Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Bruno Casalotti Camillo Teixeira (Unicamp)

Minicurrículo

    Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (2012), Mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2016) e Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (2025). Professor Assistente da Escola de Comunicação do Centro Universitário FMU-FIAM FAAM e do curso de pós-graduação em Gestão de Pessoas da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG). Em sua pesquisa de doutorado, estudou o tema das relações de trabalho em audiovisual.

Ficha do Trabalho

Título

    A estrutura social do trabalho em audiovisual no Brasil e a análise de classes

Seminário

    Políticas, economias e culturas do cinema e do audiovisual no Brasil

Resumo

    Esta comunicação propõe uma agenda de pesquisa sobre as desigualdades e as relações de classe no espaço audiovisual brasileiro. Articula dados da RAIS, PNAD e entrevistas para examinar vínculos, rendimentos, escolaridade e situações ocupacionais. Propõe os conceitos de “divisão social da notoriedade” e “estrutura social do trabalho” para interpretar hierarquias entre funções criativas e técnicas, associando-as ao acesso desigual a capital social, capital cultural e oportunidades profissionais.

Resumo expandido

    O objetivo desta comunicação é propor princípios metodológicos e epistemológicos para a análise dos efeitos de estruturas de desigualdades sociais – em particular, das relações de classe social – sobre a reprodução de hierarquias laborais e situações ocupacionais no mundo do trabalho em audiovisual no Brasil. Busca-se, assim, compreender de que modo as dinâmicas de classe da sociedade brasileira condicionam o acesso, a mobilidade social e o reconhecimento profissional nesse setor. A proposta articula dados quantitativos e qualitativos, de modo a oferecer uma leitura panorâmica das posições sociais existentes no espaço audiovisual brasileiro. Igualmente, busca-se mapear quais são os mecanismos materiais e simbólicos que sustentam essas posições ao longo do tempo. No plano quantitativo, são mobilizados dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), capazes de fornecer informações sobre vínculos de emprego, rendimentos, escolaridade e distribuição ocupacional. No plano qualitativo, são utilizados dados oriundos de entrevistas semiestruturadas realizadas com sujeitos representativos do recorte empírico, isto é, profissionais que atuam diretamente na produção e realização de obras audiovisuais. Em pesquisa de doutorado recentemente concluída (CASALOTTI, 2025), identificamos que a estrutura social do trabalho em audiovisual no Brasil se organiza nos termos do que denominamos “divisão social da notoriedade”. Tal noção remete à distribuição desigual de visibilidade e reconhecimento social entre situações ocupacionais, distinguindo profissionais associados à autoria e à concepção criativa de obras daqueles vinculados à execução técnica e ao suporte produtivo. Esta comunicação propõe investigar em que medida o continuum que representa essa divisão se relaciona a assimetrias sociais mais amplas, interpretáveis por meio de uma análise de classes. Incorporamos o termo “análise de classes” de Wright (2015a; 2015b), autor cujos pressupostos metodológicos permitem associar as relações de classe a variáveis como ocupação, qualificação e apropriação de excedentes. Incorporamos o conceito de “desigualdade” em Tilly (2000), autor cujos princípios teóricos permitem associar as posições sociais dos sujeitos ao acesso a determinados recursos produtivos. Busca-se, assim, correlacionar a “divisão social da notoriedade” a outros elementos empiricamente verificáveis que influenciam as posições no espaço audiovisual brasileiro, entre os quais o acúmulo de capital social, redes de relacionamento e capital cultural. Particularmente, a escolaridade aparece como um recurso relevante, uma vez que constitui capital adquirido anteriormente à inserção profissional, sem deixar de produzir efeitos duradouros sobre a distribuição de oportunidades nesse mercado de trabalho. Parte-se da premissa de que capitais previamente acumulados integram processos mais amplos de estratificação social que tendem a refletir-se na estrutura social do trabalho em audiovisual no Brasil. Por fim, a partir dos dados coletados, distingue-se essa estrutura entre três grupos em que ocupações e posições sociais são correlacionadas: Grupo 1 – Alta Remuneração, e/ou Alta Qualificação, e/ou Alto Poder Decisório, e/ou Alto Acúmulo de Capital Social; Grupo 2 – Remuneração Intermediária, e/ou Qualificação Intermediária, e/ou Poder Decisório Intermediário, e/ou Acúmulo Intermediário de Capital Social; Grupo 3 – Baixa Remuneração, e/ou Baixa Qualificação, e/ou Baixo Poder Decisório, e/ou Baixo Acúmulo de Capital Social. Tais grupos representam um exercício preliminar de visualização das hierarquias laborais em questão, não as limitando às profissões juridicamente reconhecidas, mas estendendo-as às interações sociais mais amplas que organizam esse universo. Prospecta-se, enfim, que tal exercício possibilite uma agenda de pesquisa sobre os mecanismos de distinção social e acúmulo de oportunidades no espaço audiovisual brasileiro.

Bibliografia

    AUTRAN, Arthur. O pensamento industrial cinematográfico brasileiro. Tese (doutorado). Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Artes. Campinas, SP, 2004.
    CASALOTTI, Bruno. Trabalho e trabalhadores do audiovisual no Brasil: estrutura ocupacional, contextos de produção, desigualdades e reconfigurações do emprego. Tese (Doutorado). Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Campinas, SP, 2025.
    LIN, Nan. Social Capital: A Theory of Social Structure and Action. Cambridge: Cambridge University Press, 2001.
    SANTOS, José Alcides Figueiredo. Uma classificação socioeconômica para o Brasil. Revista brasileira de ciências sociais, v. 20, p. 27-45, 2005.
    TILLY, Charles. De esencias y de vínculos. In: La desigualdad persistente. Buenos Aires: Manantial, p. 15-53, 2000.
    WRIGHT, Erik Olin. Análise de classes. Revista Brasileira de Ciência Política, n. 17, p. 121-163, 2015a.
    WRIGHT, Erik Olin. Understanding class. London: Verso Books, 2015b.