Ficha do Proponente
Proponente
- Bruno Casalotti Camillo Teixeira (Unicamp)
Minicurrículo
- Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (2012), Mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2016) e Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (2025). Professor Assistente da Escola de Comunicação do Centro Universitário FMU-FIAM FAAM e do curso de pós-graduação em Gestão de Pessoas da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG). Em sua pesquisa de doutorado, estudou o tema das relações de trabalho em audiovisual.
Ficha do Trabalho
Título
- A estrutura social do trabalho em audiovisual no Brasil e a análise de classes
Seminário
- Políticas, economias e culturas do cinema e do audiovisual no Brasil
Resumo
- Esta comunicação propõe uma agenda de pesquisa sobre as desigualdades e as relações de classe no espaço audiovisual brasileiro. Articula dados da RAIS, PNAD e entrevistas para examinar vínculos, rendimentos, escolaridade e situações ocupacionais. Propõe os conceitos de “divisão social da notoriedade” e “estrutura social do trabalho” para interpretar hierarquias entre funções criativas e técnicas, associando-as ao acesso desigual a capital social, capital cultural e oportunidades profissionais.
Resumo expandido
- O objetivo desta comunicação é propor princípios metodológicos e epistemológicos para a análise dos efeitos de estruturas de desigualdades sociais – em particular, das relações de classe social – sobre a reprodução de hierarquias laborais e situações ocupacionais no mundo do trabalho em audiovisual no Brasil. Busca-se, assim, compreender de que modo as dinâmicas de classe da sociedade brasileira condicionam o acesso, a mobilidade social e o reconhecimento profissional nesse setor. A proposta articula dados quantitativos e qualitativos, de modo a oferecer uma leitura panorâmica das posições sociais existentes no espaço audiovisual brasileiro. Igualmente, busca-se mapear quais são os mecanismos materiais e simbólicos que sustentam essas posições ao longo do tempo. No plano quantitativo, são mobilizados dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), capazes de fornecer informações sobre vínculos de emprego, rendimentos, escolaridade e distribuição ocupacional. No plano qualitativo, são utilizados dados oriundos de entrevistas semiestruturadas realizadas com sujeitos representativos do recorte empírico, isto é, profissionais que atuam diretamente na produção e realização de obras audiovisuais. Em pesquisa de doutorado recentemente concluída (CASALOTTI, 2025), identificamos que a estrutura social do trabalho em audiovisual no Brasil se organiza nos termos do que denominamos “divisão social da notoriedade”. Tal noção remete à distribuição desigual de visibilidade e reconhecimento social entre situações ocupacionais, distinguindo profissionais associados à autoria e à concepção criativa de obras daqueles vinculados à execução técnica e ao suporte produtivo. Esta comunicação propõe investigar em que medida o continuum que representa essa divisão se relaciona a assimetrias sociais mais amplas, interpretáveis por meio de uma análise de classes. Incorporamos o termo “análise de classes” de Wright (2015a; 2015b), autor cujos pressupostos metodológicos permitem associar as relações de classe a variáveis como ocupação, qualificação e apropriação de excedentes. Incorporamos o conceito de “desigualdade” em Tilly (2000), autor cujos princípios teóricos permitem associar as posições sociais dos sujeitos ao acesso a determinados recursos produtivos. Busca-se, assim, correlacionar a “divisão social da notoriedade” a outros elementos empiricamente verificáveis que influenciam as posições no espaço audiovisual brasileiro, entre os quais o acúmulo de capital social, redes de relacionamento e capital cultural. Particularmente, a escolaridade aparece como um recurso relevante, uma vez que constitui capital adquirido anteriormente à inserção profissional, sem deixar de produzir efeitos duradouros sobre a distribuição de oportunidades nesse mercado de trabalho. Parte-se da premissa de que capitais previamente acumulados integram processos mais amplos de estratificação social que tendem a refletir-se na estrutura social do trabalho em audiovisual no Brasil. Por fim, a partir dos dados coletados, distingue-se essa estrutura entre três grupos em que ocupações e posições sociais são correlacionadas: Grupo 1 – Alta Remuneração, e/ou Alta Qualificação, e/ou Alto Poder Decisório, e/ou Alto Acúmulo de Capital Social; Grupo 2 – Remuneração Intermediária, e/ou Qualificação Intermediária, e/ou Poder Decisório Intermediário, e/ou Acúmulo Intermediário de Capital Social; Grupo 3 – Baixa Remuneração, e/ou Baixa Qualificação, e/ou Baixo Poder Decisório, e/ou Baixo Acúmulo de Capital Social. Tais grupos representam um exercício preliminar de visualização das hierarquias laborais em questão, não as limitando às profissões juridicamente reconhecidas, mas estendendo-as às interações sociais mais amplas que organizam esse universo. Prospecta-se, enfim, que tal exercício possibilite uma agenda de pesquisa sobre os mecanismos de distinção social e acúmulo de oportunidades no espaço audiovisual brasileiro.
Bibliografia
- AUTRAN, Arthur. O pensamento industrial cinematográfico brasileiro. Tese (doutorado). Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Artes. Campinas, SP, 2004.
CASALOTTI, Bruno. Trabalho e trabalhadores do audiovisual no Brasil: estrutura ocupacional, contextos de produção, desigualdades e reconfigurações do emprego. Tese (Doutorado). Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Campinas, SP, 2025.
LIN, Nan. Social Capital: A Theory of Social Structure and Action. Cambridge: Cambridge University Press, 2001.
SANTOS, José Alcides Figueiredo. Uma classificação socioeconômica para o Brasil. Revista brasileira de ciências sociais, v. 20, p. 27-45, 2005.
TILLY, Charles. De esencias y de vínculos. In: La desigualdad persistente. Buenos Aires: Manantial, p. 15-53, 2000.
WRIGHT, Erik Olin. Análise de classes. Revista Brasileira de Ciência Política, n. 17, p. 121-163, 2015a.
WRIGHT, Erik Olin. Understanding class. London: Verso Books, 2015b.