Ficha do Proponente
Proponente
- Leonardo Esteves (UFMT)
Minicurrículo
- Leonardo Esteves é docente do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Mato Grosso. Integra o quadro permanente do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea (PPGECCO) e do Programa de Pós-Graduação em História (PPGHIS), ambos na UFMT.
Ficha do Trabalho
Título
- Ulisses filmado por Sganzerla
Resumo
- A tradução pioneira (e integral) de Ulisses para o português, publicada em 1966, impacta diversos segmentos da cultura brasileira. Entre eles, o cinema, tendo exercido fascínio imediato sobre Rogério Sganzerla nos anos que sucedem a tradução. Esta comunicação pretende analisar duas aproximações à literatura joyceana na filmografia do diretor, debatendo a vinculação ao escritor irlandês em meio à renúncia ao cinema de autor, pauta explicitada por Sganzerla em textos e entrevistas no período.
Resumo expandido
- Durante o período que antecede a criação da Belair Filmes, Rogério Sganzerla faz uma série de comentários sobre o projeto que sucederia A mulher de todos, intitulado então como O picareta. Nestes comentários, o diretor põe em relevo uma radicalização prática do plano-sequência e a aproximação ao universo de James Joyce. O protagonista do filme seria uma espécie de “Ulisses brasileiro”, disposto a evidenciar complexidades do Brasil e do cinema brasileiro, como se vê nesta passagem, extraída de uma entrevista do cineasta dada a Alex Viany (1969, p. 4):
“O Ulisses brasileiro, em meu roteiro, é um picareta, um aventureiro, um inescrupuloso, que quer subir na vida de qualquer maneira. Farei o filme com som direto (…) Terá oito planos, de dez minutos cada um; estes planos, absolutamente independentes uns dos outros, levarão às últimas consequências certas ideias, através da agitação da câmera, do som, do diálogo. Em cada plano-sequência de 10 minutos, focalizarei um assunto mais ou menos fundamental do cinema brasileiro e procurarei desenvolvê-lo até chegar ao fim (…)”.
O picareta acabará resultando no ano seguinte em Sem essa, Aranha (1970), longa-metragem que manterá a meta da estruturação em planos-sequências independentes e a influência (entre outras) de Ulisses. Já em Carnaval na lama (1970) – produção iniciada por Sganzerla em 1969 em São Paulo, antes da criação da Belair – será filmado, no Rio de Janeiro e com equipe carioca, um plano-sequência intitulado “Ulisses, tomada primeira e única”. Nele, efetua-se uma espécie de adaptação disfuncional do livro de Joyce, pinçando trechos variados e aparentemente aleatórios do episódio Circe, o mais teatral e alucinante da obra.
A primeira tradução integral de Ulisses no Brasil, realizada por Antonio Houaiss e publicada originalmente em 1966, certamente soou como um material indispensável para Sganzerla à época, disposto a radicalizar o cinema e testar seus limites. Tomando como referência o projeto paródico/debochado encampado pela Belair, filiado à antropofagia oswaldiana (e disposto a ironizar tópicos como a industrialização, o cinema de autor, a cultura culta e a internacionalização), Joyce se situa, neste repertório, como um elemento, entre vários, a ser depurado criticamente. Para além da representatividade que o autor e todo seu trabalho já havia adquirido entre parcelas da crítica literária brasileira – e ao longo dos fragmentos de traduções de Ulisses realizadas desde os anos 1940 por Erasmo Pilotto e Haroldo de Campos –, a incursão das centenas de páginas em imagens resultaria em um desafio provocador e inédito. Sobretudo em “Ulisses, tomada primeira e única”. Pois o que se verá nas tentativas de Sganzerla irá diferir de forma veemente de Alucinação de Ulisses (1967), de Joseph Strick, que buscará romancear o livro com atores e dramatização nos arredores do objeto visado nesta pesquisa.
Esta comunicação pretende analisar as adaptações de Ulisses e da poética de Joyce neste par de filmes rodados por Sganzerla na Belair Filmes. Para tanto, levar-se-á em consideração um aspecto determinante no estilo de Joyce, a técnica do fluxo da consciência e sua transposição para o cinema, pauta complexa que já teria um histórico de tentativas, iniciadas nos anos 1920. Será o caso também de se deter, ao menos de forma introdutória, na natureza da citação do romance ao longo desses títulos. Nesse sentido, se tomará como base o processo empreendido por Joyce, em torno de pautas de extrema complexidade em sua época, e a maneira como Sganzerla irá entronizá-las no universo lúdico e tropicalista de sua obra sobre um Brasil então contemporâneo.
Bibliografia
- BROWN, R. 1999. The Absent-Minded War: The Boer War in James Joyce’s Ulysses. Kunapipi: Journal of Postcolonial Writing and Culture, Wollongong, v. XXI, nº 3, p. 81-89, 1999
ESTEVES, Leonardo. Belair cinema sonho. São Paulo: Alameda, no prelo
GALINDO, Caetano W. Sim, eu digo sim. São Paulo: Companhia das Letras, 2016
GULLAR, Ferreira. Vanguarda e subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978
HUMPHREY, Robert. O fluxo da consciência. São Paulo: McGraw-Hill do Brasil, 1976
JOYCE, James. Ulisses. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966
KIBERD, Declan. Introdução. In: JOYCE, James. Ulysses. São Paulo: Companhia das Letras, 2012
ROCHA, Glauber. O século do cinema. São Paulo: CosacNaify, 2006
VIANY, Alex. Confissão e desafio de um bandido incômodo. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 18 mai. 1969. Caderno B, p. 4
XAVIER, Ismail (Org.). A experiência do cinema. Rio de Janeiro: Graal, 2008
______. Alegorias do subdesenvolvimento. São Paulo: CosacNaify, 2012