenciar como imagens originalmente desvinculadas de uma intenção política passam a operar criticamente quando reinscritas em um novo contexto.

    A pesquisa parte da perspectiva de Marc Ferro (1992), segundo a qual o cinema pode ser compreendido como forma de conhecimento histórico, não por ilustrar fatos, mas por condensar, em suas imagens, marcas do contexto de sua produção. Assim, os filmes são tomados como artefatos culturais que expressam valores, tensões e imaginários de sua época, incluindo dimensões latentes que não se apresentam de modo imediato. Ao serem deslocadas de seus contextos originais e rearticuladas na montagem, as imagens da pornochanchada passam a produzir novos sentidos, evidenciando aquilo que o autor denomina “zona de realidade não visível”.

    Nesse processo, torna-se central a reflexão de Georges Didi-Huberman sobre a imagem, como campo de tensões que resiste a uma leitura estabilizada. Diante das imagens remontadas, o que está em jogo não é apenas o que elas mostram, mas o que emerge do intervalo entre elas. A montagem, ao promover o choque entre fragmentos, impede a fixação de um sentido único e reativa a potência crítica dessas imagens.

    A partir dessa perspectiva, a análise se aproxima da noção de filme de compilação tal como formulada por Jay Leyda, entendendo-o como uma prática que reorganiza materiais preexistentes para produzir novos sentidos. No caso do filme de Fernanda Pessoa, essa operação incide sobre um conjunto de obras de ficção comercial, cujo deslocamento para um novo contexto de montagem permite não apenas reconfigurar seu significado, mas também interrogá-las enquanto vestígios de uma época.

    Esse gesto encontra ressonância na reflexão de Walter Benjamin sobre a história, em particular na ideia de “escovar a história a contrapelo”. Ao justapor fragmentos díspares e deslocar suas funções originais, o filme rompe com uma leitura linear do passado, fazendo emergir suas descontinuidades, seus conflitos e suas zonas de opacidade.
    Em diálogo com essa abordagem, Catherine Russell propõe pensar o cinema de arquivo como um campo de reativação da memória, no qual a remontagem desempenha um papel central. Para a autora, o arquivo não é um depósito estático, mas um espaço de atualização, em que os excertos, ao serem reinscritos, adquirem novas camadas de sentido e passam a operar como formas de pensamento histórico.

    Do ponto de vista analítico, a comunicação destacará como o filme articula, nos segmentos selecionados, três eixos recorrentes — política, economia e corpo/sexualidade — que atravessam e tensionam os diferentes blocos. Esses eixos não se apresentam de forma isolada, mas se entrecruzam, produzindo um campo de forças em que o discurso oficial do regime é constantemente desestabilizado pelas imagens do cinema erótico-popular.

    Ao privilegiar a montagem como procedimento central, a comunicação busca evidenciar como o filme transforma excertos de ficção em operadores de reflexão histórica, sugerindo que o cinema não apenas representa o passado, mas participa ativamente de sua elaboração crítica.

Bibliografia

    ABREU, Nuno Cesar. Boca do Lixo: cinema e classes populares. 2. ed. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2015. E-book.

    BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas. 3. ed. São Paulo: Editora Brasiliense. 1987.

    DIDI-HUBERMAN, Georges. Imagens apesar de tudo. Tradução de Vanessa Brito e João Pedro Cachopo. Lisboa: KKYM, 2012.

    DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante da imagem: questão colocada aos fins de uma história da arte. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Editora 34, 2013.

    FERRO, Marc. Cinema e História. Tradução: Flávia Nascimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

    LEYDA, Jay. Films beget films: a study of the compilation film. Nova Iorque: Hill and Wang, 1964.

    ROSENSTONE, Robert. A história nos filmes, os filmes na história. 2. ed. Tradução: Marcello Lino. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2015.

    RUSSELL, Catherine. Archiveology: Walter Benjamin and archival film practices. Durham: Duke University Press, 2018.