Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Matheus José Pessoa de Andrade (UFPB)

Minicurrículo

    Docente do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal da Paraíba, da área de Direção de Fotografia. Membro do GPCEP – Grupo de Pesquisa Cinematografia, Expressão e Pensamento (UFF-CNPq). Pesquisador, autor do livro “A noite no cinema: ensaios sobre direção de fotografia” (2023).

Ficha do Trabalho

Título

    Da filosofia à direção de fotografia: o percurso formativo de Valentina Ricardo

Mesa

    Estudos de trajetória em Direção de Fotografia

Resumo

    Este é um estudo sobre o percurso formativo da diretora de fotografia manauara Valentina Ricardo. Nosso esforço consiste em mapear o mosaico de espaços e processos formativos percorrido e vivenciado por ela para o exercício da profissão. A partir de entrevistas concedidas pela cineasta, esboçamos um trajeto atravessado por questões de geopolítica e de gênero.

Resumo expandido

    Valentina Ricardo é uma diretora de fotografia natural da cidade de Manaus, no Amazonas. Em 2020, recebeu o prêmio de Melhor Direção de Fotografia no Festival de Gramado pelo trabalho desenvolvido no curta-metragem O barco e o rio, filme dirigido por Bernardo Ale Abinader.

    Professora de filosofia e diretora de fotografia, Valentina cursou Filosofia na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), concluindo em 2015. Ela atua na Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar (SEDUC – Amazonas). “Eu lembro que quando fiz o vestibular em 2010, eu escolhi Filosofia porque não tinha uma faculdade de Cinema, ainda, em Manaus. E eu não queria fazer Jornalismo, que era o que a galera naturalmente fazia e começava a estudar foto para fazer cinema” (Leão do Norte, 2021). Em estudos anteriores analisamos percursos pelo jornalismo para o exercício profissional da cinematografia (Andrade, 2023), constatando que esse caminho de capacitação por aproximação é uma realidade no Brasil, pelos mais variados motivos, inclusive a questão geográfica, como narra Valentina Ricardo. Entendemos que são aspectos ligados à geopolítica do Brasil, precisamente sobre a região Norte e a política brasileira. Ao mesmo tempo, seu percurso nos revela uma forma de costura com o pensamento filosófico para o exercício da cinematografia.

    Nesse trajeto acadêmico pela filosofia, Valentina Ricardo enveredou pelas reflexões do campo da Estética do cinema, na perspectiva de Gilles Deleuze, vivenciando uma proximidade com o audiovisual pelas vias da pesquisa. “Comecei com essa área mais intelectual e depois eu fui fazendo alguns cursos na área de audiovisual, de fotografia, cursos livres mesmo. Até aparecer o curso de Cinema da UEA” (Cine Set, 2024). A recorrência a cursos complementares em paralelo à graduação nos apresenta um caminho peculiar, pois, em sua fala, vem como uma forma de capacitação para o exercício profissional em audiovisual, mostrando o enlace entre o conhecimento filosófico e o tecnológico na sua formação.

    Em 2015, iniciou o curso superior de Tecnologia em Produção Audiovisual oferecido pela Universidade Estadual do Amazonas (UEA), finalizando em 2018. Mesmo assim, Valentina Ricardo não omite a importância da formação em Filosofia para o seu trabalho como diretora de fotografia, sobretudo na interpretação de um roteiro. “O que me ajuda é porque eu sou da filosofia. Então, você chega com uma coisa mais substancial, com camadas. Para mim, é mais fácil interpretar e tirar disso um filme do que alguém que chega e fala: Ah! Eu quero só uma foto bonita. Quero que fique bonito” (Cine Set, 2024).
    De fato, ela nos esclarece sobre a importância da reflexão filosófica, como isso lhe subsidia no labor da cinematografia, ao mesmo tempo que sabemos que ela também possui o conhecimento técnico da área. Entretanto, nem sempre só o conhecimento é o suficiente. “A primeira oportunidade que eu tive foi em 2018, na “A febre”, com Barbara Alvarez, que é uma fotógrafa uruguaia, membra da DAFB, que é o coletivo de diretoras de fotografia do Brasil, que pensam essa função da direção de fotografia de uma forma mais inclusiva para as assistentes mulheres” (Leão do Norte, 2021). Aqui, Valentina destaca tanto a oportunidade como um fator de aprendizagem e inclusão no mercado, reconhecendo o Set também como um espaço formativo, quanto a importância das políticas de gênero para a capitalização e inserção das mulheres no campo profissional do cinema.

    O percurso formativo de Valentina Ricardo nos permite observar dados relacionados tanto à questão geopolítica (Santos, 2010), de alguém que está numa região onde a formação em audiovisual ainda é escassa quando comparada a outras regiões do país, quanto ao demarcador social de gênero na direção de fotografia (Tedesco, 2016), o qual implica em condições desiguais de oportunidade e atuação nesse mercado de trabalho.

Bibliografia

    ANDRADE, Matheus. Do fotojornalismo à cinematografia. In: Anais de textos completos do XXVI Encontro da SOCINE: volverse otras políticas, imagens, sons, fronteiras [recurso eletrônico]. São Paulo: SOCINE, 2024. pp 723-728.
    CINE SET. Valentina Ricardo e a Direção de Fotografia | Por Trás das Câmeras do Cinema Amazonense. Youtube, 16 out. de 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=_fO9MV_PZTs&t=35s. Acesso em: 14 mar. De 2026.
    LEÃO DO NORTE. Retratos do Audiovisual Manauara | Valentina Ricardo | T01-E01. Youtube, 04 de jan. 2021. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=icN20-LxoJs. Acesso em: 16 de mar. 2026.
    SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 19ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.
    TEDESCO, Marina. Cavalcanti. Mulheres atrás da câmera: a presença feminina na direção de fotografia de longas-metragens ficcionais brasileiros. Significação: Revista de cultura audiovisual, São Paulo, n.43, p.47-68, 2016.